De certa forma Rod já estava acostumado com Felicy batendo em sua porta altas horas da madrugada. Ele nem se incomodava de ser acordado, geralmente tentava abrir a porta com um sorriso preguiçoso no rosto, já que era o máximo que ele conseguia após acabar de se levantar. A ruiva precisava daquilo, não era como se ela aparecesse ali por algum motivo qualquer, os pesadelos que lhe atormentavam eram de fato um fardo muito grande para que ela carregasse sozinha. Rod sabia como era ter pesadelos, quando mais novo não só os tinha, como também compartilhava os de Dory.
A verdade era que o Rayner nutria alguns sentimentos pela Barnes, alguns que ele não sabia muito explicar, mas que haviam levado os dois até aquela relação de amizade colorida, as únicas certezas que ele tinha era que existia ali claramente um afeto e uma grande tendência a proteção. Era por isso que ele acordava no meio da noite e dividia a sua cama, enquanto tentava distraí-la contando alguma história de quando ele era mais novo, algumas envolvendo o pai, outras a mãe e até Penelope. Aquilo era tudo que ele tinha pra oferecer naquela situação, talvez não fosse muito, mas era o suficiente para que ela adormecesse.
Roderick deu um pulo da cama quando o celular vibrou debaixo do travesseiro, tateou o colchão ainda de olhos fechados a procura do aparelho e precisou se esforçar um pouco para enxergar as letras com a sua visão levemente embaçada e claridade que vinha da tela. Não era surpresa alguma que a mensagem fosse de Felicy, sabia que ela não demoraria muito para chegar ali. Ainda no escuro, se levantou e quase tropeçou nos sapatos que estavam no caminho até a porta. Acendeu a luz e abriu a porta, encontrando a ruiva parada lhe encarando, fazendo com que o famoso sorriso preguiçoso aparecesse no rosto dele. “Claro que não, eu tinha acabado de deitar.” Mentiu, numa tentativa de fazer a amiga se sentir um pouco melhor com a situação e não achasse que o estava atrapalhando, ainda que a cara amassada e as marcas de seu cobertor invalidasse a sua fala.“A que devo a honra da sua visita nessa noite estrelada?” Disse com um bom humor que não deveria ser o de alguém que havia acabado de acordar, mas raramente aquele tipo de humor abandonava Rod.
Aquela era a parte que menos gostava, esperar que a porta fosse aberta e o amigo viesse recebê-la, ele a tranquilizava de uma maneira que a ruiva nem sabia explicar, por isso acabava ali, em sua porta, esperando ansiosamente que ele abrisse. Rod fazia ela se sentir segura, não que fosse assumir isso em voz alta, afinal tentava sempre passar a imagem de forte e segura, mas nem sempre era realmente assim, a verdade é que muitas vezes tinha medo, de fraquejar, de deixar as pessoas entrarem, de acabar se machucando.
Tinha bastante tempo que chegara a conclusão de que o moreno não faria nada para machucá-la, mas não somos nós humanos, aqueles que estão inclinados a machucar quem mais nos importamos? Ao menos ela já tinha ouvido aquilo diversas vezes, talvez isso viesse da natureza autodestrutiva da raça. A ruiva suspirou e mordeu o lábio inferior, não devia estar pensando naquilo, não iria afastar Rod, não conseguiria nem se quisesse. Se conhecia o suficiente para saber que depois que realmente se abria com alguém não havia volta, e ele era o único que a conhecia tão bem quanto sua família.
Assim que bateu os olhos no melhor amigo teve certeza que havia o tirado da cama, mas um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, sabia que ele tentaria esconder isso e precisava assumir que gostava disso nele, de como ele tentava fazer parecer que ela não estava atrapalhando o seu sono, apesar da ruiva sempre saber que estava. - Você é um péssimo mentiroso, espero que sua vida nunca dependa disso. - A Barnes brincou e levou uma mão ao cabelo dele, bagunçando ainda mais, já se sentindo mais relaxada devido a presença do outro, as vezes se admirava com o poder que Rod tinha sobre ela, o mero fato dele estar ali, já ajudava e seria mentira dizer que não a assustava um pouco. - Além disso as marcas do seu cobertor e essa bela carinha amassada te entregam. - Brincou, fazendo carinho de leve no rosto dele e pensou um pouco. - Acho que me bateu uma saudade incontrolável de madrugada sabe? - Comentou exageradamente e então deu um sorriso sincero para Rod. - Vem, vamos entrar e nos enfiar debaixo das cobertas, eu normalmente não diria isso, mas quero um abraço. - Piscou para ele e entrou no quarto, fechando a porta atrás de si, tentava sempre parecer menos afetada por aqueles pesadelos do que realmente ficava, era uma maneira de se resguardar.