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Crônicas de Carolina
Como é difícil ser feliz nos dias de hoje. Ou estamos um pouco acima do peso, ou brigamos com o namorado, ou gostamos dele mais do que deveríamos, ou o trabalho não está tão bom…
Nos dias atuais, em que ser politicamente correto é imprescindível, uma coisa é garantida a qualquer pessoa que esteja um pouquinho em crise: é preciso conquistar o famoso tempo. Aquele que chamam de tempo qualitativo, o dedicado a você mesmo e às suas necessidades. Mas eu confesso: para mim, tempo é toda hora, todo dia, todo minuto.
Consigo aproveitar e usufruir o prazer da minha própria companhia quando estou dirigindo, quando estou sentada em uma cadeira de aeroporto ou no estúdio de gravação. E, claro, como qualquer pessoa, às vezes gosto de passar um fim de semana quietinha em casa. Não sou do tipo que sai bastante, e muito menos do tipo que precisa sempre ter alguém por perto.
Outro dia, uma amiga – bem-sucedida, que ganha dinheiro, é feliz no casamento, tem um filho lindo, um marido bacana e três casas incrivelmente bem decoradas – me disse em segredo: “Sabe Carolina, preciso de um pouco de tempo para mim”. Honestamente, sem lhe retirar o direito que todo indivíduo tem de escolher suas próprias necessidades, achei um pouco banal seu comentário. Isso porque, o meu tempo é todo dia mesmo.
Para aqueles que, vez ou outra, atravessam crises, um recado: não se sintam sós. Eu, com certeza, devo viver em crise permanente, pois estou sempre em busca de coisas diferentes. Às vezes, isso me traz um sentimento de insatisfação, mas nunca essa coisa blasé de “preciso de um tempo pra mim”. Meu negócio é trabalhar, acordar cedo, de preferência malhar um pouco, me reunir com meus amigos, desenvolver projetos… O trabalho me salva. Será que trabalhar não é realmente o nirvana máximo da felicidade? Afinal, é onde nos debatemos com todas as questões, adequações e dificuldades inerentes àqueles que buscam fazer seu ofício com garra.
Sou muito feliz fora do trabalho e valorizo muito minha vida pessoal. Mas sou infinitamente feliz trabalhando também. Sinto que tenho uma capacidade criativa que precisa constantemente encontrar uma abertura qualquer.
Hoje em dia, parece feio ser workaholic. Todo mundo faz ioga, conscientização corporal, respiração tântrica e busca o famoso “tempo pra si mesmo”. Pois eu acho que devo estar nadando contra a maré. Quero ser feliz sim, mas quero trabalhar muito. O trabalho não é uma parte separada, compartimentada do resto de mim mesma. Sou o que sou no que faço. Pessoalmente e profissionalmente também. Adoro viver conflitos, superar dificuldades e até me frustrar, pois me encontro com o impossível. Quantas coisas não consegui realizar? Mas nunca precisei que minha vida parasse para que eu pudesse me encontrar.
Ao contrário. É quando a minha vida roda, quando as coisas acontecem, quando olho pela janela e vejo que o mundo continua seguindo incólume seu caminho, aí sim é que consigo realmente me sentir (dentro do possível) inteira.
Momentos Difíceis
Hoje, vou falar sobre coragem, aquela que de um modo geral não interpretamos como “coragem verdadeira”. Fomos treinados para interpretá-la como algo desbravador e destemido. O homem capaz de enfrentar guerras, a mulher que encara desafios…
Percebermos esse tipo de atitude como coragem. É mais fácil, estamos acostumados a isso, mas, ultimamente, tenho me encantado por pessoas que são capazes de nos mostrar outra forma de coragem, muito mais frágil, porém poderosa. Vou citar dois exemplos…
Primeiro, a Marcia Cabrita, comediante talentosa e mulher incrível, que transformou sua dor diante do câncer que a acometeu na mais pura demonstração de humanidade e delicadeza. Lendo seu blog, muitas vezes me emocionei e chorei com a força de tanta sinceridade… Não sei, mas imagino que tenha sido muito difícil todo esse momento e que continua a ser, mas a força com que ela dizia: “Hoje estou me sentindo péssima, choro muito e tenho pena de mim mesma!”, me pareceu muito mais forte e real do que qualquer outro código sobre como enfrentar momentos difíceis. Nossa sociedade moderna não nos permite sofrer, por mais legítimo que seja o nosso sofrimento.
Outra pessoa que trata disso com muita sensibilidade e inteligência é a escritora americana Joan Didion, em seu “O Ano do Pensamento Mágico”. Nesse livro, ela conta como em um ano perdeu o marido e lutou desesperadamente para salvar a filha de uma doença muito rara. Essa mulher, uma das intelectuais americanas mais respeitadas da atualidade, fala sobre como é praticamente impossível sofrer em nossa sociedade. Afinal, passado um mês da morte do marido de uma vida inteira, já seria hora de ela reagir e retomar a vida normal. Mas que vida normal? Quando tudo muda de uma hora para outra, e nos encontramos completamente despreparados para superar ou entender o que está acontecendo, é que nos damos conta do quanto nossa sociedade não está pronta para lidar com a dor e o luto.
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Crônicas de Carolina
Como é difícil ser feliz nos dias de hoje. Ou estamos um pouco acima do peso, ou brigamos com o namorado, ou gostamos dele mais do que deveríamos, ou o trabalho não está tão bom…
Nos dias atuais, em que ser politicamente correto é imprescindível, uma coisa é garantida a qualquer pessoa que esteja um pouquinho em crise: é preciso conquistar o famoso tempo. Aquele que chamam de tempo qualitativo, o dedicado a você mesmo e às suas necessidades. Mas eu confesso: para mim, tempo é toda hora, todo dia, todo minuto.
Consigo aproveitar e usufruir o prazer da minha própria companhia quando estou dirigindo, quando estou sentada em uma cadeira de aeroporto ou no estúdio de gravação. E, claro, como qualquer pessoa, às vezes gosto de passar um fim de semana quietinha em casa. Não sou do tipo que sai bastante, e muito menos do tipo que precisa sempre ter alguém por perto.
Outro dia, uma amiga – bem-sucedida, que ganha dinheiro, é feliz no casamento, tem um filho lindo, um marido bacana e três casas incrivelmente bem decoradas – me disse em segredo: “Sabe Carolina, preciso de um pouco de tempo para mim”. Honestamente, sem lhe retirar o direito que todo indivíduo tem de escolher suas próprias necessidades, achei um pouco banal seu comentário. Isso porque, o meu tempo é todo dia mesmo.
Para aqueles que, vez ou outra, atravessam crises, um recado: não se sintam sós. Eu, com certeza, devo viver em crise permanente, pois estou sempre em busca de coisas diferentes. Às vezes, isso me traz um sentimento de insatisfação, mas nunca essa coisa blasé de “preciso de um tempo pra mim”. Meu negócio é trabalhar, acordar cedo, de preferência malhar um pouco, me reunir com meus amigos, desenvolver projetos… O trabalho me salva. Será que trabalhar não é realmente o nirvana máximo da felicidade? Afinal, é onde nos debatemos com todas as questões, adequações e dificuldades inerentes àqueles que buscam fazer seu ofício com garra.
Sou muito feliz fora do trabalho e valorizo muito minha vida pessoal. Mas sou infinitamente feliz trabalhando também. Sinto que tenho uma capacidade criativa que precisa constantemente encontrar uma abertura qualquer.
Hoje em dia, parece feio ser workaholic. Todo mundo faz ioga, conscientização corporal, respiração tântrica e busca o famoso “tempo pra si mesmo”. Pois eu acho que devo estar nadando contra a maré. Quero ser feliz sim, mas quero trabalhar muito. O trabalho não é uma parte separada, compartimentada do resto de mim mesma. Sou o que sou no que faço. Pessoalmente e profissionalmente também. Adoro viver conflitos, superar dificuldades e até me frustrar, pois me encontro com o impossível. Quantas coisas não consegui realizar? Mas nunca precisei que minha vida parasse para que eu pudesse me encontrar.
Ao contrário. É quando a minha vida roda, quando as coisas acontecem, quando olho pela janela e vejo que o mundo continua seguindo incólume seu caminho, aí sim é que consigo realmente me sentir (dentro do possível) inteira.
Momentos Difíceis
Hoje, vou falar sobre coragem, aquela que de um modo geral não interpretamos como “coragem verdadeira”. Fomos treinados para interpretá-la como algo desbravador e destemido. O homem capaz de enfrentar guerras, a mulher que encara desafios…
Percebermos esse tipo de atitude como coragem. É mais fácil, estamos acostumados a isso, mas, ultimamente, tenho me encantado por pessoas que são capazes de nos mostrar outra forma de coragem, muito mais frágil, porém poderosa. Vou citar dois exemplos…
Primeiro, a Marcia Cabrita, comediante talentosa e mulher incrível, que transformou sua dor diante do câncer que a acometeu na mais pura demonstração de humanidade e delicadeza. Lendo seu blog, muitas vezes me emocionei e chorei com a força de tanta sinceridade… Não sei, mas imagino que tenha sido muito difícil todo esse momento e que continua a ser, mas a força com que ela dizia: “Hoje estou me sentindo péssima, choro muito e tenho pena de mim mesma!”, me pareceu muito mais forte e real do que qualquer outro código sobre como enfrentar momentos difíceis. Nossa sociedade moderna não nos permite sofrer, por mais legítimo que seja o nosso sofrimento.
Outra pessoa que trata disso com muita sensibilidade e inteligência é a escritora americana Joan Didion, em seu “O Ano do Pensamento Mágico”. Nesse livro, ela conta como em um ano perdeu o marido e lutou desesperadamente para salvar a filha de uma doença muito rara. Essa mulher, uma das intelectuais americanas mais respeitadas da atualidade, fala sobre como é praticamente impossível sofrer em nossa sociedade. Afinal, passado um mês da morte do marido de uma vida inteira, já seria hora de ela reagir e retomar a vida normal. Mas que vida normal? Quando tudo muda de uma hora para outra, e nos encontramos completamente despreparados para superar ou entender o que está acontecendo, é que nos damos conta do quanto nossa sociedade não está pronta para lidar com a dor e o luto.
Por isso, quero deixar aqui a minha admiração por essas duas mulheres especiais. E vamos nessa, pessoal! Vamos sofrer com honestidade quando for inevitável, vamos chorar e vamos ser inadequados se não houver outra alternativa. Afinal, nossas dores são legítimas e merecem atenção. Me sinto muito mais próxima de pessoas que são humanas, que sofrem, que suam e que têm dúvidas sobre o que fazer de suas vidas. Isso porque busco a verdade e sei que ela nem sempre é agradável, porém mais rica e poderosa. Fica aqui o meu agradecimento a quem consegue transformar suas dores e mostrá-las com honestidade, a ponto de convertê-las na mais pura expressão de força e coragem. O meu mais sincero obrigada.
Por Carolina Ferraz