Enquanto a escuridão da noite se aproximava, como de costume, toda a cidade se preparava para a festa.  Nas janelas das casas do beco, no banco de madeira velho das praças ou nos balcÔes da lanchonete dos melhores salgados do mundo. O assunto era o mesmo e a ansiedade das pessoas também.
Eu também estava ansiosa para a exposição. Mas não pelas bebidas ou pelo show como a maioria dos meus amigos, estava ansiosa simplesmente por estar lå. Fora da minha zona de conforto como costumava chamar.
Todos jĂĄ estavam prontos quando finalmente resolvi entrar no banho. Odiava ser apressada, entĂŁo preferia ficar sempre por Ășltimo. NĂŁo ligava de chegar sozinha nos lugares, pra falar a verdade, atĂ© gostava.
Minha pele branca e pålida se tornava levemente rosada no inverno. Ao me despir no banheiro, fiquei alguns minutos me encarando no espelho da pia.  Talvez ainda não tivesse me acostumado com o meu novo reflexo.  Talvez ainda não soubesse, mas jå não era a mesma garotinha de sempre. Pelo menos não por fora.
Desde o Ășltimo ano, meus cabelos ondulados e ruivos cresceram atĂ© quase a cintura e os meus olhos que antes sĂł expressavam meiguice de uma criança, agora dizem que sou uma mulher de verdade. Minha barriga estava enorme e o que antes chamava de erro hoje me faz sorrir mais que tudo. Alguns podem chamar de loucura ser mĂŁe aos 16 anos, e eu tambĂ©m no inicio. Mas apesar de tudo, ao contrario do pai do meu filho, nunca pensei em tirar aquela criaturinha de mim. Mesmo com a pouca idade, sempre fui ciente que foi eu que âerreiâ e que ele nĂŁo tinha nada a ver com isso, sĂł estava ali, crescendo e se preparando para vim ao mundo e trazer amor pro meu coração jĂĄ descrente daquele sentimento.
Depois do banho, vesti meu vestido florido preferido, minha jaqueta jeans e procurei por toda parte minha sapatilha azul de camurça com laço. Para as entendidas de moda, aquele não era um look perfeito, mas pra mim aquele era o look ideal.
Fechei a porta, e quando cheguei na esquina da rua de casa, voltei pra conferir se realmente tinha feito isso.
A rua estava como costumava estar. Maçãs do amor, cocadas e pipocas por toda a parte. A iluminação amarelada, que ficava por conta das diversas luzes espalhadas pelas årvores, também estava presente. Enquanto olhava paras os lados e caminhava pela rua em busca de um rosto conhecido (e que me fizesse ter vontade de ficar ali) jå comia um churros sabor doce de leite, meu predileto.
Estava escuro e em frente o palco principal vĂĄrias garotas jĂĄ gritavam pelo cantor que faria aquela pequena cidade parar. JĂĄ havia escutado uma ou duas musicas do garoto, e talvez jĂĄ tenha visto uma foto dele alguma vez, mas seu rosto com certeza nĂŁo era uma das coisas que eu lembrava no momento.
Olhei em volta mais uma vez na tentativa de ver alguém conhecido, as garotas do colégio andavam pra lå e pra ca com roupas curtas de mais para a estação, eståvamos no inverno e no rio grande do sul, onde foi parar a lógica da vida onde pessoas vestiam roupas um pouco maiores naquela época do ano?
-Alice, vocĂȘ aqui? â Eduarda a garota que eu costumava chamar de melhor amiga antes de todos os acontecimentos que desandaram toda minha vida estava na minha frente, agora loira e mais magra que de costume, usando uma saia longa alta e um cropped como sempre. Sentia sua falta.
-Du? â Sorri e ela me abraçou, me obrigando a dar um passo pra trĂĄs
-Eu podia jurar que era um holograma que colocaram pra enfeitar a festa quando olhei pra vocĂȘ â Ela disse ajeitando meu cabelo
-Ou estragar ela â Sorri â Mas nĂŁo entendo por que a surpresa, eu disse que nunca perderia um festival, era o festival preferido dele â Eu nĂŁo queria tocar naquele assunto, mas era inevitĂĄvel. Perder meu pai logo em um dos momentos mais delicados da minha vida fez tudo mudar. E conseqĂŒentemente me afastar das pessoas mais importantes da minha vida, inclusive Eduarda. Ficamos em um silencio constrangedor atĂ© ela o quebrar com um sorrisoÂ
-Bom... VocĂȘ vai cantar? â Ela disse segurando minha mĂŁo
-NĂŁo, claro que nĂŁo - Falei a olhando
-E por que nĂŁo? Sabe que todo mundo aqui adora sua musica Lice
-VocĂȘ sabe... NĂŁo tem mais sentido
-Sério Alice? Sabe que ele sempre te apoiou em tudo em questão a musica, vai desistir de tudo assim?
-VocĂȘ sabe que sempre cantei por ele Du... NĂŁo vamos falar disso tudo bem?
-Sempre foi seu sonho, isso sim... Mas tudo bem â Ela sorriu â Vai querer conhecer o Luan?
-A nĂŁo, eu jĂĄ disse que nĂŁo quero conhecer nenhum garoto agora, jĂĄ nĂŁo basta o que vocĂȘ me apresentou aquele dia? Ele manda mensagens de amor atĂ© hoje no meu e-mail Eduarda, e eu estou grĂĄvida imagina que lindo eu paquerando com mais um desses garotinhos daqui, jĂĄ nĂŁo basta o que falam por ai â Falei dando um passo a frente pra começar a caminhar pelo parque de exposiçÔes
-Eu nĂŁo acredito â Ela começou a gargalhar de um jeito que sĂł ela conseguia quando a coisa nĂŁo tinha a menor graça
-Eu que nĂŁo acredito que vocĂȘ apresentou mesmo aquele garoto, ele nem deve abrir mais o olho de tanta droga que...
-NĂŁo! â Ela me interrompeu â Acha mesmo que Luan Ă© um garoto qualquer que quero te apresentar? E quem fala paquerar hoje em dia?
-Ah entĂŁo o Luan de agora Ă© especial? â Revirei os olhos
-Em que mundo vocĂȘ vive em? Luan Ă© o cantor do show que vocĂȘ ta â Ela ainda ria, agora com a mĂŁo na barriga, parei pra olhĂĄ-la
-Eu sabia â Menti antes de dar as costas para a garota
-Aham â Ela riu â Ta mas enfim, vai querer conhecer ele?
-Por que meu tio falou que quer me apresentar pra ele, e eu quero te levar
-VocĂȘ se aproveita demais dos poderes do seu tio como prefeito â Continuei andando olhando para as pontas do meu cabelo enroladas
-Pode ser, mas acho que vocĂȘ vai gostar de conhecer ele, ele Ă© lindo â Ela riu e eu revirei os olhos
-Ta, e como nos vamos fazer pra conhecer ele?
-Camarim, e temos que estar lĂĄ em... â Ela olhou no celular que estava dentro do sutiĂŁ â Agora â Ela pegou minha mĂŁo e saiu me arrastando pra trĂĄs do palco, onde estavam vĂĄrias pessoas com expressĂ”es preocupadas e usando uniforme, ela tirou de dentro da bolsa uma credencial e mostrou para o segurança com cara de bravo, que permitiu nossa entrada na hora.
Meu pai desde que me entendo por gente, sempre foi prefeito da pequena cidade em que sempre moramos. Ele era o cara mais conhecido que jå vi na vida, todos ali adoravam ele e sua morte hå seis meses atrås trouxe grande devastação na cidade, e na minha vida inteira, é claro.
Esperamos um longo tempo numa fila cheia de garotas que choravam e carregavam consigo cartas e ursinhos de pelĂșcia para entregar para o cantor, que agora tinha nome. Ouvi meu nome e o de Eduarda ser chamados pelo secretario de cultura da cidade, que sorria pra nos duas de um jeito falso e exagerado.
-Lice, sua barriga ta linda â Forcei um sorriso pra ele, a filha de dezesseis anos do ex-prefeito engravidar tĂŁo nova, causou fofocas de todas aquelas pessoas que antes trabalhavam e puxavam saco do meu pai, e eu realmente nĂŁo queria ser legal com eles.
-Vamos? â Eduarda tocou meu ombro e eu a acompanhei por um longo corredor
-Ele Ă© um idiota â Falei enquanto andĂĄvamos em direção a uma porta com um homem enorme parado em frente ela
-Ele sĂł te fez um elogio
-Eu nĂŁo quero elogio dessa gente â Revirei os olhos enquanto o cara continuava nos olhar com uma expressĂŁo de nada no rosto, Eduarda voltou a mostrar a credencial e ele sorriu, abrindo a porta atrĂĄs de si
Lå dentro era bem iluminado e cheirava perfume masculino, um perfume maravilhosamente gostoso. Olhei em volta e em frente o espelho estava parado um garoto. Ele era bem mais alto que eu e usava uma calça jeans e uma camisa cinza, Eduarda apertou tanto minha mão que senti que perderia a circulação daquele membro. Olhei pra ela a repreendendo e ela sorriu
-Luan... â Um cara que eu nem havia percebido que estava ali chamou seu nome, Luan se virou rĂĄpido nos olhou, seus olhos eram lindos. E o sorriso que abriu em seu rosto menos de meio segundo depois, tambĂ©m.
Senti o ar fugir dos meus pulmÔes como não sentia hå muito tempo, agora quem apertava a mão de Eduarda era eu, e podia sentir minhas pernas timidamente tremerem. Por algum motivo queria abraçar aquele garoto de sorriso bonito e os olhos castanhos mais lindos que jå havia visto em minha vida.
-Ă... Oi â Ele falou e sorriu sem graça, agora olhando pra mim
-Oi... Oi Luan â Eduarda soltou minha mĂŁo e foi em direção a ele, me deixando parada ali ainda prĂłximo a porta.
-Oi minha linda â Ele sorriu pra ele e a abraçou forte, com uma mĂŁo em sua cabeça. Por um momento senti inveja dela.
-Vim aqui sĂł te desejar bom show â Ela me olhou - E... Essa Ă© minha amiga, a Alice â Ela apontou pra mim e eu sorri sem graça
-Oi linda â Ele sorriu, nĂŁo sorria pra mim, nĂŁo sorria.
-Oi Luan â Sorri e fui com passos lentos atĂ© ele, que abriu o braço me encaixando em seu peito de um jeito que eu senti que poderia ficar pro resto da vida.
-Que barriga mais linda, quando nasce? â Ele falou receoso
-MĂȘs que vem, bom... Pelo que o medico disse e.. â Sorri pra ele parando a frase no meio, agora me sentindo mais confortĂĄvel ali.
-Menino, Arthurâ Coloquei a mĂŁo na barriga e olhei pra baixo, deixando minha franja cair em meu rosto, ele me olhou e colocou a mexa do meu cabelo pra trĂĄs da orelha, senti sua mĂŁo tocar minha bochecha e senti meu corpo tremer.
- Vai ser lindo... Igual a mĂŁe â Ele falou me olhando e Eduarda deu risada colocando a mĂŁo na boca, ouvi o homem que o chamou hĂĄ minutos atrĂĄs pigarrear
-Bom... VocĂȘs vĂŁo querer fotos?
-Sim â Eduarda disse tirando uma cĂąmera digital de dentro da pequena bolsa que estava pendurada no ombro, Luan a abraçou pela cintura enquanto eu ficava de lado sem conseguir tirar os olhos dele.
-Agora vocĂȘ â Ele estendeu o braço pra mim e eu mordi meu lĂĄbio inferior, por costume o que fez ele olhar pra minha boca e sorrir antes de segurar firme minha cintura com uma mĂŁo e a outra repousou em minha barriga e me olhou, como se pedisse permissĂŁo.
Sai daquele camarim sorrindo como uma boba, o que fez Eduarda ficar calada até pararmos perto de uma barraquinha de vitaminas naturais e pedirmos uma
-Ele ficou tipo... Muito a fim de vocĂȘ â Ela disse fazendo uma pausa para tomar nossa vitamina de açaĂ com morango,  forcei uma risada â exagerada demais pro meu gosto â e a olhei incrĂ©dula
-VocĂȘ perdeu toda a noção da lĂłgica nesse exato momento
-A qual Ă© Lice, vocĂȘ nĂŁo Ă© boba nĂ© â Ela disse me olhando e passando o copo enorme de vitamina pra mim â O jeito que ele olhou pra vocĂȘ
-Provavelmente se perguntando como uma garota com cara de dez anos podia agĂŒentar carregar uma barriga desse tamanho â Falei e dei risada enquanto ela revirava os olhos
-Eu conheço quando o cara ta super afim de uma garota ok? E ele estava super a fim de vocĂȘ
-Para Eduarda e vem, eu preciso de uma maçã do amor e um crepe de palito agora! â Ela me olhou sem acreditar enquanto me seguia atĂ© a outra barraquinha. â Eu me alimento por dois agora.
O show começou e apesar de não conhecer nenhuma musica, a energia que ele passava me fez quase flutuar, sua animação no palco era contagiante e eu me senti feliz, como muito tempo não me sentia.
Fui pra casa andando rĂĄpido, jĂĄ estava tarde e apesar da cidade pequena era perigoso andar por ali sozinha, cheguei em casa e ainda estava vazia, provavelmente minhas primas que se hospedavam ali todo ano e minha mĂŁe ainda ficariam para curtir o show de algum cantor local que sĂł servia para embebedar as pessoas por mais tempo.Â
Subi as escadas daquela enorme casa â grande demais apenas pra mim e pra minha mĂŁe â e fui pro meu quarto, que ficava no fim do corredor. LĂĄ tirei a sapatilha e a jaqueta jeans, prendi o cabelo e fui tirar a maquiagem. Tomei um banho quente e coloquei um pijama de flanela que me fazia sentir tĂŁo confortĂĄvel como se estivesse no colo da minha mĂŁe.
Me deitei na cama e sorri ao lembrar de Luan e como ele tinha me feito feliz naquela noite, e sem nem imaginar isso.
No outro dia, acordei e jĂĄ passava de meio dia, fiquei na cama por um tempo, criando coragem pra levantar. Pela fresta da cortina aberta percebi que o tempo estava nublado o que deixava ainda mais difĂcil a missĂŁo de levantar da cama.
-Que bom que acordou â Minha âmĂŁeâ entrou no quarto sorrindo e toda vestida de branco, como sempre.
-Oi mĂŁe, jĂĄ vai trabalhar? â Me sentei na cama
-Sim,aquele consultĂłrio nĂŁo funciona sem mim â Ela sorriu enquanto se sentava ao lado da minha cama â Como estĂĄ meus bebĂȘs? â Ela disse colocando a mĂŁo por cima da minha barriga
-NĂłs estamos bem dona Clara
-Sem âDona Claraâ Alice, sabe como me sinto quando vocĂȘ nĂŁo me chama de mĂŁe â Ela disse sĂ©ria, e com um ar de magoa no olhar
Dona Clara, a minha mãe, é estéril e nunca pode ter um filho. Com exato um ano de casada com o senhor Miguél, o meu pai, ela recebeu um presente de Deus, como ela mesma diz. Ela me encontrou na sua porta, as 20h da noite, enrolada numa manta dentro de um cestinho com apenas um cordão escrito meu nome. Ela diz que eu era tão pequena que mal conseguia decifrar quantos meses eu tinha, mas que quando me pegou no colo e me ouviu se calar, ela sentiu que eu era o presentinho de Deus pra ela. Então, ela cuidou de mim e não deixou de comunicar a policia, causando um problemão danado com a justiça, mas por fim, graças a Deus, ela conseguiu minha guarda me tratando como sua legitima filha, me dando todo seu amor e carinho. Ela nunca me escondeu que sou adotada, justamente por me dar amor dobrado.
-Calma mĂŁe, foi um jeito de falar â Sorri e ela me deu um beijo na testa, antes de se levantar da cama e sair do quarto, dizendo que estava atrasada.Â