Quatorze anos após aquele beijo que mudou tudo, ela não sentia os lábios dele sobre os seus.
Eles estavam lá, tocando-se como faziam toda manhã. Seus olhos, como sempre, estavam fechados, mas se ela os abrisse e ele desaparecesse, sua vida seguiria adiante, com certo estranhamento, um vazio e um quê de tristeza mas um pouquinho de alívio também.
Casamentos são assim, em sua maioria, começam em certezas tão grandes que têm testemunhas, família, tio bêbado, promessas, aliança no dedo, presentes, futuro, tudo gravado e registrado, nem sei se reconhece firma, mas é tanta burocracia e tanta certeza que parece até que se está tentando afirmar alguma coisa para os deuses da probabilidade que, daquela vez, vai ser diferente, vai ser pra sempre. Que Eles estão errados, que podem jogar os dados que quiserem, a soma vai ser sempre dois e sempre para sempre.
E os dois estavam lá, quatorze anos depois, e as coisas tinham mudado muito, e era um tanto assustador olhar para fotos de três ou mesmo dois anos antes e ver o quanto estavam mais jovens e pareciam mais felizes. Mas a real é que, ainda que a pele parecesse mais firme, os cabelos mais cheios e a luz favorecesse as olheiras e as marcas de expressão, a tal da felicidade não tinha mudado muito em todo aquele tempo. É claro que teve a euforia inicial, é tanta coisa, casa nova, móveis, cheiro de novo, ninguém pintou parede, não, já estava tudo pintadinho quando mudaram, mas era isso, todo começo é empolgante e cheio de boletos e certezas, e eles viajaram quando deu, transaram sempre que podiam, planejaram um monte, não cumpriram nem metade, só que os filhos vieram em dobro, os gêmeos de nomes curtinhos e cabelo engraçado, o que mais precisavam, um cachorro, claro, e adotaram o cachorro e tudo parecia estar bem. Só que não.
Pra ela, não estava tudo bem. Depois daquele beijo que era tudo, automático, obrigatório, burocrático, menos apaixonado, ele saiu para aquele trabalho em que ele torcia para não ser pego e ela torcia para ele não largar. E ela ficou ali na sala e olhou para as fotos do mural, aquele monte de certezas, fotos são isso, são evidências, são provas. Das viagens, do nascimento dos gêmeos, do cachorro, do Beto Carrero, das baladas e das poses forçadas como aquela em que ela estava lendo nua na cama e fingiu estar com vergonha da foto ao se cobrir com o lençol. Foi logo no começo, tinha só a cama e as roupas ainda ficavam em malas, mas ali naquela foto ela viu uma prova de que fora feliz, ao contrário do sorriso forçado na frente da bota gigante do Beto Carrero. Tentou se lembrar quando foi a última vez que se sentiu como naqueles primeiros dias em que tudo era novidade, tudo era certeza e o se não existia.
Não soube dizer. Mas tinha visto recentemente uns trechos de De Volta Para o Futuro — não tinha paciência pra rever filmes antigos mas de vez em quando o algoritmo do Youtube mostrava umas listas divertidas e estava lá, o tal do Livro dos Recordes e a vida do McFly mudando a cada viagem no tempo. Olhou para o mural de cortiça e, como já fizera outras vezes, meio Dr. Brown, pregou ali uma porção de ses. Se não tivessem comprado aquele apartamento. Bum, grana na conta, mais de quatrocentos paus e vez de menos dois e meio. Se não tivessem adotado o cachorro. Bum, um sofá novo, um delicioso não-cheiro de pêlo canino nos móveis. Se não tivessem transado naquele dia. Bum, pele lisinha, peitos pra cima, mais grana na conta. Se não tivessem casado, mas continuassem juntos. Daria pra ter feito uma puta viagem — aquela pra Austrália, nada de Beto Carrero muito menos aquela que ele carinhosamente apelidou de Campos do Groupon e a levou a um ataque de riso que durou horas, mudando de maneira definitiva a memória daquela visita ao sétimo círculo do inferno.
Se não tivessem dado aquele beijo há quatorze anos. Quantas outras pessoas ela teria beijado, pra quantas outras pessoas ela teria dado. Nunca dá certo em viagens no tempo, mas ela se imaginou, ali do presente, dando dicas para o seu eu passado, não casa, esse cara é legal, é fofo, mas não é o cara, nem existe isso de o cara, um príncipe encantado, um Mr. Grey ou McDreamy da vida. Amiga, só vai e curte, vive a porra do momento, vai ser até melhor pra ele, como o Buda levanta um pouco o pescoço e vê que você é só um grão de areia no meio de tantos outros infinitos no deserto, e olha para cima, vê o sol e voa, não como Ícaro que se cagava de medo de se queimar, mas como a porra da Fênix Negra e sobe e devora o sol com a boceta porque ele é só seu e foda-se o mundo.
E ela alçou voo com suas asas flamejantes e o apartamento e o condomínio e o grupo do condomínio ficaram para trás, ardendo, queimando. O fogo se espalhou por todo o planeta, ela nem olhou para trás, só ia em direção ao sol com a intenção de engoli-lo com a boceta, a Fênix Negra fez mesmo isso, acho que não, mas seria massa e ela foi enquanto a Terra exercia sua verdadeira vocação, a de uma valente bola de papel em chamas que se consome e colapsa sobre suas cinzas na escuridão das Eras, levando assim seu casamento, seu cachorro e seus filhos, pelo menos o Bolsonaro foi junto.
Enquanto toda a Criação queimava, ela ficou olhando tudo de lá de cima, sentada na superfície da Lua fofa como um edredon da Artex, ainda intrigada com o beijo daquela manhã, se perguntando novamente se ela ainda amava o marido. O último gesto da humanidade foi testemunhar o sorriso que surgiu no canto dos seus lábios quando ela lembrou da piada do Groupon.













