Disseram-me ser impossível controlar as coisas da cabeça. Que elas simplesmente se manifestam nos momentos mais inoportunos, arrebatam de um modo irrevogável e dominam a carne como um deus leproso e sombrio, sentado em um altar que não se pode tocar.
– Não consigo controlar as coisas que estão aqui dentro. – Disse-me, com o indicador apontado para a cabeça. As madeixas escuras emolduravam seu rosto já vermelho, em virtude do esforço que chorar lhe demandava. Foi, também, a primeira vez que ouvi e passei a pensar a respeito. Eu mesma tinha coisas dentro de mim que, inevitavelmente, às vezes, dominavam-me. Mas jamais venciam. Eu sempre me reerguia, lesionada, com alguma coisa quebrada e tudo fora dos conformes.
– Não pode deixar de tentar.
Poucos anos atrás. Dois passarinhos viviam em seu ninho de folhas e gravetos que, durante muito tempo, a mãe aperfeiçoara. Sem ajuda, sem ninguém, tencionando apenas fornecer um bom lugar para que eles aprendessem a cantar e viver sua própria vida. A mãe, no entanto, queria conhecer o mundo. Ou melhor, queria ter a certeza de que o mundo não era tão horrível quanto aquele quadro pintado sem cores dentro de sua cabeça. Chorava todos os dias com a perspectiva dos passarinhos tendo de se virar sozinhos naquele lugar. A única certeza (e de todo e qualquer ser vivo) era a morte, portanto, sentia necessidade de saber que o mundo era bom o suficiente para seus filhotes. Os passarinhos, alheios aos desejos da mãe, continuavam a aprender, e tornavam-se os passarinhos mais formidáveis a cada dia que se passava; muitas melodias os seus pequenos bicos entoavam. Algumas, desafinadas, tortas e sem graça, outras, prodigiosas. Não se pode esperar muito de pássaros jovens. Certo dia, sua mãe, incapaz de conter seus próprios desejos, jogou-se do ninho. Mas ela não vira a corda em seu pescoço.
“E pior. Sinto todas essas coisas arrastando-se para fora. E todas falam comigo. Falam comigo, mas usam a minha voz”, pensei, ironicamente, enquanto continuava com os olhos fixos naqueles que me dedicavam a mesma atenção.
– Não sirvo para mais nada. Sinto-me uma inútil. – Continuou a se lamuriar, com os olhos já cheios de lágrimas outra vez. Quase fui capaz de ouvir o cerrar de seus lábios, tentando manter preso os soluços, que até então, haviam cessado.
Eu sentia como se o abrir da minha boca fosse o sinal para que a minha mente já em chamas começasse a desmoronar. Ao longe, pássaros cantavam. Conter aquilo não doía. Era mais do que isso. Conter aquilo me matava. Esses supracitados monstros interiores, fora de nós são demônios; dentro, veneno, adagas e escárnio. A minha frente, as lágrimas não pareciam ter fim. E eu permanecia prostrada como uma estátua de mármore frio, na semivida, tendo consecutivas náuseas (disso não faço parte e isso não faz parte de mim; estou flutuando no éter sem-sentido da maneira mais peculiar). Muitos foram os autores do meu homicídio, e esse, de longe, o mais talentoso. Obrigava-me a piscar (cerrar os ductos lacrimais), a respirar (sufocar), sorrir (trincar os dentes), em silêncio.
– Talvez todos esses remédios não estejam te fazendo muito bem. – Sugeri, após engolir todo sangue que saíra de minha língua, até então, entre os dentes.
A única coisa que obtive como resposta foram alguns grunhidos em protesto. Viciara em todos eles.
Quis perguntar-lhe se algo eu tinha a ver com tudo aquilo. Mas temia a resposta. Temia por não saber o que fazer no momento consecutivo. Havia demasiados pássaros dentro de minha cabeça, no momento. Não que qualquer desculpa fosse agir como cura, mas, por convenção, é o que as pessoas fazem. Pedem desculpas, sem realmente saber o porquê o fazem. E tanto tempo lidando com essa superficialidade fez-me crer que minhas palavras também soavam sem sentido.
Eu queria cair, mas não podia. Eu queria morrer, mas meu cérebro continuava a demonstrar que, embora lesionado, voltava a ter os horrores sob controle. Engraçado, o cérebro. Alguns milhões de anos de evolução, com alguns quilos, repleto de personalidades de caráter duvidoso, as quais rastejam para fora na intenção de mexer braços, dar passos, falar, pensar. E ele, o cérebro, permanece impassível, arrebatando suas crias para dentro de si, para que outras mais possam sair. Deus está dentro de cada cabeça. O verdadeiro. E aquele deus que me puxava para a superfície do éter me mantinha de olhos abertos e longe da raiva. Não se permitir levar pelo ódio me obrigou a considerar que dois fardos sobre minhas costas talvez não pesassem tanto.
Os passarinhos nunca mais voltaram ao ninho construído para seus confortos. Cortaram as asas, arrancaram as penas, se esborracharam no chão para viver entre a sujeira. Agora cheiravam a lixo. Caídos, bêbados pelas calçadas, misturava-se à espuma do esgoto que borbulhava dos bueiros abertos. Cantavam apenas músicas sobre iniquidades, na companhia de ratos.
Cheguei em casa e havia roupas por toda parte. A louça ainda estava por lavar, bem como os pássaros, engaiolados, sem água. Temi chamar e não obter resposta, então, fui somente procurar. Ela estava deitada de bruços sobre a cama e a respiração profunda fazia seu tronco se mover em intervalos de tempo idênticos. Suas pálpebras estremeciam. Com o que será que sonhava? Decerto não fizera nada a manhã toda. Só cedera. E tudo aquilo que insistia em me perturbar parecia disposto a vencer. Sozinha, eu estava cansada e titubeava pelos corredores, pensando no futuro, enchendo os olhos de lágrimas com o futuro, mas firme na decisão de não morrer de ódio. Em todo canto onde estivera durante o dia, sentia nojo; profundo desgosto em ver pessoas reclamando das próprias vidas enquanto todo aquele peso ia sustentado em minhas costas.
“Quando ela cair do ninho, as pessoas em volta tocarão suas vidas. Já você, ficará parada na contramão”, aquela voz não era minha, embora saísse da minha cabeça. Era algo gutural e grave, que parecia falar numa saleta fechada, onde o som rebatia infinitamente contra as paredes. Silêncio. Eu continuava a cambalear, com os tendões em brasa. Não continha os tremores violentos, e sabia que meu interlocutor (quem quer que fosse, daquela vez) divertia-se com tudo aquilo, apenas no aguardo. No aguardo para que tudo fosse abaixo – com uma corda no pescoço. G.