nem todos os planos dĂŁo certo. frustraçÔes sĂŁo inevitĂĄveis. vocĂȘ senta a mesa e brinca de planejar a vida como se tudo fosse milimetricamente cronometrado. como se houvesse um badalar do universo indicando que vocĂȘ deveria pegar o ĂŽnibus Ă s nove, almoçar Ă s doze e dormir Ă s dez e meia. vocĂȘ cria planilhas, rotinas imaginĂĄrias e hĂĄbitos impossĂveis, como se o relĂłgio fosse o pior inimigo da vida. e entĂŁo, o universo resolve badalar no seu prĂłprio tempo. te fazendo pegar os ĂŽnibus Ă s onze, perder o almoço e dormir Ă s trĂȘs da manhĂŁ. e entĂŁo vocĂȘ, repleto de insistĂȘncia, resolve recriar todos os planos. atĂ© o universo, dotado de poder imperativo, bagunçå-los novamente. mas vocĂȘ nĂŁo aprende. nĂŁo entende nunca. porque planejou formar aos 23, comprar uma casa aos 27, viajar o mundo aos 32, se aposentar aos 60. vocĂȘ planejou os amores que existiram, os que nĂŁo existiram, os que existirĂŁo, e os que nĂŁo irĂŁo existir em nenhuma hipĂłtese. vocĂȘ organizou a decoração da casa que ainda nĂŁo tem, e escolheu a cor de paredes que ainda nem sequer foram levantadas. vocĂȘ cronometrou os dias que irĂĄ passar na famosa cidade daquele paĂs cuja vontade de conhecer Ă© absurda. vocĂȘ achou que era absoluta onde o Ășnico rei possĂvel Ă© o tempo. e estĂĄ sendo custoso acreditar que vocĂȘ passa mais tempo sonhando do que vivendo, contrariando a Elis Regina. e todos os seus sonhos, planos, cronogramas, escorre entre os seus dedos como ĂĄgua corrente.
 vocĂȘ recusa o agora e quer sempre o que estĂĄ mais adiante. a sua lĂ©pida mente e o seu temperamento hiperativo dĂŁo voltas pela casa deixando os seus pĂ©s, nĂŁo tĂŁo ligeiros, cansados. vocĂȘ nĂŁo presta atenção em nada, mas presta atenção em todas as coisas ao seu redor. vocĂȘ espera mais da vida do que ela a pode oferecer, e oferece para a vida menos do que ela pode esperar. vocĂȘ tĂĄ sempre mudando as coisas de lugar porque a velocidade das suas mĂŁos nĂŁo consegue segurar algo por muito tempo. vocĂȘ quer abraçar o mundo enquanto corre com o vento. mas eis aqui a sua maior derrota: seu tempo nĂŁo Ă© o tempo do mundo. e o mundo se torna lento demais quando se nasce acelerado.Â
e entĂŁo a vida acontece. mostrando que o seu sistema Ă© falho, suas mĂŁos sĂŁo fracas, suas ideias sĂŁo bobas, seus sonhos: invĂĄlidos, seus medos sĂŁo irrelevantes, seu choro Ă© inaudĂvel, e o seu tempo Ă© nada. lhe atiram no limbo onde existir e coexistir se fazem mistura fluida. onde tudo Ă© relativo. e vocĂȘ Ă© apenas poeira cĂłsmica sonhando em ser astro-luz.
 quando tudo desacelerou, eu vivi quatro anos em trĂȘs meses. trĂȘs meses em dois dias. dois dias em um segundo. uma vida inteira em um centĂ©simo. quando tudo ficou mais devagar, desejei parar a vida por 5 bilhĂ”es de anos. atĂ© o sol explodir e engolir toda a via lĂĄctea, deixando apenas um rastro luminoso de luz no vĂĄcuo. decretando, assim, o fim do meu tempo. e de todos os outros tempos.














