Depois de resolvida a pendência por dinheiro, o clima entre ele e os representantes da Planeta ficou bem mais descontraído. Tanto que, ao final, Pascoal Soto propôs, em tom de blague: “Que se acrescente mais um item ao acordo: Roberto Carlos irá publicar sua biografia autorizada pela editora Planeta”. Todos eles riram, inclusive o cantor, mas balançando a cabeça negativamente. Sem mais nada a acrescentar, o juiz colocou então uma caneta na folha com o termo de conciliação sobre a mesa. O primeiro a assinar o documento foi próprio juiz, com expressa satisfação, seguido do promotor Fausto Junqueira de Paula. Depois foi a vez de Roberto Carlos e de seu advogado Norberto Flach. A partir daí não me lembro mais da sequência exata, só sei que foi com a mão fria e muita tristeza que também assinei aquela folha de papel. Depois de mais de cinco horas de reunião, eu já estava exaurido, emocionalmente arrasado e sem ânimo para dizer ou ouvir mais nada. Acusado por Roberto Carlos e seus advogados, pressionado pelo juiz e promotores e abandonado pela editora, e minha única vontade era sair daquela sala o mais rápido possível.
Antes disso, porém, o juiz pegou uma bolsa que estava ao lado de sua mesa e, para surpresa de todos, dela retirou um CD que mostrava na contracapa a sua imagem segurando um violão. Ele abriu o encarte, autografou e ofereceu a Roberto Carlos, com um pedido que todos ouviram. “Roberto, eu também sou cantor e compositor, com o nome artístico de Thé Lopes. Gostaria muito que você ouvisse esse disco e desse sua opinião sincera. É meu primeiro CD, já estou gravando agora um segundo, e gostaria de ter sua opinião sobre este trabalho.” O cantor abriu o encarte, leu o autógrafo e agradeceu o juiz. “Obrigado, dr. Tércio, pode deixar, ouvirei seu disco com a maior atenção e carinho.” Em seguida, o juiz deu um CD de Thé Lopes para cada um dos advogados e um também para mim, com o mesmo pedido de que eu ouvisse e manifestasse a minha opinião. Com o título Pra te ver voar, é um CD com onze músicas, a maioria composta pelo próprio juiz.
Depois da distribuição dos CDs, começou a sessão de fotos. De sua mesa, o juiz apontou ao cantor a funcionária do fórum, que assistia à audiência, dizendo que ela era uma grande fã dele. Ela imediatamente perguntou se podia tirar uma fotografia ao lado do artista. “Claro, com o maior prazer”, disse o cantor, sorrindo. A funcionária pediu então a alguém para registrar a imagem. O promotor Fausto Junqueira, do outro lado da mesa, manifestou o mesmo desejo, mandando às favas todos os escrúpulos. “Que promotor que nada! Eu também quero tirar uma foto aí com você, Roberto”, disse ele, já se encaminhando em direção ao cantor. Depois de abraçar Roberto Carlos, o promotor chamou o juiz. “Oh, Tércio, venha aqui com a gente. Quando teremos outra oportunidade desta?”. O artista reforçou o pedido e então o magistrado saiu da sua mesa e foi se juntar ao promotor na pose ao lado de Roberto Carlos.
Trecho escolhido do livro O réu e o rei, de Paulo César de Araújo.