Bruno
foi o primeiro menino por quem me interessei. Ele era o menino mais legal e bonito da sala. Na Ă©poca nĂŁo tinha vocabulĂĄrio que desse conta do que eu sentia, mas sabia que era um afeto nĂŁo sĂł de querer brincar com ele. Era alguĂ©m que admirava, mesmo que naquelas poucas horas durante o prĂ© trĂȘs. Voltamos a estudar juntas anos depois, mas jĂĄ tudo havia mudado. Eu jĂĄ havia sido violentado sexualmente e escondia isso de todos por culpa, medo, me sentir invalido; jĂĄ havia lidado com algumas outras paixonites que suprimi e aĂ comecei a acreditar que nĂŁo podia vivĂȘ-las pois eu nĂŁo estava âformatado para issoâ. Na real, eu nĂŁo dava conta na Ă©poca, nĂŁo podia nem sequer verbalizar que gostava de alguĂ©m que fosse diferente do idealizado para quem nasce como menino. O reencontro com Bruno aconteceu jĂĄ era no ensino fundamental dois. As pessoas jĂĄ enxergavam que eu nĂŁo era um menino padrĂŁo, que nĂŁo funcionava como os demais e para isso existiam reaçÔes possĂveis: as pessoas que trocavam ideia comigo e davam risada e as pessoas que queriam me humilhar por eu ser diferente. Bruno, por incrĂvel que pareça, era educado e trocĂĄvamos ideia, zuĂĄvamos no mesmo grupo. A sĂłs com Bruno, havia afeto. Isso atĂ© ele fechar o bonde com os meninos mais populares da sala e esses nĂŁo se importavam de fazer o que fosse pra manter o status quo adquirido. Houve quem quisesse me bater, quem me intimidasse durante anos pelos corredores enquanto eu nĂŁo conseguia verbalizar muito. Minha palavra era frescura, viadagem. Minhas dores eram apenas minhas.Â
Por muito tempo. Me pergunto até hoje por onde anda Bruno, nunca mais o vi. Não sei se estå vivo, se casou ou se jå parou de seguir as ideias dos outros pra se encaixar. Eu sei que ele me fez ver algo que não queria ver, pois ninguém me permitia ver. Eu acreditei nos argumentos de tantos e abandonei o que eu sentia de mais puro pois isso sim era ser parte. Segui por tanto tempo sendo parte que demora pra voltar a ser inteiro.
- escoando, depois de anos














