Morar na loja de discos era difícil. Não estava habituado a falta de conforto, o corpo inteiro dolorido de dormir no chão duro, dava graças aos céus pelo clima quente pois não queria nem imaginar como seria dormir ali no inverno. O pior de tudo era que tinha começado a enfiar o nariz onde certamente não devia. No dia da feira da igreja não retornou para o local, preferiu voltar para loja, mas de noite no culto prestou mais atenção a realidade. Percebeu o quão afastados seus pais ficavam, como ele parecia amigável com algumas irmãs da igreja e como o discurso às vezes vinha manchado de um ódio bem disfarçado, bem camuflado por entre as palavras verdadeiras da Bíblia. Isso tinha lhe levado a uma avalanche de culpa, de nojo, de medo do quão perto chegou de realmente se tornar como um deles. Foi por pouco. Se seus olhos não tivessem sido abertos, estaria ali, dando glória para aquela pregação horrível.
Apesar de não se afastar da obra, estava mais quieto, mais recluso de como normalmente era. Não dormia muito, acordava cansado, com dores, irritado com tudo. Descontava esses sentimentos ruins na bebida. Todas as noites ia para o bar, não o bar que Eric trabalhava é claro; mas bebia bem mais do que as duas cervejas que estava acostumado, lamentava na mesa com alguns colegas bêbados que conheceu uma noite. Estava uma bagunça. Fazia dois dias que não ia ao culto, que faltava para acabar na mesa do bar. Naquela noite em especial, estava triste. Depois de alguns copos, sentia-se mais triste do que como se acostumou a se sentir nos últimos dias. Seu coração apertava no peito e não conseguia mais suportar aquele peso dentro de si. Quando saiu do bar, estava chovendo. Não deu importância a isso, apenas caminhou para fora no caminho para a loja. Ou bem, achava que era o caminho da loja. Quando deu por si, estava na frente da casa de Eric. Era um sinal? Sua mente ébria decidiu que sim, era um sinal para tentar pedir desculpas, tentar explicar tudo o que não conseguiu falar naquele maldito dia. Mal percebeu que bateu na porta até que esta se abrisse.
“E-eu… eu estava indo pra loja, mas acabei aqui.” admitiu. Cambaleava um pouquinho e apoiou a mão na parede para se firmar. Completamente enxarcado, piscou inutilmente para tentar espantar a água do rosto e encará-lo melhor. inútil, já que a chuva não parava. “Foi um sinal. Eu… tenho certeza. Tenho que explicar, tenho que falar. Não gosto de sentir isso.” não específicou, mas subiu a mão para o peito e esfregou a camisa molhada. Não gostava de sentir-se inútil, sujo, hipócrita e qualquer outra coisa que pudesse se encaixar para si no momento.
O olhou de cima abaixo, algo chocado com o quanto ruim ele parecia de momento. Além do cheiro óbvio de cigarros e álcool, as olheiras em baixo dos seus olhos eram óbvias para qualquer um que o olhasse com atenção, o ar jovial do mais velho tendo completamente sumido. Ainda assim, isso não impediu que seu coração acelerasse quando o viu, para irritação de Eric. Mesmo depois de tudo aquilo, não conseguia ficar indiferente perante ele e isso era uma maldição que não estava sendo disposto a carregar.
Seus sentimentos se dividiam entre uma felicidade escondida por ele ter o procurado, quase masoquista em vê-lo sofrer de alguma forma e a raiva por ele ter o descaramento de aparecer na sua porta aquela hora, como se tivesse algum direito de o fazer. ❝ Você veio pelo seu próprio pé, Hampton. Não sei como isso é um sinal. ❞ retrucou, retornando a usar o seu último nome, agora que o choque tinha passado. Só por ainda não ter fechado a porta na sua cara, não queria dizer que tudo estivesse perdoado, muito pelo contrário. A mágoa ainda estava presente, ainda mais que minutos antes, não conseguindo esquecer como se sentira, agora que encarava Luca.
Teve vontade de rir, mas não o fez, só abanando a cabeça, suspirando. ❝ Explicar o quê, Luca? Que você entrou em pânico? Que ficou em choque de ouvir sua mãe falando assim? Imagina como eu me senti quando ela me xingou pela primeira vez e eu tinha só treze anos. ❞ não usava o mesmo tom frio que usara naquele dia, suas palavras deixando passar a mágoa e o ressentimento que tinha acumulado por todo aquele tempo. ❝ Eu sei tudo isso. Não muda o que aconteceu. O que você quer de mim, Luca? ❞ perguntou, se sentindo algo perdido ainda em porquê exatamente o outro estava ali. Mesmo que Eric o perdoasse, o que isso iria mudar para ele?