Ela estava cansada de ser a parede da sala. Já haviam lhe posto tantas cores, tantos quadros diferentes, uma tevê e, por duas vezes, um ventilador. Pudera, ela nem conseguia mais contar nos dedos o número de famílias que passavam por ali. Espera, ela não tinha dedos. Era uma parede.
Estava cansada de pregos. De furadeiras, de quadros ruins e dessas televisões finas e grandes de 50 polegadas que tiravam metade da sua visão.
É, ela não era a maior parede da casa. Havia maiores. E melhores. Mas a sala é o cartão de visita de toda casa, não é mesmo? E foi cartão de visita de vários inquilinos. Já foi verde, amarela, azul-bebê, rosa e até marrom, uma vez. Não gostou. Mas mudar era a melhor parte.
Também já foi riscada. Crianças e gizes de cera não deviam andar juntos, esse era o seu lema. Qual a graça de riscar a parede? Só porque ela não pode fazer nada pra se defender? Injustiça. Uma vez, uma garotinha de tranças lhe desenhou um sol, quase perto do chão. Até sujou o assoalho. A parede presenciou a briga. E também o castigo. Por que as mães adoravam castigar as crianças deixando-as em pé e olhando para a parede? Era tão feia assim?
Uma vez colocaram uma mesa à sua frente. Parece que aquela família só gostava de jantar vendo tevê. Nessa mesa houve discussões, festas de aniversário (quando cobriram quase a parede inteira com um painel de princesas), um pedido de casamento e um infarto. Outra vez, lhe puseram um espelho. Reparou que a parede da frente ficou muito feliz de poder se olhar o dia inteiro.
Mas estava cansada de ser a parede da sala. Mesmo com as histórias boas. Se tivesse lágrimas, choraria. Na verdade, a infiltração pode substituir.
E agora, o que faria? O prédio seria demolido. Ouviu o último inquilino dizer que era “área de risco”. Não compreendeu. Estava esperando. Conseguia ver, pela janela, homens de uniforme vindo. São eles. São eles que vão me derrubar.
E esperou ouvir sua estrutura desabar, levando em sua memória de parede todas as histórias de sala-de-estar que pôde presenciar.