Elevador apertado de mais um dia. Café derrubado na camisa. Na hora queimou, mas agora nem tanto. Na pressa, não deu tempo vestir outra, ficou com aquela, ficou inquieto, incomodado, com medo do chefe reparar. Ouviu várias pessoas dizendo bom-dia, mas não respondeu. Estava exasperado, apressado, meio irritado, intimidado. Queria sair dali. De repente, quando as pessoas vão saindo, ele vê que a moça do sorriso bonito de ontem estava ali também. E diz bom-dia pra ela.
Elevador apertado do segundo dia. Pasta de dente que manchou a camisa. Ainda tentou tirar com água, mas já estava se atrasando. Na hora, ficou incomodada, mas agora nem tanto. Na pressa, não deu tempo vestir outra, ficou com aquela, meio apreensiva, com medo do chefe reparar. Ela nunca gostara de chefes, porque eles sempre reparavam quando ela manchava a roupa com alguma coisa. Só não disse bom-dia para todo mundo ali dentro porque estava distraída. Queria sair dali, ir pra casa e dormir por uns três dias seguidos, mas compromisso é compromisso. De repente, com o elevador se esvaziando, ela enxerga o moço bonito com cara de estresse de ontem. Ele diz bom-dia pra ela. E ela sorri de volta.
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Acordou numa manhã de sol. Despertador, chinelo, porta, banheiro, água, pasta de dente. Pensou no que ia comer no café. Torrada, rapidinho, suco de ontem, sem açúcar, sem paciência. O carro não pegou, teve que ir de ônibus. Moeda, troco, aperto, cheiro de suor, pisaram no meu pé. Desceu no ponto errado. Roupa amassada, pasta amassada, cabelo despenteado, falta de sorte, dia ruim. Pressa, mau humor, esbarrão, sinal fechado, tropeço, atraso. Entrou no prédio, recepção, elevador, bom dia, moça bonita com sorriso que acalma. Dia comum, dia ruim. Meu andar, meu setor, meu chefe, meus colegas, meu computador. A maioria igual a mim.
Acordou na mesma manhã de sol. Conferiu o celular. Chinelo, porta, banheiro, água, pasta de dente, prende o cabelo. Pensou no que ia comer no café. Torrada rápida de queijo e presunto com o resto de leite que tinha na geladeira. Veste a roupa, ajeita o cabelo, decide deixar solto. Ponto de ônibus, espera, moeda, troco, aperto, cheiro de suor. Cadeira vazia, mulher idosa, pode sentar, obrigada. Desceu no ponto errado, roupa amassada, era pra ter deixado o cabelo preso mesmo, pressa, esbarrão, desculpa, sinal fechado, tropeço, atraso. Entrou no prédio, recepção, elevador, bom dia, moço bonito com cara de estresse. Licença, meu andar, meu primeiro dia. Esse é meu chefe, meu setor, meus colegas, meu computador. A maioria tão diferente de mim..
Ela estava cansada de ser a parede da sala. Já haviam lhe posto tantas cores, tantos quadros diferentes, uma tevê e, por duas vezes, um ventilador. Pudera, ela nem conseguia mais contar nos dedos o número de famílias que passaram por ali. Espera, ela não tinha dedos. Era uma parede.
Estava cansada de pregos. De furadeiras, de quadros ruins e dessas televisões finas e grandes de 50 polegadas que tiravam metade da sua visão. É, ela não era a maior parede da casa, havia maiores. E melhores. Mas a sala é o cartão de visita, não é mesmo? E foi cartão de visita para vários inquilinos. Já foi verde, amarela, azul-bebê, rosa, e até marrom, uma vez. Não gostou. Mas mudar era a melhor parte.
Também já foi riscada. Crianças e gizes de cera não deviam andar junto, esse era o seu lema. Qual a graça de riscar a parede? Só porque ela não pode fazer nada pra se defender? Injustiça. Uma vez, uma garotinha lhe desenhou um sol, quase perto do chão. Até sujou o assoalho. A parede presenciou a briga. E também o castigo. Por que as mães adoravam castigar as crianças deixando-as em pé e olhando pra parede? Era tão feia assim?
Uma vez colocaram uma mesa à sua frente. Parece que aquela família só gostava de jantar vendo o jornal da noite. Nessa mesa houve discussões, festas de aniversário (quando cobriam quase a parede inteira com um painel de princesas), um pedido de casamento e um infarto. Outra vez, lhe puseram um espelho. Reparou que a parede da frente ficou muito feliz de poder se olhar o dia todo.
Mas estava cansada de ser a parede da sala. Mesmo com as histórias boas. Se tivesse lágrimas, choraria. Na verdade, a infiltração, que se instalava por dentro dela e já prejudicava a pintura, podia substituir.
E agora, o que faria? O prédio seria demolido. Ouviu o último inquilino dizer que era “área de risco”. Não compreendeu. Estava esperando. Conseguia ver, pela janela, homens de uniforme vindo. São eles. São eles que vão me derrubar.
E espero ouvir sua estrutura desabando, levando sua memória de parede e todas as histórias de sala-de-estar que pôde presenciar.
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Primeiro capítulo. Rebloguem, deem like, leiam, divulguem, e me digam se gostaram da estreia! :)
Essa não é uma história sobre mitologia. Nem necessariamente sobre amor. Talvez seja sobre o sol e a lua, porque era isso que eles eram. Mas talvez seja apenas sobre asas e sua fragilidade. Como elas podem ser molhadas, cortadas, cansadas ou, simplesmente, sumirem. Com ele foi assim.
Maria Flor entrou em sua vida da mesma maneira que fazem todas as flores. Primeiramente, distante e ingênua, mas logo desabrochou e exalou seu perfume, transbordando beleza e causando-lhe encantamento. Só que, após todo o deslumbre, as flores murcham e morrem, secas e tristes. E ele não sabia que seria daquele jeito.
Primeiro capítulo. Rebloguem, deem like, leiam, divulguem, e me digam se gostaram da estreia! :)
Essa não é uma história sobre mitologia. Nem necessariamente sobre amor. Talvez seja sobre o sol e a lua, porque era isso que eles eram. Mas talvez seja apenas sobre asas e sua fragilidade. Como elas podem ser molhadas, cortadas, cansadas ou, simplesmente, sumirem. Com ele foi assim.
Maria Flor entrou em sua vida da mesma maneira que fazem todas as flores. Primeiramente, distante e ingênua, mas logo desabrochou e exalou seu perfume, transbordando beleza e causando-lhe encantamento. Só que, após todo o deslumbre, as flores murcham e morrem, secas e tristes. E ele não sabia que seria daquele jeito.
Parou a bicicleta vermelha em frente à padaria de uma das ruas mais movimentadas da cidade. Ali era onde a maioria das pessoas que trabalhava no centro tomava café da manhã. Alguns advogados, professores e até motoristas de ônibus. E algumas mães que passavam para comprar a merenda que o filho levaria para a escola. Meia dúzia de pais sonolentos balançava carrinhos de bebê e discutia sobre creches, orçamentos, pediatras. Uma mamadeira caía no chão e alguém se contorcia de dor nas costas para poder apanhar. Era isso que eles chamavam de vida perfeita, só porque era perto de tudo, do banco, da escola, do mercado. Habitavam o conturbado coração da cidade.
O rapaz chamava-se Ícaro. Deixou cair a bicicleta na calçada porque sabia que estava atrasado. Correu para vestir seu avental e sua touca e ir atender, durante meio-período, dezenas de cidadãos robotizados que tinham sempre os mesmos assuntos.
Novamente, perdera tempo no caminho. Mas achava aqueles prédios enormes tão tristes... E Ícaro parava a bicicleta e tirava da mochila sua mais nova aquisição: uma câmera semiprofissional. Então, fotografava. E, antes disso, estava fotografando o nascer do sol, encostado em algum lugar do cais, ouvindo os albatrozes voltarem e ignorando os velhos bêbados do bar semiabandonado. Então, quando via que já passava das sete, pegava a bicicleta e ia correndo para a padaria.
Começara a trabalhar ali porque o salário de diarista da mãe não dava para cobrir o pré-vestibular que precisara fazer quando ainda não havia decidido o que iria cursar. Ele fora aprovado, mas as circunstâncias o obrigaram a ficar. Quis comprar a câmera, e daqui uns dias pagaria a última parcela e poderia deixar de vir correndo do seu universo fotográfico para perguntar se as pessoas iam querer pão francês ou de milho.
E ali, em meio àquela atmosfera repulsiva, apesar do cheiro dos doces, ela surgia diariamente com seu vestido de pregas, pedia um café e ia embora, para a mesma universidade que ele ia todas as tardes, só que ela cursava Astronomia pela manhã. E o coração dele acelerava.
Era bonito aquele amor platônico. Um sentimento assim, distante, secreto, silencioso. Não era muito raro que alguém passasse por aquilo na vida, mas na juventude parece tão mais magnífico... E ela, a menina, que ele ainda não sabia chamar-se Maria Flor, nem sabia da dimensão daquele olhar que recebia todas as vezes que entrava na padaria. Só achava bonito que aquele rapaz que a atendia fosse tão atencioso.
Chegou e, como uma estrela cadente, foi rápida, mas ficou por tempo suficiente para que ele pudesse admirá-la mais de perto do que fazia no campus da universidade.
- Um café, por favor – disse ela, esticando-se para olhar a tabela dos preços, mesmo que quase já soubesse de cor.
- Com açúcar – completou ele, porque já sabia.
Ela sorriu e colocou algumas mechas do cabelo, preto e curto, atrás daquelas orelhas pontudas de elfo. Ajeitou a bolsa no ombro, pesada de livros sobre constelações e galáxias, e pegou o café com a outra mão, agradecendo com um sorriso, que fazia com que seus olhos se estreitassem, porque eles sorriam também. Era uma jovem viajante das estrelas.
A menina, então, foi embora, e Ícaro ainda estava voando quando Adalberto, o dono da padaria, na faixa dos sessenta anos, divorciado, o cutucou no ombro, com aquela carranca – que lembrava muito um leão-marinho – e os olhos estreitos.
- Se atrasou de novo, né, moleque? – disse Adalberto. – Saiba que você só está aqui por causa da sua mãe. Se não fosse por ela, eu não tolerava tanto atraso.
O menino ensaiou algumas desculpas, mas já era tarde, porque o velho já estava de volta à cozinha. Resmungou baixinho e continuou atendendo, focando o pensamento na última parcela da câmera que o deixaria livre de uma vez por todas.
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E ali, em meio àquela atmosfera repulsiva, apesar do cheiro de doces, ela surgia diariamente com seu vestido de pregas, pedia um café e ia embora, para a mesma universidade que ele ia todas as tardes, só que ela cursava Astronomia pela manhã. E o coração dele acelerava.
Ela é uma flor que ama a Lua e as estrelas. Ele precisa continuar voando, mesmo estando perto demais do Sol. Foi conquistado de repente, sem esforços, e sem que ela ao menos soubesse.
Maria Flor e Ícaro vivem um amor diferente, gradativo e com reviravoltas sobrenaturais. A cidade em que moram está coberta de mortes suspeitas e, enquanto isso, ele tenta descobrir se suas asas serão suficientes ou se acabará como o Ícaro mitológico, vítima das próprias descobertas.
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