Era difícil saber onde fixar seu olhar. Uma das mãos de Draco traçava padrões na água da fonte de maneira quase hipnotizante, e seus olhos brilhavam com o sol, o tom cinzento dando lugar a um azul límpido, e ele sorria um sorriso capaz de começar e terminar guerras. Justin percebeu que havia tempo que se rendera; na verdade, nunca havia tido uma chance contra aquele garoto. Não quando ele parecia tão real, mais real do que qualquer coisa que já havia visto, os lábios avermelhados deixando o sorriso para se abrirem de leve e levando sua sanidade com eles, deixando Justin com pouco mais do que uma vaga noção de quem era. Não quando de sua boca saíam palavras em francês, a língua do amor, que parecia tão estupidamente secreta ali, entre eles. “Você não para de me surpreender,” rebateu, e então mudou de volta para o inglês. “Mas que uso seria melhor para o francês do que dirty talking, não é?”
O olhar de Draco era tão profundo que lhe desafiava a olhar de volta, despir-se de sua ridícula armadura, mesmo que mal soubesse onde ela terminava e onde começava sua pele. Tudo que ele dizia soava encantador para Justin, e ele se pegou sorrindo novamente, o mesmo sorriso desarmado que não dava havia tanto tempo. Por um momento, deixou de ouvi-lo e perdeu-se nele, na pele pálida e nos longos cílios loiros, nos lábios que se moviam com tanta elegância que pareciam sempre prestes a dar um golpe premeditado. Visão e audição não eram suficientes: queria poder se perder no tato, no olfato, sentir o gosto de sua pele. Não achava que era possível sentir aquilo por alguém que estava completamente vestido e falava sobre os benefícios do firewhisky, mas Draco só lhe surpreendia.
Teve de segurar um arquejo quando ouviu o tom de voz de Draco ao falar sobre seu esforço. Seria aquilo admiração? Nunca havia deixado alguém impressionado com seu trabalho antes, e sentiu o calor das palavras como raios de sol em seu peito. Era quase paradoxal para alguém que carregava o inverno em sua aparência lhe dar aquela sensação de aconchego. Era estranho, também, saber que, mesmo vindos de mundos tão distantes, os dois tinham experiências tão similares.
Não teve muito tempo para se perder em reflexões sobre o mundo bruxo. Quando ouviu sobre sua vida em Hogwarts, Draco lhe deu um sorriso muito mais afiado, cheio de desafio, capaz de sumir com o calor em seu peito e transformá-lo em frio na barriga. Justin, que achava tão fácil enfeitiçar alguém, via-se no papel de enfeitiçado pela primeira vez. “É o que espero,” respondeu-lhe, a voz baixa. Sabia muito bem que um relacionamento com um paciente podia lhe custar seus estudos, mas algo em Draco lhe tentava a arriscar tudo, só pela chance de ver aquele sorriso de novo. Com cuidado, afundou uma mão na água da fonte, encontrando a de Draco rapidamente e permanecendo ali apenas por tempo o suficiente para que ele soubesse que não havia sido por acidente. “Queria saber onde te encontrar,” olhou para a água, sem coragem de encará-lo. “Não me importo de caçar seu prontuário, mas queria saber por você. E poder ir te ver quando meu expediente acabar.”
Justin sorria como se o sol o invejasse de seu brilho, era algo aterrorizamente belo de se assistir. Pois tudo aquilo do mais belo causava terror em seu âmago e calafrios pela sua pele, era como assistir um desastre natural de um ponto seguro, devastador e lindo. Mas Draco não se sentia realmente no ponto seguro daquele tornado em formato de homem. Não, ele se sentia bem no meio da tempestade pronto para ser levado embora pelos ventos, arrastado para o alto e lançado para cima de uma árvore... Os remédios que o estavam deixando assim, claro, tinham que ser os remédios.
Ele queria voltar a ter algum controle sobre si mesmo, mas parecia muito mais difícil que o normal, ele queria poder não ser como uma mosca indo em direção de uma luz brilhante apenas para ser queimado num feitiço incandescente. Ele queria poder tocá-lo e declarar sua dominância sobre a situação, ele queria poder se levantar e ter toda a confiança do mundo em sua pose.
Talvez só o que quisesse realmente era poder fazer essas coisas, pois a vontade em si não estava lá no momento, aquele era o momento certo, o momento perfeito. Quando Draco pela primeira vez em muito tempo conversava com alguém como um igual, lado a lado ao invés de ter que olhar para cima ou ter que se colocar num pedestal para poder olhar pra baixo. O mais fácil seria afastá-lo antes que ele chegasse perto demais. Mas pelo visto Draco havia começado a fazer coisas que queria, e afastar Justin não era uma delas no momento — I've got to keep you on your toes. — disse suavemente, tentando firmar o olhar para algo um pouco mais respeitável do que a bagunça hormonal que ele estava se tornando no período daquela conversa.
A resposta de Justin quase congelou Draco por um momento, claro uma pessoa pensando direito naquela interação veria aquela resposta há dez quilômetros de distância, mas qualquer sinal de reciprocidade vindo de Justin pegava Draco um pouco de surpresa, era inesperado, algo que não acontecia para Draco. Simplesmente não. Até que ele desviou o olhar e Draco se sentiu inspirando um pouco forte demais, como se ele tivesse segurado a respiração naquele curto momento em que ele foi congelado no tempo e espaço para a sua mente poder ficar em choque em paz com a novíssima realização. Então acabou se resolvendo pelo ultimato mesmo, ele sabia que não podia se arriscar e arriscar Justin daquele jeito, e ele realmente deveria ter trabalhado em empurrar aquela atração para o mais longe o possível, seria uma repetição daquela crush infantil que ele teve no Potter, e igual aquela crush, um dia ele superaria e seguiria em frente, afinal era tudo que ele poderia fazer.
Ele moveu sua mão para fora d’água, afastando-a da de Justin, e resolveu por contar aquele pedaço inevitável de verdade. Justin já estava o vendo num ponto bem baixo comparado com o normal de Draco, o que era descer um pouco mais naquilo? Ele olhou para as portas para o Hospital, já sabia que iria voltar mesmo que não estivesse fora por tanto tempo, mas deveria estar chegando perto do horário de alguma terapia de qualquer forma, ou então havia perdido a terapia em grupo, ele não fazia muita questão de se lembrar da rotina naquele lugar, uma hora a saberia naturalmente. — Ala psiquiátrica, terceiro andar quarto 207. — Ele disse quase desconectado de todas aquelas emoções de antes. Ele se levantou e se dirigiu até as portas, mas não conseguiu resistir olhar para trás mais uma vez, e com um sorriso pequeno, porém genuíno conseguiu reunir algumas palavras que ainda pareciam banhadas naquelas emoções — Até mais, Justin. — E ele sabia no fundo que era uma despedida, mas queria acreditar que estava errado nisso.