Eu odeio ter que me curar de dores que não foram causadas por mim. Em que momento da vida paramos de engolir as responsabilidades alheias?
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Eu odeio ter que me curar de dores que não foram causadas por mim. Em que momento da vida paramos de engolir as responsabilidades alheias?

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Existe remédio para alma?
Eu consigo ter a sensação do meu corpo sujo, até dentro das minhas unhas parece conter sujeiras como se eu tivesse arranhado um chão lotado de barro. Eu já perdi as contas de quantas vezes eu me esfreguei no banho, se eu tivesse uma banheira, definitivamente ficaria de molho nela por duas horas com sais de banho e passaria uma coleção de esfoliantes, até caseiros. Eu sinto a pele do meu antebraço grossa, suja, sinto meus seios sujos, imundos.
Meu cabelo? Puramente horrÃvel. Sujo, com odor. No meu rosto tem uma maquiagem preta velha e escorrida devido à longas duas horas de choro livre. Agora eu vou explicar o motivo do banho não resolver isso: a sujeira fica marcada na alma. Carimbada. Como um: "eu estive aqui, eu fiz isso com você, e você nunca, jamais, se esquecerá, e se porventura você sofrer um acidente de carro e perder sua memória, a primeira coisa da qual vai se lembrar, será isso.
O problema é que nos sentimos sujas, porcas, manchadas. Isso não sara? Não existe um band-aid para isso? Quem sabe, um remédio para dor. Diferente dos remédios para dor que eu tomo, que são mentais, eu quero um medicamento que cure minha alma.
Anna com A.
Toques que tenho medo.
Eu tenho medo de ser abraçada sem intimidade.
Eu tenho medo de ser acariciada.
Eu tenho medo de que segurem minha mão.
Eu tenho medo que fiquem sozinhos comigo.
Eu tenho medo que toquem no meu cabelo.
Eu tenho medo que toquem até na minha alma.
Quando isso vai mudar? Quando isso vai passar? Quando isso vai ser diferente? Quando eu vou parar de pensar que sou um copo de vidro prestes a espatifar no chão como se estivesse na ponta da pia, pronto para colidir contra o chão e quebrar em mil e um pedaços.
Eu não quero ser tocada. Nunca mais. Por ninguém.
Anna com A.
Insônia.
Eu tenho pavor de insônia porque eu já tive medo de dormir, e quando eu tenho insônia, desencadeia medos em mim. Eu tenho medo de voltar a ter esse medo de pregar os olhos e ser observada. Eu estou sempre em um modo bloqueio infinito, me auto-protegendo de coisas que não vão acontecer, mas que já aconteceram. Eu tenho medo de ter insônia porque minha mente relembra tudo o que já aconteceu ou quase aconteceu.
Eu tenho medo de não dormir porque minha mente me impulsiona a pensar todas as coisas que eu não devia. Me culpar pelo o que já passou. A pior parte é quando eu penso: "e se eu morrer?". Eu encaro os medicamentos como se eles me chamassem à s vezes. Chamassem pelo nome completo. Sem vÃrgulas.
Eu tenho medo da insônia porque é quando eu tenho pavor da solidão independentemente de conviver com ela em qualquer momento do dia. Eu tenho medo da insônia porque ela visita, sem hora para ir embora, o meu passado. Ela se senta e toma canecas e mais canecas de café, mas é um café que se acumula e dói na goela, quase sufocando.
Anna com A.
Dores silenciosas.
Eu tive vontade de gritar, de chorar, de arremessar o meu corpo contra a parede até que os vestÃgios das dores fossem embora silenciosamente. Silenciosamente porque vieram fazendo tanto barulho. Eu gostaria de lembrar mais da minha infância, para isso servir como respaldo para mim, mas eu não consigo. Embora pareça que eu pense só pensamentos negativos, o que não é mentira, eu tenho noção da coerência que sou uma pessoa boa. Boa, mas ferida. Boa, mas marcada. Boa, mas jamais igual as outras.
Eu sinto tudo e ao mesmo tempo nada. Eu sinto o mundo girar e a terra dar suas voltas, assim como também sinto o sol queimando minha pele quando fico do lado de fora. Mas estamos falando do fÃsico, da carne. Me peça para falar algo de dentro para fora, que não seja vomitar a bile de minhas dores passadas, e eu não saberei como te responder perfeitamente.
Alguns pensam que eu tive muitas decepções amorosas, mas meus gritos internos, barulhentos porém silenciosos, não giram para isso. Eu sinto demais, eu me machuco demais. Quando falam de amor próprio, sempre se referem à : "como eu me sinto bonita hoje". Mas não, eu queria que o meu fosse: "esses eventos acontecidos não foram por minha causa".
Anna com A.

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