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!!!
Meu bem, amar é um perigo para pessoas intensas como nós.
Capítulo 8 – O Outro
A noite caiu rápido no Ipiranga.
Alexandre sentia o corpo vibrando de novo, aquela energia quente debaixo da pele. Era como se a cidade inteira fosse um imenso coração batendo, chamando por ele.
Saiu de casa sem saber para onde ia. As ruas estavam molhadas pela garoa, refletindo a luz dos postes em poças sujas.
Quando chegou na esquina da Bom Pastor com a Greenfeld, o cheiro veio primeiro.
Não era humano.
Era… familiar.
O coração de Alexandre disparou, os pelos do braço arrepiaram.
No outro lado da rua, parado debaixo de um poste, havia um homem.
Alto, magro, usando um sobretudo surrado.
Ele não se mexia. Apenas olhava.
Alexandre sentiu o instinto gritar: corra ou ataque.
Mas ficou parado.
O homem sorriu. Um sorriso que não era de quem está feliz, mas de quem reconhece algo.
— Achei que você não fosse aguentar a primeira lua — disse, a voz rouca, grave. — Mas parece que você gosta.
Alexandre não respondeu. Não tinha certeza se queria ouvir mais.
O homem deu um passo à frente, e por um segundo o rosto dele mudou. Os olhos brilharam amarelos, os dentes ficaram pontiagudos.
— Tem espaço para dois nesse bairro? — ele perguntou. — Porque se não tiver, você vai ter que me matar.
Antes que Alexandre pudesse reagir, o homem virou a esquina e desapareceu.
Mas o cheiro ficou. Forte.
Alexandre respirou fundo e percebeu que estava sorrindo de novo.
Não de medo.
De excitação.
A cidade não parecia mais tão grande.
Agora ele tinha algo para caçar.

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Capítulo 7 - O dia depois
O sol entrou pelas frestas da persiana como facas finas, cortando o escuro do quarto.
Alexandre abriu os olhos devagar.
A boca ainda tinha gosto de sangue.
Por alguns segundos, não sabia se tinha sonhado ou não. O corpo doía, os músculos pesados como se tivesse corrido uma maratona. A roupa estava no chão, encharcada, rígida de sangue seco.
Ele ficou olhando para aquilo por um tempo, sem se mover, até que o barulho da rua o trouxe de volta — buzinas, passos, vozes. O bairro acordando.
Quando finalmente se levantou, a imagem veio como um soco: a mulher caindo no asfalto, o grito dela cortado pelos dentes dele.
O estômago revirou. Ele correu para o banheiro e vomitou até não ter mais nada. Mas, quando terminou, percebeu que estava sorrindo.
No celular, uma notificação de portal de notícias local:
“Corpo encontrado na Francisco Mesquita. Polícia investiga ataque brutal.”
Alexandre sentiu o coração acelerar.
Passou a mão no rosto e percebeu as marcas das unhas dela ainda arranhadas na pele. O reflexo no espelho mostrou um rosto estranho, os olhos mais claros, quase dourados.
Ele se encarou por um bom tempo, até que alguém gritou na rua:
— Você viu o que aconteceu ontem? Dizem que foi um animal!
Alexandre foi até a janela. Dois vizinhos conversavam na calçada, apontando para o outro lado da rua.
— A mulher morava na Silva Bueno — disse um deles. — Mataram ela de um jeito horrível.
— É a segunda em um mês — respondeu o outro. — Vai ver é aquele bicho que falam que aparece por aqui de vez em quando.
Alexandre fechou a janela com força.
A respiração ficou pesada, o coração batendo no pescoço.
Parte dele queria rir. Outra parte queria sair correndo e terminar o que tinha começado.
Pegou a jaqueta e saiu de casa.
A cidade parecia diferente.
Cada pessoa na rua era um coração pulsando, cada cheiro parecia gritar no ar — perfume, suor, medo.
No cruzamento da Rua Bom Pastor, ele parou e sentiu uma presença.
Não era humana.
Algo observava ele de longe.
Por um instante, sentiu que não estava sozinho naquilo.
E isso o deixou ainda mais faminto.
eu gostaria de esconder meu rosto na curva do teu pescoço e esquecer por alguns segundos como existir pesa.
às vezes, o melhor presente que você pode dar à si mesmo é um tempo.

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Capítulo 5 – A Primeira Fissura
A febre já durava dias. Alexandre acordou encharcado de suor, com o lençol grudado no corpo, e a primeira sensação foi de que o mundo estava barulhento demais. O tic-tac do relógio parecia uma marreta dentro de sua cabeça. O zumbido dos transformadores de energia na rua vibrava em seu peito como se estivesse encostado no poste.
Quando se levantou, as pernas tremeram. O espelho do banheiro revelou um rosto que não era bem o dele — olheiras profundas, pele pálida e olhos com um brilho estranho, um reflexo dourado que só aparecia quando a luz batia de um certo jeito. Ele piscou, esfregou os olhos. O brilho sumiu.
— Eu tô ficando maluco. — sussurrou, encarando o próprio reflexo.
Tentou manter a rotina. Tomou banho gelado, fez café forte, tentou ligar o notebook. Mas o trabalho parecia distante, irrelevante. Tudo o que conseguia pensar era no ataque e no que o velho do bar havia dito.
Saiu para caminhar. O ar frio da tarde o atingiu como uma lufada de energia, e por alguns minutos Alexandre sentiu algo próximo de calma. Mas logo veio o cheiro. Primeiro fraco, depois quase insuportável: ferro, ferrugem, sangue.
Seus passos o levaram até a Rua Lino Coutinho, quase sem perceber. As calçadas molhadas refletiam as luzes dos postes e o bairro parecia mais silencioso que o normal. No fim da rua, perto de uma grade enferrujada, encontrou a origem do cheiro: um gato morto. O corpo estava ainda quente, o sangue escorrendo pela sarjeta.
Alexandre sentiu o estômago se contrair, mas não de nojo. Era fome. Fome crua, animalesca. Deu um passo à frente, os olhos fixos no sangue. Por um instante, sentiu vontade de se abaixar, tocar, provar. Lutou contra esse impulso, respirando fundo.
— O que está acontecendo comigo? — a voz saiu rouca, quase um rosnado. Um barulho atrás dele o fez se virar de forma instintiva. Um dos vizinhos saía de casa para levar o lixo. — Tá tudo bem aí, cara? — perguntou o homem, parando a alguns metros de distância.
Alexandre encarou o vizinho como se não o reconhecesse. O cheiro do suor do homem era forte, quase insuportável. Seu coração acelerou. Uma parte dele queria avançar, derrubar o sujeito no chão. As unhas cravaram-se na própria palma da mão para evitar que desse um passo. — Tô… tô bem. — respondeu, sem olhar nos olhos do vizinho. Deu meia-volta e saiu apressado, quase correndo de volta para casa. Subiu os três andares sem pegar o elevador, trancou a porta atrás de si e encostou-se nela, respirando como se tivesse acabado de correr uma maratona.
Quando olhou para as próprias mãos, percebeu que as unhas estavam mais compridas e afiadas do que deveriam estar. A pele em volta delas estava escurecida, como se houvesse sujeira entranhada. Sentou-se no chão da sala, tremendo. Lá fora, o vento uivava entre os prédios. Ou pelo menos ele achava que era o vento… até ouvir o som novamente. Um uivo longo, grave, que vinha de algum ponto do bairro. O som atravessou Alexandre como uma lâmina. Ele sentiu cada músculo do corpo reagir, os pelos dos braços arrepiados, a mandíbula se contraindo. Não sabia dizer se o uivo vinha das ruas do Ipiranga ou de dentro dele mesmo. Ficou ali, no chão, até o som desaparecer. O corpo inteiro tremia. A lua cheia estava a apenas quatro noites de distância. E Alexandre começava a se perguntar se, quando ela chegasse, ainda seria capaz de se manter humano.
Capítulo 4 – Vozes Antigas
Os dias seguintes foram um tormento. A febre vinha e ia, mas o pior eram os sentidos de Alexandre, cada vez mais aguçados. Ele já não suportava o barulho do trânsito na Avenida Nazaré — conseguia distinguir conversas de pessoas do outro lado da rua, passos no corredor do prédio e até o miado dos gatos nas casas vizinhas.
Ele precisava de respostas.
Naquela tarde, foi até um bar antigo perto da Rua Bom Pastor, um lugar onde sabia que moradores mais velhos costumavam se reunir para falar de política, futebol e histórias antigas do bairro. Pediu uma pinga e sentou-se próximo ao balcão.
Não demorou para que um senhor de cabelos brancos, pele enrugada e olhar cansado puxasse assunto. Era o tipo de pessoa que parecia conhecer cada esquina do Alto do Ipiranga.
— O senhor é novo por aqui, né? — disse o velho, enquanto mexia devagar no copo de cachaça. — Tem ouvido os uivos de madrugada?
Alexandre hesitou. — Acho que sim. Mas deve ser cachorro vadio.
O velho riu, um riso curto, quase irônico. — Cachorro nenhum faz esse tipo de som. Isso é coisa antiga. Tem gente que prefere não falar, mas esse bairro tem sua própria maldição.
Alexandre ergueu a sobrancelha, curioso apesar de si mesmo. — Maldição?
O homem se aproximou, baixando a voz. — Falam de um homem que foi morto injustamente por aqui, há mais de cem anos. Dizem que ele foi enterrado às pressas, lá perto dos trilhos da Dr. Francisco Mesquita. Na noite seguinte, o corpo sumiu da cova. Desde então, a cada sete luas cheias, alguém no bairro é marcado. E quem é marcado… não volta a ser o mesmo.
Um calafrio percorreu a espinha de Alexandre. Ele disfarçou, tentando manter o tom cético. — E o que acontece com quem é marcado?
O velho o encarou por um instante, o olhar sério, como se pesasse as palavras. — Primeiro vem a febre, depois os sonhos. E então, na próxima lua cheia, a transformação. Quando perceber, não vai mais ter volta.
Alexandre riu, mas a risada soou forçada até para ele. — Isso é lenda urbana.
— Pode chamar de lenda, se quiser. — O homem virou o resto da pinga. — Mas é melhor ficar dentro de casa na próxima lua cheia.
Alexandre saiu do bar com a sensação de que cada sombra o observava. O vento frio da noite parecia trazer sussurros. E quando passou pela viela que cortava para a Rua Lino Coutinho, ouviu algo. Um uivo longo, distante, mas que ressoou direto no fundo do peito.
Pela primeira vez, Alexandre não conseguiu rir da história.
Eu tenho saudade dele, do jeitinho dele, de como ele sorria ou se emburrava, de como ele queria estar sempre agarradinho e como sempre era fofinho nos lugares . Eu sei que ele também é nada contra mas se ele um dia solta essa igreja ele volta pra mim.
Capítulo 3 – Feridas que Não Cicatrizam
O sol da manhã atravessava as cortinas do apartamento de Alexandre, mas a luz parecia fraca demais para dissipar o peso da noite anterior. Ele acordou com o corpo dolorido, como se tivesse passado horas em uma luta que não lembrava ter travado. O ombro ainda latejava, e ao retirar a faixa improvisada percebeu que a ferida não fechava — pelo contrário, parecia pulsar, como se tivesse vida própria.
Tentou seguir a rotina. Preparou um café forte, abriu o notebook e tentou se distrair com trabalho. Mas algo estava errado. As letras na tela embaralhavam, os ruídos da rua lá embaixo pareciam ampliados, cada buzina, cada conversa atravessava seus ouvidos como agulhas. Pior ainda era o cheiro: ele conseguia sentir o odor do pão fresco da padaria na esquina como se estivesse dentro dela, misturado ao cheiro metálico do sangue seco que ainda impregnava sua jaqueta.
Desligou tudo. Encostou-se no sofá e fechou os olhos. O pesadelo da noite passada ainda o perseguia, principalmente a sensação de estar se transformando em algo que não era humano. Alexandre se convenceu de que era apenas o trauma do ataque, mas uma parte dele sabia que havia algo além da lógica.
Quando saiu para caminhar pelo bairro, percebeu que os vizinhos cochichavam mais do que de costume. Duas senhoras comentavam na calçada da Rua Cipriano Barata, jurando que ouviram uivos estranhos vindo das vielas durante a madrugada. Um homem que passava puxou assunto com elas, falando da velha lenda do lobisomem do Alto do Ipiranga. Alexandre fingiu não ouvir, mas cada palavra parecia um sussurro diretamente em sua mente.
À noite, a febre voltou. Seu corpo queimava, mas ao mesmo tempo um frio intenso percorria seus ossos. Ele se contorceu na cama, suando e tremendo. Quando finalmente pegou no sono, sonhou com dentes afiados, olhos amarelos e a sensação de que, em breve, não haveria mais como separar quem ele era daquilo que estava prestes a se tornar.
Na manhã seguinte, ao se olhar no espelho, Alexandre percebeu que seus olhos estavam diferentes. Não era apenas o cansaço: havia um brilho animal, algo selvagem que se escondia por trás de suas pupilas.
O relógio marcava pouco mais de uma semana para a lua cheia.
E, no fundo, Alexandre já sabia: não tinha mais como escapar.

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te mostrei minhas cicatrizes
e você fez questão de abrir todas elas
como isso era amor?
como você tem coragem de dizer que um dia me amou?