Coca-cola, formigas atĂŽmicas e combo de pipoca.
 Tava na fila do cinema quando vi um cara com blusa das formigas atĂŽmicas acenar pra mim. Olhei duas, trĂȘs, cinco mil vezes pra ver se eu nĂŁo tava delirando. Ele vinha na minha direção com os braços abertos e eu calculei a distĂąncia entre o elevador mais prĂłximo e eu. NĂŁo dava tempo de correr. TambĂ©m nĂŁo dava tempo de cavar um buraco no piso do shopping e pular dentro.
 â Ei, preta. â Ele me deu um abraço estranho de uma sĂł mĂŁo e eu meio que abracei a outra mĂŁo dele e⊠hĂŁm, foi um desastre. Mas meu coração doeu quando eu ouvi essa voz e esse apelidinho que anos atrĂĄs, eram suficientes pra deixar meu dia mais feliz.Â
 â OâŠhei⊠ã.  â Eu queria dizer âHey, oi, e aĂ?â. Mas nĂŁo conseguia pronunciar direito.
 â Pois é⊠â Balancei a cabeça.
 â EntĂŁo⊠anos, nĂ©?
 â Pois Ă©. TrĂȘs ou quatro.
 â Acho que Ă© quatro.
TrĂȘs anos, nove meses e quatro dias, querido.
Passamos algum tempo nos olhando constrangedoramente. Lembrei do tempo que nĂłs tĂnhamos assunto. Era natural como respirar. PassĂĄvamos umas boas trĂȘs, quatro horas no telefone. O assunto nunca acabava e o silĂȘncio tambĂ©m nĂŁo era um incĂŽmodo, nĂłs meio que nos entendĂamos. E olha sĂł pra gente agora. Procurei na minha cabeça algum assunto que poderia falar com ele, mas nĂŁo vinha nada. Estava quase correndo pra longe quandoâŠ
 â Uma amiga minha te viu um dia desses.
Meses e meses atrĂĄs, corrigi mentalmente.
 â NĂŁo, nĂŁo. VocĂȘ nĂŁo conhece.
â EntĂŁo como ela sabe quem sou eu?
Ok. JĂĄ posso correr. Deveria dizer ânĂŁo, Ă© que assim, vocĂȘ Ă© meio que o cara que eu mais amei na vida e meio que eu ainda falo de vocĂȘ pra Deus e o mundoâ? NĂŁo nĂ©.
â Quis dizer que vocĂȘ nĂŁo deve se lembrar dela, enfim, esquece.
â E esse suco aĂ na tua mĂŁo?
Olhei pra baixo e notei realmente que eu estava segurando um copo de suco de laranja. Alguém, que eu não me lembrava agora quem era, tinha ido comprar pipoca pra gente também, eu acho.
 â TĂĄ brincando que Ă© um suco? â Ele ironizou. â TĂŽ querendo saber, Ă©, cadĂȘ tua coca cola?
 â Ah, sim, sim.  NĂŁo tomo mais, sabe. â Era minha deixa. Ensaiei falar isso faz anos.  â Mudei muito.
 â Tu? Mudou? Tu? Parou de tomar coca? Ta beleza, eu acredito. Â
 â NĂŁo ta vendo o suco na minha mĂŁo? Parei de tomar coca.
 â Parei. â Queria jogar o suco na cara dele â Isso aqui Ă© suco.
 â Mas continua querendo tomar coca.
 â Isso nĂŁo significa nada.
 â Claro que significa. â Ele sorriu â Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aĂ dentro de ti ainda. Tu sempre vai desejar uma coca gelada que rasga a garganta. Pega logo uma coca.
 Verdade. Quase pude sentir o gosto enquanto ele dizia isso. Como eu queria coca-cola. Quase dois anos que eu não tomo e eu nunca deixei de querer tomar.
Mas enfim, o que tem haver?
 â Que bom que sĂł querer nĂŁo dĂĄ celulite nĂ©?  â Sorri.
 â VocĂȘ seria linda de qualquer forma. Com ou sem celulite.  â Ele falou em um tom mais baixo e mais intenso, e eu tive um ataque cardĂaco, pelo menos era o que eu sentia. Olhei pros lados disfarçando a timidez.
 â E os caras?  â Ele perguntou quando teve a certeza de que eu nĂŁo iria mais responder.
 â Namorados, preta, namorados, problemas, paqueras, etc.
Ah sim. Isso me lembrou que tinha alguém comprando pipoca em algum lugar desse shopping. Olhei de relance pra ver se encontrava, mas aparentemente não estava em nenhum canto. Ou era culpa minha, que só conseguia ver o cara de camisa das formigas atÎmicas na minha frente.
 â VocĂȘ? â Ele levantou a sobrancelha.
 Me senti um pouco ofendida com o tom de voz dele. â Eu mesma.
 Ele me fitou por algum tempo em silĂȘncio.
 â O que?  â JĂĄ tava sem paciĂȘncia.
 â Ă⊠ â ele pensou por mais alguns segundos  â Estranho, eu acho.
E eu entendi o que ele quis dizer. A gente sĂł se conhecia como um sendo a pessoa do outro. NĂłs Ă©ramos o amor da vida um do outro, a alma gĂȘmea, a metade da laranja e qualquer outro nome que dĂŁo pra isso. Era algo fora do contexto esse nosso encontro, a gente aqui, como dois conhecidos que nĂŁo se vĂȘem hĂĄ anos. Como que a gente foi se perder assim? Como que nossas vidas que pareciam tĂŁo juntas e tĂŁo entrelaçadas e tĂŁo grudadas, inventaram de mudar de rumo? Eu me sentia atĂ© culpada, eu acho. Era tudo bonito demais e triste demais e apaixonado demais pra ter acabado.
(Escrevo. TĂŽ escrevendo um texto sobre vocĂȘ nesse instante.)
â NĂŁo â Menti. â NĂŁo tenho mais tempo pra isso.Â
â Hum⊠EntĂŁo vocĂȘ mudou.
â Mentira sua â Ele me olhou como uma criança implicante.
â Acredite no que quiser â Â Retribui o olhar.
â Aposto que ainda conta os dias e as datas.
â NĂŁo mesmo. Nem me lembrava mais disso. AliĂĄs, que dia Ă© hoje?
â Quanto tempo pro teu aniversĂĄrio?
â Quanto tempo falta. Para o teu. AniversĂĄrio. â Ele falou pausadamente.
Engoli seco. â Eu sei lĂĄ.
â Eu sei que vocĂȘ tĂĄ contando.
O encarei por alguns segundos até suspirar pesadamente.
â TrĂȘs meses e quatro dias.
â AniversĂĄrio da tua cachorra.
â Sete meses e⊠seis dias. 12 de dezembro. AniversĂĄrio de Belo Horizonte. Dia da morte do JosĂ© de Alencar. AniversĂĄrio do Silvio Santos tambĂ©m.
â Grande coisa. Todo mundo tem uma mania.
â Grande coisa. VocĂȘ nĂŁo mudou nada.
â NĂŁo assisto mais novela.
â Continua achando que a vida Ă© uma novela mexicana.
â NĂŁo como mais miojo.
â Ainda odeia usar garfo pra cortar a carne.Â
â TĂĄ. TĂĄ. Eu entendi. NĂŁo mudei. VocĂȘ venceu. Agora, pra quĂȘ tudo isso?
Ele olhou pro lado e suspirou. â De nada. De nada. Ei⊠tem um cara parado ali feito um bobo, acho que ele ta procurando alguĂ©m.
Segui o seu olhar e avistei um cara com um combo de pipoca na mĂŁo.
De alguma forma ele sabia quem esse cara Ă©. Estranho.
â Ă meu namorado. Eu⊠eu tenho queâŠ
â Tem que ir. â Ele balançou a cabeça positivamente.
Droga. Porque Ă© tĂŁo difĂcil ir embora?Â
â AtĂ© â Ele pegou minha mĂŁo e deu um beijo, entĂŁo deu um meio sorriso e foi se afastando.
Mordi o lĂĄbio enquanto o vi partindo â jĂĄ o vira partir tantas outras vezes. A gente nunca acha que um dia vai acabar. A gente sempre acha que vai ter mais, algum dia, alguma vez. AtĂ© que acaba. AtĂ© que o mĂĄximo de proximidade entre vocĂȘs seja apenas encontrar um ao outro na fila de um cinema. E nĂŁo hĂĄ nada mais triste que isso de seguir em frente. NĂŁo hĂĄ nada pior do que desvencilhar sua vida da de outra pessoa. E mesmo com tudo, Ă© como se nĂŁo existisse realmente um fim, mesmo depois de ter tido um fimâŠ
 Ele se virou pra mim com surpresa em seus olhos â O que?
â VocĂȘ Ă© minha coca-cola.
â Minha coca-cola. â Ele vinha se aproximando e eu fechei os olhos, tentando me lembrar das palavras dele anteriormente. â âSignifica que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aĂ dentro de ti ainda.â
â E o que isso significa?
â VocĂȘ sempre vai estar aqui, mesmo nĂŁo estando.
Ele deu um sorriso triste, e pelo seus olhos, vi que o meu também era. Ele colocou uma mecha do meu cabelo para de trås da minha orelha e suspirou.
â VocĂȘ sempre vai ser a minha coca-cola, tambĂ©m.
Cada um seguiu em frente novamente â e literalmente. Fui encontrar o cara com o combo de pipoca, mas nĂŁo pude deixar de olhar pra trĂĄs e ver, por mais uma â e talvez Ășltima â vez, o cara com a camisa das formigas atĂŽmicas.
Acho que vou tomar coca-cola hoje. (Iolanda Valentim)