É engraçado pensar em você estando longe e perceber que voltei ao início de algo, sem necessariamente estar no princípio.
Nosso relacionamento, se é que pode ser chamado assim, passou por uma sequência de tramas. Houve o início, com nosso passatempo juntos, onde me apaixonei perdidamente por você. Logo em seguida veio o espaço romântico, onde eu cuidava de você e fazia tudo para te ver sorrindo. Te alimentava, fazia surpresas, dava tudo de mim, e você me via como um super-herói.
Eu quis ser o seu Superman. Ou o seu Batman. Mesmo com o pouco que você podia me dar.
Só sofri quando você achou que ficaria me devendo mais do que eu queria, e que por isso eu lhe cobraria caro. Como se eu quisesse comprar você com gentilezas para depois abusar de você, como um monstro que alimenta sua presa apenas para devorá-la no fim.
E foi aqui que começou a parte do drama.
Jamais quis me tornar a pedra sobre seu diafragma, sufocando-o. Até porque era eu quem arrastava a própria pedra montanha acima, apenas para vê-la despencar outra vez e precisar subi-la novamente.
Por isso, preciso que saiba: você sempre foi o bastante para mim.
Seu abraço, seu sorriso, seu carinho — sempre foram o bastante.
Eu te amei desde o começo por isso, e por nada mais. Nunca quis tirar de você algo que não viesse espontaneamente dos teus sentimentos. Mesmo que isso habitasse meus sonhos e desejos mais profundos, só teria valor para mim se viesse de você.
Como Sísifo, talvez eu possa ser feliz afinal. Conhecendo meu destino, entendendo as possibilidades que me restam e encarando a realidade nua e crua, enquanto sou grato por ainda ter o bastante — mesmo que meus devaneios o encontrem nas noites em que tua imagem permeia minha mente do crepúsculo à alvorada.
Nunca quis causar-te dor alguma, nem fazer você sentir traição por deixar escapar algo íntimo ou colocar tua integridade em xeque. Só quis me afastar por acreditar que aquilo seria melhor para você. Seria melhor manter-te longe de mim, ainda que minhas noites fossem regadas em prantos escondidos, porque meu coração jamais conseguiria trancar as portas para você.
Todos olhavam para mim e notavam o quanto me machucava evitar você todos os dias. Evitar pensar em você. Evitar falar de você.
Eu tentava nem te tocar, para que meu corpo não se lembrasse de como era estar entre seus braços, com meu rosto enterrado em teu pescoço, entre a cruz e a rosa, inebriado pelo teu perfume.
Foi muito bom passar meu último dia com você.
Eu não queria que aquele dia acabasse enquanto ainda estávamos nele. Queria parar o tempo com você na garupa da minha moto e seguir estrada até o infinito.
Mas não tive forças para descer dela e te abraçar como gostaria. Como todo o meu corpo pedia.
Então engoli toda a emoção para que ela não escapasse pelos olhos. Fiquei olhando para o tanque de gasolina da moto e limpando os óculos, porque sabia que, se te encarasse por mais dois segundos, eu desabaria em lágrimas frias escorrendo pelo rosto.
Você é parte de mim agora. E sempre terá um lugar em mim.
E, se algum dia pensar sequer por um instante que ninguém o ama, lembre-se de que eu amo você.