âBoca Moleâ
Era dia de sorvete. Ela amava sorvete, mas amava ainda mais seu pai, nĂŁo sĂł porque era ele quem lhe dava sorvete, ou qualquer outra coisa, mas sim, porque ele era o cara mais legal do mundo. Eram exatamente essas palavras que Alicia usava para falar de seu pai: âele Ă© o cara mais legal do mundo todoâ, e alongava as vogais âoâ da palavra âtodoâ, com o maior sorriso. Alicia escolheu sua saia listrada de branco e azul e uma blusa igualmente azul para combinar. Foi sua mĂŁe que a ajudou. Aos cinco anos, a gente precisa de ajuda para essas coisas, nĂŁo tem jeito.
Depois de pronta, ela saiu pulando do quarto para sala.
- VocĂȘ estĂĄ linda demais â disse o pai dela, a pegou no colo, rodopiou com ela nos braços e continuou falando: - Vamos tomar sorvete, entĂŁo?
Jå no chão, a menina balançou a saia e disse quase que num grito: - Vamos!
Pegou a mĂŁo do pai num lado a mĂŁo da mĂŁe no outro e caminharam atĂ© a praça. No caminho, os pais a levantavam, puxando cada um num braço. Alicia ia voando. Chegaram a sorveteria, ela escolheu uma casquinha com duas bolas, morango e cĂ©u azul, os seus favoritos â eram tambĂ©m suas cores favoritas, ela dava muita atenção as cores. O pai pagou o sorvete e o atendente entregou a felicidade do dia Ă menina. Com o sorvete na mĂŁo, saiu caminhando atĂ© a porta, sorrindo, faceira, atĂ© que resolveu dar a primeira lambida. Lambeu, e as duas bolas de sorvete se desgarraram da casquinha e se espatifaram no chĂŁo, como num desaforo. Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, Alicia jĂĄ ameaçava chorar, quando seu pai disse: âfilha, o sorvete!â se debulhou em lĂĄgrimas mais intensas que de uma viĂșva.
A mĂŁe veio acalmĂĄ-la, enquanto o pai ria da cara dela. Como ela dizia: ele era o cara mais legal do mundo. E como o cara mais legal do mundo, era claro que ele iria rir da cara dela e a chamar de âBoca Moleâ. As lagrimas caiam em cima das bolas que estavam se espalhando no chĂŁo, aquela imagem rosa e azul atravessavam os olhos da menina, inconsolĂĄvel.
- Ei! - Â disse o pai.
Ela olhou para trĂĄs.
- VĂȘ se nĂŁo deixa cair de novo, Boca Mole! â Acrescentou ele, sorrindo, com outro sorvete na mĂŁo.
Ela pegou o sorvete, igualmente ao primeiro, rosa e azul, e saiu secando as lĂĄgrimas, com um sorriso pulando da boca.
Aprendera, naquele dia, a menina, que sempre haverĂĄ um novo sorvete, um novo amanhĂŁ, um novo motivo para sorrir. Que aquele sorvete colorindo o chĂŁo, quando no passado, jĂĄ nĂŁo era nada. Percebeu que mesmo que seu pai nĂŁo lhe desse um novo sorvete naquele dia, em algum outro dia ela ganharia um. Hoje, quando o sorvete da Alicia cai no chĂŁo, ela ri. Quando algo nĂŁo dĂĄ certo ou quando alguĂ©m vai embora, ela sabe, que assim como tem sorvete que fica na casquinha, tĂȘm coisas e gente que ficam na nossa vida, e que elas virĂŁo.Â
NĂŁo hĂĄ problema nenhum, Ă s vezes, em ser âBoca Moleâ.Â














