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Inspiração
Juliana
D
Acordou desejando-o. Ele levou o café na cama, como de costume. Ela deu-lhe um beijo, do qual ele desviou em dois segundos.
- Preciso sair, combinei de ajudar os guris lá na empresa, temos novos clientes - explicou ele
- Mas hoje é sábado - advertiu, decepcionada.
- Sim...
Ela tinha planejado seu dia inteiro com ele, sequer avisou-a com antecedência. Coisa que acometem jovens e velhos casais pelo mundo: falta de comunicação.
Levantou, arrumou a casa, trabalhou no seu novo projeto. Sentiu-se só.
Fazia tempo que a solidão não preenchia aquela casa, desde que ele se mudara para lá, no verão passado. Não sabia mais lidar com aquela companhia silenciosa, pensou em chorar, não só pelo fato de estar sozinha, mas porque, naquele momento, percebeu o ano que passou e o quanto pareceu um dia de visita que você espera chegar logo ao fim para tirar a roupa e se atirar no seu sofá, seu espaço de paz.
O casamento trouxera muitas coisas boas: companhia, motivação, novos sonhos e coragem. E naquele instante ela percebeu que tudo isso era uma âncora que ele carregava, e quando ia embora, o barco ficava novamente à deriva, agora ainda mais sem rumo.
Não poderia esperar por ele para sempre. Tomou um banho demorado, passou seu melhor óleo no corpo, acendeu um incenso de pitanga e deitou-se.
Percorreu seu próprio corpo com a ponta dos dedos, demorou-se no pescoço porque era bom. Percebeu suas curvas já não tão firmes, nem tão cheias como antes, e tudo bem, porque era ela mesma.
Enquanto se tocava, pensou em si mesma, no quanto era sensual e independente. Muitas vezes deixou pretendentes nervosos só com sua presença confiante, embora nem sempre acreditasse em si. Por muito tempo não se via assim, como se o fato de ter agora apenas um parceiro sexual a anulasse. Mas a sua sensualidade estava ainda ali.
Estava naquele momento sozinha com aquela mulher incrível que era. Achou estranho que se excitasse com isso, mas se permitiu. Olhou para seus próprios seios e, mesmo que por vezes fosse insegura quanto ao tamanho deles, que estavam longe de encher um sutiã M, agora não importava, para si mesma eles eram bonitos, delicados e sempre lhe deram muito prazer ao serem tocados. Sentia a textura da coberta através deles, era prazeroso.
Viu suas pernas longas, entreabertas, se contorcendo. Realmente era sexy. E se sentir assim a deixava com muito tesão. Chegou quase ao orgasmo várias vezes e segurou para sentir mais.
Se posicionou, ainda de bruços no canto da cama, os pés no chão davam movimento e com o atrito do lençol entre as pernas, não precisava nem usar as mãos. Viu sua bunda no espelho do guarda-roupa e sua expressão desconcertada de prazer, era linda com aqueles cabelos bagunçados.
Respirou fundo em meditação, não queria pensar em mais nada só sentir e se sentir. Estava presente.Transbordou.
Desmistifique a paixão que te corroe
C
Não é que você tem medo de não ter poder sobre ela
Você tem medo que ela tenha poder sobre você
Mas nada disso é verdade
Pessoas não tem poder sobre as outras
Nós damos poder a elas
Você diz que ela não é especial, mas a colocou num pedestal
Precisa conhecê-la a fundo
Inclusive os defeitos
Então a desmistifique
Trazendo-a de volta ao seu nível
- Linda em Lúcifer
Verde e amarelo

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Vulgaridade x Sensualidade
B
A vulgaridade é explícita
A sensualidade é misteriosa
A vulgaridade é um descompasso
entra sem pedir licença, invadindo
A sensualidade é um estado de espírito
um ritmo muito peculiar
é como uma frequência de rádio de sintonia tão fina que pode passar despercebido
Na sensualidade há descanso e relaxamento
Na vulgaridade há tesão e carência
é como uma atitude desesperada pelo olhar do outro
Na vulgaridade, o eu e o outro tornam-se objetos a serem consumidos
Na sensualidade, o eu e o outro são sempre admiráveis
A sensualidade nos enche de impulso vital, é um descansar na Alegria Cósmica, em unidade com seu erótico natural, livre e misterioso.
Insta dos autores: @intimidadeconsciente
Encontro
A
O cheiro amadeirado de floresta úmida, ancestral e terreno. Como o calor do ambiente te amolecendo, o gosto podre dos queijos finos, pelos de gato pela roupa, e um rosto com formas exageradas: mandíbulas demais, sorriso demais, olhos demais, numa cabeça grande demais para os ombros estreitos.
Desabotoei o colarinho e ajeitei o óculos. Ela demorava nos meus olhos e eu aflita, desviava. Será que não podia me deixar absorver, sem observar de volta?!
Fiz diversas perguntas sobre sua vida, até que fiquei com vergonha de perguntar mais. O que ela queria de mim?... Ainda cética com o óbvio convite para tomar um vinho em um restaurante intimista. Será que já eu estando aqui posso fingir inocência e permanecer só na amizade? Eu vou até o fim deixando no ar, com medo de deixar evidente que não quero nada e decepcionar. Prefiro beijar, a ficar longos minutos de desconcerto, vendo o outro descolorir.
Não, talvez fosse interessante a minha companhia. Talvez ela seja dessas pessoas que valorizam uma boa conversa. Nisso não devem se enquadrar as histórias de quem passa os dias numa divertida cadeira giratória, desempilhando papéis cheios de números alinhados sobre linhas e colunas. “Fulana recebe flores semanalmente, luxuosos buques de rosa e às vezes girassóis”. “Bonita assim, até eu seria promovido”. Fizeram um bolão semana passada pra ver se a fulana é prostituta ou só de rolo com um cara cafona, e rico.
O Beto era mais velho - ela começou a história assim – cheio de manias, mas eu já estava acostumada até com o Pedrinho que quando conheci tinha 6 anos só. Já estava muito desgastado, eu tinha mudado muito e ele continuava exatamente o mesmo, isso me desanimava todos os dias. Poucas vezes era bom, e o bom era sujo. Às vezes nós transávamos pensando em outras pessoas.
Não parecia se preocupar com o nível de intimidade necessária para entrar em certos assuntos com alguém. Continuou. Eu pensava no rapaz que conhecia da faculdade. Tímido, mas tinha os olhos mais atraentes que eu já vira. Olhos demorados, risonhos e vermelhos com bochechas rosadas, como se passasse as tardes trabalhando no sol. Ele pensava na secretária. Sim, fetiche pouco criativo. Mas era evidente o quanto eu o invejava por poder desejá-la, eu também queria desejá-la, queria me sentir livre para fechar os olhos e imaginá-la no meu colo, rindo, entregue, nua.
Até então eu só via uma mulher talentosa, sim, tanto quanto comum na vida privada, com inseguranças e crenças comuns. Mas ela tinha convicções, ela tinha aprendido algo na prática sobre a vida. Tinha sensibilidade.
Passei a achá-la bonita. Como seria na cama?! Afobada, ativa, performática? Deveria ser selvagem e úmida, feito aquele vinho, e também deixaria minha boca seca depois, talvez eu lhe desse umas ressacas.
Beto trabalhava lá na empresa quando morreu na sala do café, engasgado com miolo de pão.
Ele era charmoso. Cabelos volumosos e grisalhos. Beto morreu cheirando café fresco. E a secretária vomitou quando viu ele lá, deitado no piso da copa, roxo, de olhos paralisados.
Ela não combinava com aquele restaurante, nem com o papel de viúva de burocrata. Era fumante na voz, na postura, na mão nervosa, só não no fato de que não fumava.
O Beto sugou todas as minhas energias, eu nem sei mais fazer isso...
Mas o que é este isso? Cuspi aquela pergunta como uma saliva solta no meio da fala. Ela ficou calada. Reparei que deveria estar com as mesmas angustias que eu. Largou um sorriso de alívio – nossa, estou me sentindo ridícula, desculpa. Me disseram que você gosta de mulher. Então eu queria... Eu quis te conhecer. Não quero que isso soe como um encontro.
Eu sabia que era um encontro. Pensei pra mim. E estava lá pela vida, essa era a verdade. Em nome da missão de me permitir e ter um legado descolado, cheio de aventuras. Os aventureiros agarram as oportunidades. Essa poderia ser uma história que faria pra sempre me orgulhar da minha ousadia planejada.
Toquei a mão dela sobre a mesa num ímpeto. Até me surpreendi com a minha coragem. E depois pensei que foi uma péssima ideia, que eu não conseguia sustentar, tirei a mão.
Deixa de ser boba, menina. Vamos sair daqui, quero te apresentar uns conhecidos, somos amigas agora.
Enganchou no meu braço e saímos. Ela toda soava Heavy metal. Às vezes um rock triste dos anos 80. Falei isso pra ela. Ela respondeu que não gostava dos anos 80, nem de nenhum outro antes dele, talvez só há milhares de anos.
Seguimos em silêncio pela rua alaranjada pelas luzes públicas, Via w2 Sul. Já estávamos mais confortáveis. Reparei em como ela era alta e me causava uma impressão. Ainda aguardava achar o que de Beto ela tinha, algum trejeito, alguma babaquice, alguma pedância. Ainda nada.
Este é Zaki, apertou-me a mão um rapaz curvado, extrovertido, com um sorriso que mostrava as gengivas. Chegou Jerônimo, estava lá Rebeca e uma outra cheia de piercings e cabelos rosa. Dali a pouco eram conhecidos o suficiente pra eu não saber mais o nome de ninguém. Ela me serviu uma dose, tomamos todos, parecia que a noite seria bem agitada.
Mais uma dose, ela dizia que eu tinha que acompanhá-la. A bebida me deixando acesa, ela parecia feliz, livre. Depois de algumas rodadas, ela beijou. Beijou a de cabelo rosa.
Eu fiquei ali, alheia, cheia de tequila. Ia saindo do bar pra chamar o Uber, quando ela me abraçou pelas costas. Onde você vai? Estou indo embora, você estava ali beijando a garota, achei que ia te atrapalhar. Atrapalhou? Ela perguntou.
No meu íntimo, não atrapalhou. Só ia embora mesmo por convenção social. Está convencionado e é esperado que todo mundo que está num encontro, vá embora se o outro beijar alguém na frente dele. Quem sou eu pra contrapor a convenção e virar a louca do rolê. Não falei uma palavra. Me deixei no embalo, porque nunca fui de cobranças, nem de perder uma sacanagem. Nos beijamos. Dá um segundo da sua boca até a boca da pessoa. Vocês ficam sérios e relaxados, fecham os olhos e acabou todo nervosismo, aproveitar ou odiar. Ela veio sedenta. Eu pensava demais, respirei fundo duas vezes, bem devagar, senti a saliva e um perfume que até então eu não reparara. Como?
Vou embora com você. Ela veio. Abri meu apartamento, entrava uma brisa azul da sacada. Eu me senti num portal mágico pro meu reino. Têm vantagens em encontrar alguém na sua própria casa: mostra mais de você, te dá segurança, autonomia e tempo para contemplar. É o início do ritual da abertura da sua privacidade. Você cede, ela avança, ela cede, você avança.
Chegamos e sentamos. Conversamos por muito tempo, ela tinha duas irmãs mais velhas, era professora de música, soprano e não gostava de filmes de ação. Temos a mesma posição política, e muitas diferenças de paladar.
Salmão? As pessoas mentem sobre gostar de salmão, o cheiro é muito característico com porão de navio pesqueiro, só que é chique, é servido nos restaurantes finos, ninguém admiti a sua deselegância.
Ela era engraçada e expressiva. Levantou, juntou a bolsa e foi embora.
Disse que estava cansada. Me avisa quando chegar!
Eu gostei da companhia, quis amá-la, mas estava aliviada por ela ter ido embora.
Cheguei! Obrigada pela noite, foi muito agradável. Espero repeti-la mais umas seis vezes.
A cama me acolheu, dormi...
- Grushenka
Nude poem
Meu reflexo despido, a mim anseio como a ti
Hora o espelho atraído lançarás sobre mim mãos lascivas
Em teu lugar me desposará com o maior dos apetites
Enquanto não, registro em fotos minha carnal saudade
E alimento minha estima com tua ilusória incontrolável atração.
- Grushenka
Pensamento pena que avoa
Toca de leve e arrepia
- Grushenka
Assiste e comenta aqui uma frase que te marcou.
"Em políticas públicas, as ações repressivas são desastrosas"

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O Tumblr parece ser um lugar só nosso
Não adianta censurar a arte, ela volta...
Obras de Gerda Wegeber
1886 - 1940
Nós no insta
Victória Mechant
Instável era Victória, jamais desejaria eu me relacionar com alguém assim. Levava qualquer um à loucura, inclusive ela própria, desde a paixão devota até a insanidade.
Victória era doce, tinha o coração de um elefante. Era uma excelente companhia, dominava diversos assuntos aleatórios e mantinha uma conversa como ninguém. Sensível, percebia detalhes em você que ninguém mais via, transformava todos os encontros em poesia. Te envolvia, sorrisos tímidos por trás de palavras intensas. Os grandes olhos arábicos Ágata de fogo, a íris era um poço de água doce tocado por raios de Sol e sombra rala de folhas de Acácia. Dava medo, eram erroneamente honestos e límpidos, apesar de te sugar. Caíamos todos nós nos seus encantos.
Ela amava com sinceridade, mas não era fiel a ninguém. E diferente de muitos infiéis que discretamente tem suas aventuras e mantém o amor na sua casa, ela se envolvia sentimentalmente com seus amantes e, como muitas mulheres, só conseguia amar uma pessoa de cada vez.
Eis a sina da magérrima e esguia Victória, só se sentia viva enquanto apaixonada e inconscientemente buscava uma nova carga de dopamina em sua vida antes que a fonte anterior se esgotasse. Desde quando aprendeu que cada pessoa é um universo, virou mochileira nas galaxias da humanidade.
Pobre Victória, e pobre de nós que fizemos parte de seus destinos. Eu nem queria, mas quando percebi estava envolvido pelo jeito que ela me iludia, dia após dia, e quanto mais de difícil eu me fazia, mais ela me queria.
Só que empatia era uma das suas qualidades mais desenvolvidas, e ela sofria profundamente com cada pessoa que fazia chorar. Se condenava por ter deixado de amá-la, praguejava os deuses por terem a feito assim, volúvel, volátil Victória. Esse era o motivo de sua magreza, cada volta violenta que seu emocional dava, as quais seu estômago não conseguia acompanhar. Também era motivo de sua poesia. Tive o privilégio e a audácia de ler seus rabiscos sem títulos, parágrafos ou regras que fossem, eram instigantes, envolventes, perturbadores e muito agradáveis, esmiuçava amores não correspondidos, por ambos os lados, em ricas palavras. Aquela vez, aliás, formou-se claramente em minha mente uma teoria sobre grandes escritores, compositores e poetas, que seu segredo deveria por certo ser um caráter tão duvidoso quanto de Victória, usavam a arte para extravasar seus sentimentos incompreendidos socialmente, e também para serem narcisistas escancarados, mas imperceptíveis, e ainda serem venerados por isso.
Contudo, vamos aos fatos. Caí nas garras da medonha em um bar movimentado na Lapa, ela era turista e eu me julgando o tradicional carioca malandro. Xavequei minha presa com toda minha lábia e julguei que ela caiu macia em minha armadilha. Ingênuo Vitor Beau que usou o senso comum para avaliar sua posição naquele jogo de xadrez que obviamente a rainha daria o xeque-mate.
Levei ela pra minha cama e fiz minha melhor performance, ela gozou e adormeceu, dormi eu o sono dos justos com o dever cumprido.
No outro dia acordamos e conversamos bastante (aí já estava armado o pastor pra me derrubar em três jogadas). Contou-me com um sorriso tímido que havia sido especial a noite, porque na verdade ela tinha dificuldade de gozar com alguém nos primeiros encontros, e comigo conseguira. Eu fiquei orgulhoso, sem perceber que aquela era uma perfeita artimanha, o quão forte era revelar sua fragilidade e me conectar ao seu íntimo, ao mesmo tempo que me fez querer repetir aquele troféu que eu julgava ter recebido, e dessa vez degustar minha merecida exclusividade.
Sua segunda jogada épica foi quando, tentando impressioná-la, mostrei minhas medalhas das competições esportivas que participei, sou triatleta, caso você ainda não saiba, e ela humilde e impressionada disse que suas medalhinhas de jogo de poker ficariam com vergonha das minhas muitas. Esse cavalo de troia implodiu minha torre de julgamento normativo, e me fez abismado imaginar aquela bela mulher num meio de boêmios superdotados, cérebros hábeis nas madrugadas cheirando a cigarro e whisky.
Seu xeque-mate foi um sexo de despedida, em nenhum momento a girafuda sexy se fez de mulher santa. Deixava claro que era uma depravada de mão cheia, mesmo que nada dissesse, aqueles olhos a revelavam, cada parte do meu corpo que ela tocava, entendiam perfeitamente o desejo. Tirei sua roupa, lhe fiz uma massagem, beijei seus pés. Ela não quis ser penetrada naquela noite, me permitiu despreparado, explorar todas suas curvas e explorou igualmente as minhas, atrevida, sedenta. Eu me senti verdadeiramente desejado, e perturbado, fazendo o papel errado. Que papel? Ela era tinta spray pichando paredes inascíveis, movida à adrenalina pela noite. Chupou meu pau sem muita técnica, mas com desejo verdadeiro, lambeu e chupou ele inteiro, o conjunto, até minhas bolas, e aquilo me deixou louco, eu explodi surpreendido, e desfaleci. Doida e doce, Victória.
Tenho certeza que voltou pra casa apaixonada, eu percebi em suas atitudes, a paixão transborda. Eu fiquei, não mantive contato, fugi das suas profundezas, e das minhas. Preventivamente escolhi não adotar esse calcanhar de Aquiles, e logo ela esqueceu por outra aventura, me deixando silenciosamente de orgulho ferido.
E certamente eu virei uma poesia reversa entre seus rabiscos, onde ela mergulhou corajosa, para saciar todo aquele sentimento e me esqueceu quando concluiu o conto.

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