pelos deuses! aquele ali passeando na praia é 𝑀𝐸𝐿𝐼𝑁𝑂𝐸.ᐣ ah, não, é só 𝐶𝐿𝐸𝑀𝐸𝑁𝐶𝐸 𝐹𝐼𝑇𝑍𝑅𝑂𝑌 𝑊𝐴𝐿𝐾𝐸𝑅, uma 𝐻𝐸𝑅𝐷𝐸𝐼𝑅𝐴 nos agraciando com sua beleza nos halls do aletheia hotel. as moiras avisaram: mesmo com os 𝑉𝐼𝑁𝑇𝐸 𝐸 𝑆𝐸𝑇𝐸 anos nesse novo corpo, segue tão 𝐸𝑀𝑃𝐴́𝑇𝐼𝐶𝐴 e 𝑅𝐸𝐶𝐿𝑈𝑆𝐴 quanto na antiguidade. repararam também que ele lembra muito 𝐇𝐀𝐕𝐀𝐍𝐀 𝐑𝐎𝐒𝐄 𝐋𝐈𝐔.ᐣ a maldição levou tudo, menos sua beleza. que prazer tê-lo como 𝐻𝑂́𝑆𝑃𝐸𝐷𝐸 do nosso hotel!
𝑀𝐸𝐿𝐼𝑁𝑂𝐸 (Μελινοή) ──
é uma deusa ctônica ligada aos fantasmas, pesadelos e à loucura noturna, conhecida principalmente pelos hinos órficos. ela é filha de perséfone e hades. habita a fronteira entre sono e vigília, sanidade e delírio. à noite, manifesta-se por meio de aparições e terrores, conduzindo espíritos inquietos e revelando aquilo que foi reprimido ou esquecido. não é uma deusa maligna, mas inevitável: aquilo que retorna quando não encontra repouso. apesar de causar medo, melinoe também pode apaziguar os mortos, sendo invocada em ritos para afastar assombrações. ela pertence aos mistérios e aos sussurros, às noites inquietas e aos sonhos que não libertam.
𝑯𝑬𝑨𝑫𝑪𝑨𝑵𝑶𝑵 ──
⊹₊˚‧︵ nascida em harrogate, clemence era a segunda filha do casal fitzroy, uma família reverenciada pela linhagem nobre e pelo poder que atravessava gerações. esse legado, contudo, nunca lhe pertenceu de fato. desde a infância, clemence parecia existir em um espaço deslocado, como se estivesse com um pé além do limiar, algo que o pai fazia questão de apontar, com irritação crescente, sempre que ela falava das visitas noturnas que recebia em sonhos. parentes mortos vinham até ela para deixar recados aos vivos, vozes que sussurravam pedidos e avisos que ninguém mais parecia disposto a ouvir. outras vezes, surgia no jardim com pequenos animais sem vida, encontrados ainda mornos, fascinada demais para deixá-los onde estavam. queria abrir seus corpos, compreender o que permanecia quando o sopro se extinguia. ⊹₊˚‧︵ foram essas inclinações mórbidas, silenciosas, inconvenientes, que a empurraram para fora do convívio familiar e social. clemence passou a viver recolhida, como algo que precisava ser mantido fora de vista para preservar a dignidade dos fitzroy diante do mundo. a casa, grande demais, tornou-se um lugar de corredores longos e portas sempre fechadas. ainda assim, em sua ingenuidade quase devocional, acreditava que, se suportasse em silêncio, talvez um dia fosse digna do amor que lhe era negado. o irmão, nove anos mais velho, jamais precisou implorar por atenção. mesmo quando se envolvia em escândalos que alcançavam os jornais, o pai limitava-se a rir e dizer que aquilo era natural, esperado até, em rapazes daquela idade. clemence o odiava em silêncio. ele zombava de seus interesses, rasgava seus livros, destruía seus objetos mais queridos apenas para vê-la chorar, como se precisasse reafirmar que ela pertencia a um lugar inferior. ⊹₊˚‧︵ o tempo avançou, e ao completar vinte e cinco anos, clemence foi arrancada do esquecimento doméstico e empurrada para os salões sociais que antes lhe eram proibidos. não por escolha, mas por necessidade. era hora de cumprir sua função: casar-se, perpetuar o nome da família, e oferecer herdeiros saudáveis como se seu corpo fosse apenas mais um instrumento do legado fitzroy. a ideia lhe causava repulsa. tudo o que desejava era permanecer entre livros antigos e páginas gastas, onde conseguia, com esforço, ignorar as presenças que sabia vagar pelo mundo - espíritos inquietos que já não podiam mais ser descartados como imaginação infantil. - ainda assim, cedeu. não podia desperdiçar a possibilidade de receber, mesmo que uma única vez, algum gesto de reconhecimento dos pais. ⊹₊˚‧︵ foi nesse contexto que conheceu aurelian ashcroft, filho único de uma família tão tradicional quanto a sua e, em breve, seria o seu noivo. clemence não o considerava feio; havia algo nele que agradava aos olhos alheios. mas sua mente era rasa. falava apenas de futebol, carros e símbolos de riqueza, e deixou claro, com um sorriso desconfortável, que após o casamento não toleraria os “hábitos” de clemence. eles o assustavam. e clemence aceitou. pelo menos até começar a sonhar com um hotel na grécia. um lugar que surgia noite após noite, chamando-a com uma insistência inquietante, como se aquele espaço existisse entre mundos e a reconhecesse como parte de algo que sempre lhe pertencera. numa madrugada silenciosa, contrariando tudo o que lhe fora imposto,invadiu o escritório do pai e abriu o cofre escondido atrás de estantes repletas de livros jamais lidos, conhecimento decorativo, morto antes de ser tocado. retirou dali dinheiro suficiente para desaparecer por alguns meses. partiu na noite seguinte, em um voo comprado às pressas, levando poucas coisas consigo. apenas deixou uma carta. curta. definitiva. não retornaria. ao chegar em aletheia, registrou-se com o sobrenome walker, enterrando o nome fitzroy como se fosse um corpo antigo. é ali que vive desde então.


















