Ă cĂŽmodo amar quanto tudo vai bem. Quando vocĂȘ acorda e vai tomar banho, escovar os dentes, colocar uma roupa limpa. Quando vocĂȘ me dĂĄ flores, prepara o cafĂ© da manhĂŁ, puxa a cadeira para que eu sente ao seu lado. Quando vocĂȘ diz que vai me dar aquele anel que eu fiquei de olho na vitrine da joalheria, me escreve um cartĂŁo cheio de palavras e rimas bonitas, me faz um cafunĂ©, dĂĄ um abraço longo, cheira meu cabelo e diz que tem cheiro de chĂĄ de camomila. Quando dirige com a mĂŁo na minha perna, fica me observando cantar mĂșsica brega, faz carinho com o pĂ© no meu pĂ© antes de dormir, coloca o braço por cima da minha cintura e diz vem-mais-pra-perto. Assim todo mundo sabe amar. DifĂcil Ă© amar quando alguma coisa dĂĄ errado. Quando a casa estĂĄ uma bagunça, quando as contas começam a crescer e o dinheiro diminuir, quando qualquer palavra vira ofensa, quando um silĂȘncio se transforma em dĂșvida. Quando sobram palavras entaladas na garganta, quando falta um gesto que era pra ter marcado presença, quando o beijo Ă© rĂĄpido, o olhar Ă© vazio, o abraço Ă© curto, as promessas falham. Quando o zĂper da mala fecha e vocĂȘ nĂŁo vai. Quando vocĂȘ espera por algo que nunca vem. Quando as expectativas começam a te sufocar. Quando os olhos ficam marejados ao lembrar do que podia ter acontecido, mas nĂŁo aconteceu. Quando a porta bate, o tom de voz aumenta, a paciĂȘncia se esgota, o humor nĂŁo faz mais rir.
Clarissa CorrĂȘa (via escreve-e-voa)










