Percebia que Celeste evitava seu rosto, mas não era como se ele fizesse diferente enquanto despejava as reclamações, um tanto receoso de observar qual seria a reação estampada nos traços faciais. Teria identificado um arfar de frustração ali? Não conseguia pensar em nada que tivesse dito que fosse capaz de frustrar a morena, até porque, frustração requeria uma expectativa prévia, o que ela não nutria em relação a ele, até onde Njord sabia. “ Vou assumir isso como um sim ” não se sentia tão convencido como queria esboçar, e o ciúme pelo ciúme não era necessariamente indicativo de algo além do sentimento de posse, algo que o Westergaard conhecia bem. Apesar disso, estava um tanto cansado das respostas enigmáticas. Não que estivesse cansado de ouvi-la — desconfiava que nunca chegaria a esse ponto, para a própria infelicidade — mas gostaria que falassem mais claramente sobre os assuntos que interessavam a ambos. Ao menos Celeste parecia estar dando respostas sinceras dessa vez, o que era mais do que podia pedir dela, dada a situação em que se encontravam. A única questão era que a Hearts não se estendia nestas mesmas respostas, como se não quisesse revelar mais que aqueles pequenos detalhes a ele. Njord imaginava que se quisesse saber algo seria daquela forma: extraindo pequenas informações com provocações. Mesmo enquanto pedia se tinha sido um descuido para ela, esperava que negasse, que dissesse alguma coisa além de uma pergunta em retorno. “ Não disse. Só fez parecer ” devolveu, imaginando que estava fazendo cobranças em demasia, não obstante o tom casual com que mantinha aquela conversa, para que a aprendiz de Jafar não desse as costas a ele. Sim. Queria que ela tivesse ficado, mas, e se admitisse e ela risse bem na sua cara? “ Você queria ter ficado? ” era melhor saber antes de fazer qualquer confissão, nem que fosse para receber confirmação mínima. “ Bom, talvez não fosse ruim se significasse algo ” considerou, percebendo que também não se fazia claro, mas se garota estivesse atenta, perceberia a mudança em seu tom, que tinha se tornado mais grave. Não esperava ouvir aquilo da parte dela, contudo. Estaria Celeste com pena dele? Se não queria que as coisas se complicassem? Krastan não sabia bem o que dizer… A outra já tinha provado que não era aquela a vida que queria levar, no entanto, devia saber que ele não era completamente indiferente a ela há algum tempo. Insistir apenas faria com que os sentimentos dele se aprofundassem, para depois, então, ficar sem nada. “ Não complicar as coisas para mim, você quer dizer? Por que não temos chance alguma? ” se via como a única parte em risco ali. “ Não tem com que se preocupar, Hearts… Sobre destruir meu coração ” nesse tanto, obrigou-se a rir, revirando os olhos.
conseguia ver a confusão que causara pela maneira com que as acusações vinham. sua visão, decerto, era uma tendenciosa, mas não sentia-se sair tão ilesa do rompimento quanto njord fazia parecer; era o exato oposto. enquanto responsável pelo o que deixava transpassar, contudo, só podia dizer-se cansada de disfarçar, do dissimular de suas reações. aquele ponto, inclusive, desconfiava que passavam disso: das provocações persistentes, mas evasivas, e dos dizeres esquivos, deixados para trás por dispensarem explicações. hábitos antigos morriam aos poucos, no entanto, e celeste passara tempo o suficiente afastando-se da ideia de que poderiam ter algo real que falar sobre, abertamente, tornava-se quase que impensável. a inquietação, então, não demorou a tomar suas feições e, junto, a angústia por ser ela a responsável por o fazer se sentir assim. um desleixo, quando era tudo menos isso. não planejara, era verdade, o que amenizava em muito pouco a própria consciência. teve de morder o lábio inferior, evitando oferecer resposta que o sulista poderia, muito bem, descartar. njord não precisava de suas desculpas ou de saber o quanto ‘sentia muito’. não gostaria de ouvir algo parecido, se estivesse em sua posição, e, certamente, gostaria menos ainda se ouvisse dele. o questionamento seguinte, por sua vez, servia apenas para esclarecer ainda mais o quão inconsciente era (o quão inconsciente tornara-o) de seus sentimentos. não o possessivo, ou o controlador. nada tão dispensável ou conhecido pela hearts. “ sim, queria. ” soltou, estendendo-se no admitir que abandonava-lhe os lábios como se oferecesse resposta previsível — como se fosse incapaz, até, de considerar discordância. partilhavam de percepções contrárias, o que era compreensível, mas nunca permitiu-se imaginar, verdadeiramente, que o westergaard julgava-a indiferente durante o tempo que passaram juntos; que nunca demonstrara sinais de que se importava, mesmo que minimamente. era tão alheia? gélida? “ eu queria ter ficado. ” dessa vez, segurava seu olhar ao dele enquanto encarava-o por debaixo dos cílios, receosa com a própria confissão. “ nós dois sabemos que não é bem assim. significaria alguma coisa, bom. mas por quanto tempo? pra que se torturar dessa forma? ” acabou por liberar ar excessivo, ciente de que materializava, talvez pela primeira vez, as próprias razões. podia não prezar por responsabilidades, mas era protetiva com o coração. mais defensiva ainda se considerasse que estivera, inevitavelmente, envolvendo-se — sem certeza alguma de que era retribuída e certa de que os condenara antes mesmo que pudessem ter uma chance. a pergunta consequente, portanto, atingia-a mais forte, tendo resistido a dar um passo para trás, com o complemento. “ não complicar as coisas para mim. ” corrigiu em estranhamento aquela conclusão, em específico. “ eu gostaria de dizer que estava tentando te poupar, mas não é verdade, não é. ” foi uma reação egoísta a de recorrer a mãe, mesmo que não soubesse o que fazer, e fora egoísta ao decidir por si só que o melhor seria evitá-lo. “ sou eu que não posso estar perto de você, não vê? ” as orbes recaíram, uma mão tentativa, reticente, tocando o torso masculino, logo acima do coração. “ me dói. ” explicou, a voz não mais do que um sussurro fraco, quase inaudível.