Por muito tempo eu carreguei comigo a sensação de que a nossa história não tinha terminado, apesar de ter sido tão breve e mesmo superficial, perante qualquer ponto de vista que não o meu.
Alguma coisa me levava a acreditar que a gente ainda teria muito o que viver juntos. Mesmo que estivéssemos sempre em meio a tantos desencontros. Tantas possibilidades perdidas... Se eu tenho alguém agora, você não tem. Mas quando eu estou disponÃvel novamente, é você quem não está. Apesar disso, em algum lugar, me parecia que não havÃamos deixado de ser prioridade um do outro. O tempo, assim como tantas outras circunstâncias, nos afastou. Mas de alguma forma, nunca estivemos distantes, não é?
Bom, na verdade, eu sei que eu sempre estive disponÃvel pra você, mesmo quando não era essa a imagem que eu sustentava. Bastava que você me pedisse, como quase fez, embreagado, naquela manhã de natal (ou era réveillon?). Eu só precisava que você fosse mais incisivo. Mas eu sei que esse não é você...
Dos tantos erros cometidos no meio desse nosso caminho torto, o meu pior foi o de ter confessado os meus sentimentos para alguém que não fosse você. A pena que eu paguei por isso foi ver o meu sonho se tornando cada vez menos palpável, à medida em que outra pessoa se apoderou de tudo aquilo que era meu por direito. E eu vi isso acontecer tão de perto que até hoje eu sou capaz de sentir o gosto amargo daquele momento, em meio à madrugada que me despedaçou. O pior é que eu sei que bastou o amanhecer chegar para que você também pudesse degustar do mesmo amargor.
Esse novo impasse me pareceu grande demais para ser superado. Foi o fim desse sentimento reticente que já durava anos e anos. Ou era o que eu pensava...
Afinal, depois de tantas outras voltas em torno do sol, uma noite conseguiu despertar tudo aquilo que estava tão adormecido que eu já não sabia que voltaria a florescer. Essa viagem no tempo foi o respiro que o meu coração nem sabia que precisava naquele momento.
E então, cada música que nós cantamos juntos ganhou um novo significado pra mim. As canções que você me apresentou naquela noite passaram a fazer parte do meu repertório e, assim como seus olhares, passaram a me dizer aquilo que a sua boca nunca fez.
Aquela madrugada pareceu durar uma eternidade pra mim. E eu sei que essa sensação surgiu da minha vontade de absorver cada pequeno momento que eu vivenciava ao seu lado. Isso porque ali foi onde tudo o que eu sinto desde sempre foi materializado: o nosso pique-esconde particular.
Parece que a gente fala a mesma lÃngua. É como se fôssemos dois conterrâneos que se encontraram na torre de babel. E é isso que faz esse lance ser tão especial pra mim, mesmo quando ele não sai da minha imaginação. Mas apesar disso, eu sei que em muitos momentos, é também o que nos atrapalha. Nossas semelhanças no modo de (não) agir é o que nos impede de avançar o sinal, mesmo quando o outro parece implorar por isso. A tensão no ar sempre que nos olhamos quase diz tudo aquilo que nenhum de nós tem coragem... E eu confesso que também foi esse suspense que fez aquela madrugada parecer eterna pra mim. A cada passo, risada ou acorde daquele violão que se fez seu, uma nova chance de alguém ceder e dar o primeiro passo.
A nossa conexão é tão nÃtida que faz com que os espectadores dessa história se perguntem (e até mesmo NOS perguntem) o que estamos esperando para finalmente nos render. Eu não posso responder por você, mas sei que aqui dentro, a insegurança sempre acaba vencendo a disputa que acontece na minha cabeça toda vez que eu te vejo. E pelas nossas semelhanças, eu acredito que algo muito parecido role por aÃ. Mas eu queria saber se você também se martiriza a cada despedida, e passa a encarar aquele encontro como mais uma chance desperdiçada.
Eu vivo tentando decifrar os teus sinais, que, como canta Djavan, me confundem da cabeça aos pés. O meu medo é que tudo isso não passe de uma materialização do meu desejo que, de tão forte e antigo, já tenha tomado forma e feito com que eu projetasse em você, tanta coisa que só existe dentro de mim. Por isso, me pergunto: será que você ainda vai saber de todas as vezes em que eu quis pedir pra você me beijar naquela noite em que até a lua parecia estar torcendo por nós? Eu espero que sim. E que você me beije ainda mais, como forma de reparação por todo esse tempo perdido.