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Gotta leave you all behind and face the truth. (POV)
A sexta feira gelada predizia que um mal tempo estava para vir. Da janela do seu dormitório, Julian assistia os mais diversos tipos de nuvem se acumular e formar uma frente fria. Aquilo só podia significar uma coisa: o inverno estava chegando. Não que fosse fazer alguma diferença, afinal. A única coisa com que os alunos deveriam se preocupar era em por roupas maiores e mais quentes. Bem, quase todos. Um deles não pensaria naquilo por muito tempo. No Peru o clima é ameno e até um pouco quente, como ele se lembrava. E era para lá que estava indo. Fugindo, para ser mais preciso. Estava quase que cem por cento pronto. As suas roupas estavam todas amontoadas no enorme malão que havia ganhado no quarto ano, depois do seu antigo ter se quebrado. O rosto carregava consigo uma expressão triste e nostálgica. Já estava sentindo falta de Hogwarts. Mas ele precisava fazer aquilo, precisava lutar pelo que acreditava e, acima de tudo, precisava estar com aquele que fazia seu coração palpitar.
Há mais ou menos uma semana havia recebido uma carta totalmente anônima – ou quase totalmente. Tudo que trazia consigo era um curto texto sobre como a pessoa se sentia a respeito do Carter. Não foi necessário mais do que duas linhas para que ele soubesse de quem se tratava, e quando viu a inicial no fim, ele teve certeza. Sentimentos conflituosos haviam se abatido sobre si depois de tal convite, e depois de umas noites de choro e lamento, ele finalmente tomou uma decisão. Agora se encontrava aqui, olhando para o terreno quase que vazio da escola que havia passado dezesseis anos de sua vida. Muitas coisas aconteceram com ele, ali, mas nenhuma delas foi mais intensa do que o que houvera no Peru.
Por muito tempo tentou se convencer de que tudo não tinha passado de uma fase. Seu coração palpitava ao se lembrar das noites que se entregara de corpo e alma a tal pessoa, mas sua mente dizia-lhe que tudo não passara de uma carnal e ligeira relação. Estava claramente errado. Seu corpo, sua alma, tudo pertencia única e inteiramente a ele. Então, quando tudo para sua partida estava finalmente pronto, ele apenas olhou para o pequeno pedaço de pergaminho que ainda remanescia em sua mão. No momento que se despedisse disso, era para valer. Não haveria volta – ao menos não por um tempo. Seria o seu destino final. Os olhos encararam por alguns segundos tal confissão.
Querido Fabian,
Eu não sei como falar isso, então vou apenas ser direto. Estou fugindo. Eu vou voltar para o Peru. Lembra-se de quando estivemos lá, e eu dava escapada de alguns dos eventos sociais chatos que nossos pais insistiam que fossemos? Então, eu me encontrava com alguém. Não vou te dizer quem, uma vez que será fácil rastreá-lo, mas saiba que é alguém confiável. Nós nos envolvemos durante esse tempo, e eu achava, durante o período que passei na escola, que havia sido apenas uma fase e logo passaria. Mas não aconteceu. Ao invés disso as coisas só se complicaram mais. Então eu venho por meio dessa carta te dizer que estou indo para lá viver com ele. Por favor, não tente me encontrar. Se um dia for para eu voltar, eu volto. Não se preocupe com nada, já tenho um jeito de partir, que eu também não posso te contar porque corre o risco de você – ou nossos pais – tentar me buscar. Eu só queria dizer que te amo e você é o melhor irmão que alguém pode desejar ter. Diga a mãe o pai que eu os amo também. Diga a Lucy Weasley que ela é minha melhor amiga e eu a adoro. E diga a Nicholas Lawrence que, apesar do pouco tempo que nos conhecemos, ele se tornou alguém muito especial para mim. Obrigado por compreender, e pode mostrar essa carta aos nossos pais, se quiser. Apenas peço que cuide para que eles não fiquem muito preocupados. Vou sentir sua falta, e espero que um dia possamos nos ver novamente.
Com amor, Julian.
Seu olhar se perdeu em lembranças por alguns momentos, mas logo retornou ao presente. Era doloroso demais tudo pelo que estava passando. Então, como um rei que decide o destino da sua gente, ele sussurrou o pequeno feitiço e viu a despedida se dobrar e voar pela janela afora. Por mais que desejasse ver se chegaria ao destino em segurança, ele se afastou e então atravessou a porta, trazendo consigo tudo que era necessário. E pela primeira vez ele não olhou para trás.
It's not cheating if we're together @ Dellawcarter
O desafio dele fora um tanto inusitado, mas não podia esperar menos. Bom, suspeitava que Frank não teria direito de reclamar uma vez que já tivera seu momento — proporcionado por Nick, em parte. Mas Nicholas não era habituado àquele tipo de coisas. Sua experiência sexual era extremamente limitada e beijar caras na frente do namorado não era exatamente algo que ele já tivesse experimentado antes. Bom, se a ideia do jogo era testar alguns limite, talvez fosse hora de encarar mais um. Porém só depois de dirigir um olhar apreensivo a Frank. Mesmo que ele não fosse impedi-lo, era bom deixar claro que não faria tal coisa sem que ele concordasse. Um ótimo momento para garantir fidelidade, aliás.
— Você que manda. — Disse suavemente, inclinando-se e seguindo até Julian, as mãos apoiadas no chão e o olhar focado no dele. O beijou em seguida, sua mão direita erguendo-se para tocar-lhe a nuca, aprofundando o contato e intensificando o beijo. Seu beijo era diferente do de Frank, os lábios eram diferentes, a forma como se encaixavam, a frequência com que se moviam. Soube então que mesmo na mais intensa escuridão sempre seria capaz de identificar que lábios pertenciam ao namorado caso fosse posto a prova. Mas não era ruim. Pelo contrário, a sensação era ótima, e talvez por isso não se preocupou muito quando sentiu seus corpos se tocarem, alertando-o de que aquele calor não tinha origem na bebida. Talvez fosse a mistura do que restara do contato dos lábios de Frank mais o beijo que agora acontecia com Julian, ligando seus sentidos e movendo-os numa intensidade perigosa.
Notou que estava quase debruçado sobre o corpo do outro quando finalmente parou, recuando num suspiro ao seu lugar, girando a garrafa quase que imediatamente, como se precisasse pular a parte em que sentia seu rosto afogueado por conta do beijo. A garrafa apontou para Frank, e ele encarou o namorado por fim, umedecendo os próprios lábios e esperando que ele se pronunciasse.
Se manteve em silêncio quando Julian ofereceu a consequência, sabendo o quanto seria idiota da sua parte protestar. Afinal, ele tinha feito o mesmo e Nick não tinha dito uma palavra contra. Muito pelo contrário, ele mesmo tinha dado a ideia. Seu olhar repousou no seu namorado por alguns segundos, não podendo deixar de se questionar se ele tinha planejado tudo aquilo. Por muito que ele parecesse inocente, Frank tinha perfeita noção o quanto ele não o era. Mas era um pouco impossível. No fim, ele ainda era um pouco… Ingênuo demais para aquele tipo de coisa. Parecia uma ideia que viria dele próprio, não do loiro. E claro, ele não estava pronto para protestar. Apesar da pontada de ciúmes que surgia quando Julian observava-o daquele jeito, preferia ignorá-la. Estava seguro que Nicholas o amava e isso era o suficiente para ele.
Era um pouco estranho ficar ali sentado, observando seu namorado a beijar outra pessoa, mas não podia deixar de apreciar o que estava vendo. Ele ficava estupidamente sexy, debruçado daquele jeito, se entregando para outra pessoa que não ele. Mordeu os seus próprios lábios, um gesto totalmente involuntário, perante aquela cena. Sua mente já vagueava livre, imaginando vários cenários, todos eles envolvendo Julian. Quase protestou quando eles se separaram, mas apenas ficou em silêncio. Soltou uma pequena risada com a pressa de Nick de rodar a garrafa. Aquilo estava se tornando ridículo.
“Não preciso do jogo. Acho que todos sabemos onde isto vai acabar.” Deu de ombros e antes que alguém pudesse sequer questionar o que ele estava fazendo, se virou para Julian, agarrando-o pela gola da sua blusa, puxando-o para si mesmo, capturando os lábios dele num beijo. Estava um pouco mais confortável, mais confiante no que estava fazendo agora. Era diferente de beijar Nicholas, não podia negar. Não tinha o sentimento habitual, apenas puro desejo transmitindo em cada uma das suas atitudes. Empurrou-o sob a carpete, suas mãos trabalhando em cada um dos botões, abrindo-os rapidamente. Parou o beijo, apenas para deslizar os seus lábios para o peitoral do garota, mordendo e beijando a pele suave. Finalmente, levantou a cabeça preguiçosamente, encontrando o olhar de Nick. “Você pretende se juntar ou ficar ai olhando?” Perguntou, um sorriso divertido nos seus lábios.
Se Julian ainda tinha qualquer remota esperança de escapar, ela acabava de ser descartada. Primeiramente, o seu pedido a Nick havia sido atendido – e muito bem, teve que admitir. A proximidade dos lábios dos dois fora tão boa que, momentaneamente, ele até havia se esquecido de que o namorado dele estava bem ali perto. Nas poucas vezes que havia parado para reparar na beleza de Nick, ele já havia imaginado como seria se os dois ficassem. Não tinha vergonha disso, pelo contrário. Mas o modo como Lawrence havia se inclinado, o contato sublime entre suas peles, fora mais intenso do que qualquer sonho seu. E isso, junto de mais um monte de coisa, acabou gerando uma reação não tão inesperada no corpo de Carter. Sim, lá estava ele, excitado enquanto um dos seus melhores amigos – se não o melhor – lhe beijava na boca. Uma situação absolutamente bizarra. E, quando ele se desprendeu, mal teve tempo de retomar o fôlego, quando viu a garrafa sendo girada novamente. Isso não importou tanto, a princípio, já que ele tinha algumas coisas mais sérias a esconder. Sorte que o tecido das suas vestes é preto.
Mal percebeu a aproximação de Frank. quando se deu conta, o outro já estava acima de si também. Ok, talvez sua ereção involuntária não fosse o maior dos seus problemas no momento. Não sabia o que deveria fazer mediante aquilo; empurra-lo? Juntar-se a ele? Sem dúvida Julian estava se divertindo um bocado, e um beijo como esses não era algo que tinha a chance de experimentar todos os dias, mas ainda tinha o tabu do “o namorado dele tá bem ai”. Ele então notou que, durante todo o tempo, os dois haviam feito joguinhos de sedução para consigo e, qualquer boa intenção que tinham, acabara. Então apenas deixou-se levar pelo toque das mãos de Delvecchio – que agiram rápido ao desabotoar suas vestes – e ao toque leve que sua boca dava no seu peito desnudo. Tentou evitar um lamurio de excitação, mas tinha quase certeza que falhara arduamente. Quando a voz do seu dominador então chamou Nick, Julian vislumbrou o olhar dele de longe. Não tinha certeza se estava adorando ou odiando isso.
Então, num ato totalmente mecânico, rastejou de leve até onde Nick estava e, dessa vez, tomou ele em seus lábios. Suas mãos estavam ambas ocupadas – segurava com destreza o tecido da roupa de cada um dos dois. Foi quase que instantâneo o momento em que puxou os dois para mais próximo de si. O roçar da sua pele contra a deles fez com que a temperatura do seu corpo subisse. Estava bem ali, no meio dos dois, com uma ereção involuntária e, durante um breve lapso de lucidez – já que o seu corpo estava tomado pelos hormônios – ele sussurrou brevemente – Obrigado pela distração, Nick. – e então voltou a trabalhar. Um sorriso havia brotado no canto dos seus lábios, imaginando até onde aqueles dois eram capazes de ir, porque ele, com toda certeza, não tinha limite algum.
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Decididamente, Frank iria parar de tentar antecipar as atitudes de Nick. Cada vez que achava que tinha a certeza de que ele iria fazer a seguir, ele provava que ele estava errado. Não antecipara aquilo. Queria provocá-lo com Julian, causar alguns ciúmes. Nunca tinha pensado na hipótese que ele podia gostar mais de todo aquele jogo que o próprio Frank. Se manteve em silêncio, enquanto observava as reações de Julian. Surpresa, decididamente. Mas quem no seu perfeito juízo espera que o seu amigo lhe peça para beijar o seu namorado? Suspirou, preferindo se manter em silêncio enquanto o moreno parecia querer levar Nicholas para o lado da razão. ‘Que se dane’. Isso seriamente não parecia o jeito certo de fazer ele entender a loucura que aquilo era.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu um par de lábios quentes sobre os seus. Imediatamente soube que não era Nicholas, mas Julian. Por puro instinto, o segurou pela cintura, puxando-o para mais perto de si, retribuindo o beijo. Estaria mentindo se dissesse que não queria aquilo. Só pedia para Merlin para que aquilo não fosse um teste. Podia sentir seu corpo reagindo a tudo aquilo, a temperatura da sala imediatamente começando a subir. Por muito que amasse Nick, não se importaria de ficar beijando aquele garoto pelas próximas horas. Finalmente, entreabriu os olhos, encontrando o olhar do loiro, se apercebendo que aquela seria uma boa hora para parar. Afastou o moreno delicadamente, se separando dos seus lábios com uma pequena mordida e um sorriso satisfeito no seu rosto.
Se manteve em silêncio por uns segundos, o seu olhar fixo em Nicholas. Teve de lutar contra os seus próprios instintos para não se levantar e beijá-lo. Julian era bom, mas não era quem amava. “Isso foi interessante.” Finalmente, disse, dando uma curta risada, finalmente, encarando o moreno desde que se tinha afastado dele. “Sabia que você me desejava.” O sorriso convencido habitual voltou para os seus lábios, acompanhado pelo seu riso. Gostava da direção que aquilo estava tomando.
Poderia facilmente acrescentar aquela cena na sua lista de guilty pleasures. Obviamente não ia achar atraente encontrar o namorado beijando qualquer pessoa por aí, mas naquela situação, com sua autorização plena, podia facilmente observar a cena e considerar interessante. Talvez porque Julian era seu amigo, porque Nick decidira entrar no joguinho de Frank, ou apenas porque o álcool anteriormente ingerido ainda aguçava seus sentidos e liberava doses de adrenalina em seu sangue. Suspirou ao fim do beijo, encaminhando um olhar demorado a Frank, como se o tentasse desvendar. Seus lábios avermelhados deram-lhe uma vontade súbita de beijá-lo. — Uau. — Murmurou, rindo baixo em seguida.
— Podemos ter só uma pausa agora, porque eu preciso… — Ele interrompeu a si mesmo, inclinando-se na direção de Frank e juntando seus lábios. Os dele estavam quentes, o contato quase provocando-lhe um pequeno choque térmico, dando-lhe uma vontade quase incontrolável de intensificar o gesto a níveis impróprios. Mas Se afastou quando o próprio fôlego ameaçou tornar-se insuficiente e suspirou, ainda de olhos fechados, voltando ao seu lado inicial e então dirigindo sua atenção à garrafa no meio deles. — Não consigo resistir. Mas então. Vamos lá. Continuando.
Ele mesmo girou a garrafa, e pela primeira vez ela deu vantagem a Julian. Nick dirigiu-lhe um olhar curioso. Àquela altura ele já não tinha certeza sobre que tipo de ideias percorreriam a cabeça do rapaz. Frank e ele já tinham provavelmente ou assustado ele demais ou finalmente tê-lo deixado à vontade entre os dois. Apostou na segunda opção, apesar de não descartar completamente a primeira. Moveu o olhar de um ao outro, à espera de Julian se pronunciar. — Sua vez, Julian. Seja criativo.
Separar-se dos lábios de Frank foi o suficiente para trazer-lhe a realidade. E o comentário que veio em seguida já era mais do que esperado – aquela altura, ele aprendera a não esperar nada mais, nada menos do outro. Deu um sorriso inesperado, sentindo toda a tensão anterior se esvair rapidamente. Claro que ainda não estava pronto para fazer qualquer coisa por conta própria, e ainda iria esperar a ordem dos outros dois, mas agora ele já havia entrado no jogo e começava até a achar divertido. Ora, Frank e Nick eram dois dos garotos mais bonitos de toda a escola, e se eles continuavam instigando-lhe a fazer coisas que iam além das barreiras da amizade, quem era Julian para negar? Mesmo que não se considerasse um cara promíscuo, ele tinha plena certeza que entraria no clima sempre que necessário. Aquela situação em especial pediu sua plena participação.
Foi então a vez de Nick de tomar uma atitude e pegar os lábios de Delvecchio para si. Talvez estivesse com ciúmes ou simplesmente marcando território, mas a verdade é que Julian sentia que tinha atiçado sem querer alguma coisa dentro de Lawrence. Antes de ter uma conversa regular com ele, sempre imaginara que ele era um cara extremamente tímido – o que não deixava de ser verdade. Mas, na sua mente, aquela timidez havia se tornado uma pureza quase imaculada, o que acabou não se provando verídico. Uma vez que ele conhecia a pessoa, não parecia ter problemas em falar abertamente – ou mandar beijar seu namorado – e isso ainda estava em processamento na mente de Carter. Viu então que ele já havia terminado o que quer que tenha feito e então deu outro giro na garrafa; Julian quase acreditou que ela pararia em si e ele seria obrigado a fazer alguma coisa outra, mas, para sua surpresa, havia ficado com ele a tarefa.
Mais exatamente dele para Nick. Isso era bem interessante. Um imenso mar de possibilidades passou pela sua cabeça. Havia tantas coisas que queria perguntar a Lawrence, mas tinha receio demais para fazê-lo, e essa situação era perfeita. Todavia Julian também sabia que tinha uma única chance (até agora) de ordena-lo a fazer uma coisa – qualquer coisa – então ficou indeciso por alguns momentos. Analisou suas possibilidades rapidamente, antes de finalmente chegar a uma conclusão – Nick! Eu te desafio a... – as palavras saíram rapidamente de sua boca; mal notara que tinha um sorriso formado. Optara pelo desafio, uma vez que suas perguntas podiam ser feitas e respondidas qualquer outra hora – Beijar qualquer pessoa dessa sala... – o suspense ainda estava presente no modo como ele parecia mastigar cada uma das silabas – Que não seja o seu namorado. – e então lançou um olhar maroto ao outro. A única opção possível era si mesmo, mas não queria perder a chance de fazer de desentendido. – Ah, e tem que ser com a mesma intensidade do meu, ok?
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Ficou um pouco desiludido com a reação de Nick. Esperava pelo menos um pouco ciúme, alguma coisa. Mas ele realmente não parecia se importar com a pergunta ou com a provocação. Talvez ele tivesse percebido o seu jogo, que ele apenas queria irritá-lo, uma pequena vingança pessoal. Voltou o seu olhar para Julian, esperando que ele respondesse, mesmo que a seu objetivo estivesse longe de ser cumprido.
O sorriso dele o surpreendeu. Esperava talvez que ele saísse a correr dali, não que ficasse e ainda tentasse responder. Não escondeu sua risada com a resposta de Julian. Não estava esperando algo mais sério, apenas queria provocar um pouco mais o garoto. “Sinto um fundo de verdade nas suas palavras, Julian.” Comentou, sem tom absolutamente divertido. Por muito que ele pudesse estar realmente brincando, ninguém conseguiria deitar o ego de um Delvecchio a baixo tão facilmente assim. Na verdade, por vezes se perguntava se era possível fazê-lo, não importa a situação. Humildade não era uma palavra que constava no dicionário de Frank, como Nicholas lhe fazia questão de relembrar.
Pegou a garrafa, rodando-a rapidamente, querendo continuar aquilo. Estava se revelando mais interessante do que esperava. Levantou seu olhar para Nick quando ela parou nele, com um pequeno sorriso convencido. Aquilo definitivamente só estava ficando melhor. “Parece que é sua vez.”
Nick ainda estava como olhar meio paralisado na imagem de Julian quando a voz de Frank o alertou de que era sua vez. A garrafa, parecendo estar a favor de Nick e Frank, ao mesmo tempo que completamente contra Julian, uma vez que a outra ponta da garrafa apontava novamente para ele. Nick pigarreou, sorrindo calmamente antes de suspirar e dirigir ao amigo um olhar lotado de más intenções. — Devo dizer que sua resposta foi inspiradora Julian. — Riu, juntando os dedos de ambas as mãos, levando-os aos lábios por um instante em que estudou a imagem de Julian. Lambeu os lábios, movendo apenas o olhar para encarar Frank por meros dois segundos antes de retornar ao outro.
— Bom, tendo em vista que você já teve o momento verdade, te proponho um desafio. — Sua voz era baixa e suave, como se seu cérebro elaborasse cada frase cuidadosamente, sem perder tempo com repreensões uma vez que Frank fora o primeiro a iniciar aquele jogo. Se a intenção dele fora provocar algum ciúme, Nick faria questão de lhe garantir que falhara, e que ele não seria o único a insinuar situações inusuais. Abriu um sorriso antes de proferir, então, sua sentença. — Te desafio a beijar o Frank. Na boca, é claro. Mas um beijo de verdade, com direito a língua e o que você julgar interessante. Deixe-o sem fôlego. Pode ser aproveitar um pouco. — Concluiu a fala piscando o olho na direção do amigo, examinando o rosto de Frank logo depois, dando de ombros antes de rir divertidamente. — Divirta-se.
Por um segundo questionou a si mesmo se estava bêbado. Tinha certeza de que estava um pouco alterado, mas estaca lúcido. Tinha plena consciência do que acabara de propor e não havia exatamente culpa ou vontade de voltar atrás. Honestamente, quanto mais olhava para Julian e Frank, mais imaginava como eles se pareceriam durante um beijo. Agora que analisava o fato, soava ligeiramente pervertido, mas não estava disposto parecer inseguro.
Julian quase se importou com as palavras maliciosas que saíram da boca de Frank. Deu-se conta de que a tensão inicial tinha finalmente se esvaído e dado lugar a alguma coisa mais. Não tinha certeza do que, mas ele gostava. O movimento da garrafa mais uma vez o surpreendeu, dando-lhe uma chance a Nick de propor alguma coisa a um dos dois. Notou também que, qualquer que fosse a posição, iria acabar parando em si. Eles estavam em um triangulo, afinal. Estava quase pedindo para que mudassem de lugar quando, repentinamente, ela finalmente parou de girar e, como era esperado, apontava para si. Que azar viu. Imaginou que o que quer que Nick propusesse, não seria nem de longe tão “pesado” quando Frank. Bem, na verdade ele pensava isso antes. Agora? Já não tinha tanta certeza. Lawrence começara a mostrar uma face totalmente nova sua, e Carter ainda não sabia se gostava ou não dela. Era diferente, mas excitante, devia admitir.
E quando finalmente a resposta veio, ele sentiu o ar ser sugado para fora da sala. Encarava boquiaberto o dois, perguntando-se se aquilo tudo era uma grande piada; Como que Nick simplesmente o desafiara a beijar seu próprio namorado? Ele era um masoquista? Um voyeur? Ou só tinha gostos absolutamente estranhos? Julian desconfiava que fosse mais ou menos um pouco de cada. Engoliu o seco, pensando em algo que pudesse lhe livrar dessa penitencia, mas antes que chegasse a uma conclusão, ele pode vislumbrar novamente o rosto de Frank. Dessa vez ele não tentava estudar o outro, ao invés disso apenas deixou que seus sentidos assimilassem cada pequeno detalhe que ele trazia. O queixo em formato triangular, os olhos azuis-esverdeados brilhantes, o cabelo que parecia ter uma textura macia. Delvecchio nunca fora tão atraente antes.
Encarava os dois, ainda atônito, quando finalmente se deu conta de que eles tampouco ligavam para aquilo. E se Nick estava lhe oferecendo de bandeja um beijo com seu namorado, porque ele ligaria? Sorriu de lado, tomando a palavra de volta – Nick, você tem certeza? – nem esperou por uma resposta antes de continuar. Sabia que ele estava de acordo – Olha eu... – ponderou, pensando no que deveria dizer. Nada pareceu correto, então deu de ombros – Quer saber? Que se dane. – então avançou mais rápido do que pretendia e, acreditava ele, surpreendera Delvecchio com o contato entre seus lábios. Laçou sua mão em volta do pescoço dele, e deixou que aquele beijo se aprofundasse gradativamente. Um mistura de sensações invadiram sua pele: receio, excitação, surpresa. Sabia que era um território perigoso, e que aquilo talvez fosse o menor dos seus problemas daquela noite, mas deixou-se aproveitar enquanto pode. Quem sabe quando teria uma chance daquelas de novo.

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Era um pouco irônico Nick mandá-lo se foder naquele exato momento. Afinal, não havia muitas coisas que ele quisesse fazer além disso. Revirou os olhos com o comentário de Nick. “Eu sou sempre legal.” O corrigiu de imediato. Ele estava apenas… Brincando com Julian. Certo. Isso. Deixando-o confortável com uma série de piadinhas… Que deixariam qualquer um desconfortável. Talvez Frank não estivesse levando aquilo na direção certa. Mas não o conseguia evitar. O jeito extremamente constrangido de Julian era engraçado demais para não sentir vontade de o continuar atormentando até uma de duas coisas acontecer. Nick o matasse ou o outro ficasse bêbado o suficiente para simplesmente já não ligar para as suas provocações. A segunda lhe parecia demasiado interessante para deixar passar uma chance de a fazer acontecer. Acalmaria seu namorado do jeito que conseguisse.
Deitou um olhar um pouco irritado a Nick quando ele continuou com as piadas sobre sexo, o deixando um pouco mais frustrado. Mordeu seus lábios para não comentar sobre o filme pornô. Provavelmente, ele não iria ficar muito feliz se comentasse o quanto ele gemia como uma vadia nas mãos de Frank, na frente do seu amigo. Suspirou, um pouco frustrado, tentando evitar as memórias que surgiam no seu cérebro. Malditas hormonas. Se sentou perto do loiro, não lhe passando despercebido o quanto ele tentava evitar o seu olhar agora. O encarou durante mais uns segundos, tentando perceber exatamente o que se passava, mas quando ouviu a voz de Julian decidiu desistir, se concentrando no jogo.
“Acho que sim.” Deu de ombros, pousando a garrafa no chão e a rodando devagar, seguindo o seu movimento com o olhar, esperando que ela parasse. Quando finalmente o fez, levantou os olhos devagar para Julian um pequeno sorriso de lado no seu rosto. Aquilo era uma oportunidade demasiado boa para se desperdiçar. Por muito que fosse altamente provável que Nick o matasse depois daquilo, cada segundo valeria a pena. “Verdade ou desafio, Julian?” Perguntou, sua mente já trabalhando nas várias maneiras que podia se aproveitar daquela situação para conseguir pelo menos se divertir com tudo aquilo. Acenou em reconhecimento do murmúrio de verdade do outro, deitando uma olhada rápida para o loiro, antes de prosseguir. Provavelmente, acabaria por se arrepender daquilo, mas quem sabe ele achasse até engraçado. “Eu vou partir do princípio que você me deseja, porque… Sou eu, né.” Deu de ombros, sorrindo convencido, finalmente voltando o seu olhar de volta para o moreno. Se alguma coisa, tinha a noção do seu aspeto físico e não era algo que qualquer um negasse facilmente. “Eu quero que você me diga o que gostaria que eu fizesse com você. Sexualmente. Com detalhes.” Estudou a reação dele por uns segundos, antes de continuar. “Relembrando que se você se recusar, eu vou arrumar algo pior. Confie em mim.”
Nick acompanhou o desenrolar dos acontecimentos com sua natural calma e paciência. Talvez estivesse acostumado com Frank o suficiente para não conseguir ficar irritado por mais de trinta segundos com ele. Ou talvez fosse por que decididamente não conseguia ficar irritado com ele. Tanto é que, quando ele abriu a boca para fazer a pergunta que seria direcionada a Julian, Nick não conseguiu segurar o riso, por mais que o tivesse tentado sufocar ao morder o lábio inferior e em seguida levar a mão ao rosto, tentando retomar a expressão séria apesar de ser humanamente impossível diante daquela demonstração absurdamente linda de amor próprio.
— Desculpa, é só que… a falta de humildade do Frank chega a ser… Sexy. — Zombou, movendo a cabeça em negativa ao dirigir um olhar para o namorado. Apesar de sentir-se suavemente alto por conta da dose elevada de bebida que tomara de uma vez só, não estava fora de controle, mas era impossível para si mesmo perder a chance de rir com o comportamento de Frank quando ele praticamente parecia pedir por uma gargalhada de Nick.
Voltou seu olhar a Julian, que no momento deveria estar ou elaborando uma resposta para aquilo, ou querendo rir também, ou simplesmente esperando uma chance de sair correndo antes que o casal destruísse o que restasse de sua sanidade, é claro. Se o caso fosse medo de que Nick se mostrasse contra ele responder algo daquele tipo envolvendo seu namorado, então Nick faria questão de esclarecer que não seria um problema. — Vai na fé, Julian, eu estou realmente curioso.
Okay, ele definitivamente teria que fugir dali. A pergunta que Frank fez foi tão indiscreta que Carter indagou-se se não havia imaginado-a. Infelizmente não. Estudou suas possibilidades: ele podia responder Delvecchio e então ter que arcar com qualquer consequência que viesse disso, e com consequência ele se referia ao seu namorado; ou então ele podia sair correndo até a floresta e começar a viver uma vida baseada em frutos que ele achasse. Estranhamente a segunda opção pareceu ser menos letal. Engoliu o seco, ouvindo o som que as risadas de Nick ecoavam em seu ouvido. Como ele podia pensar em rir uma hora dessas? Será que ele não percebeu o que seu namorado tentava fazer? E, incrivelmente, Julian notou que isso não se tratava de Lawrence. Tratava-se de Frank e seu enorme ego. As palavras de conforto que Nick disse em seguida foram tão estranhas quanto às do próprio namorado. Que tipo de louco gostaria de ouvir o que seu amigo faria com seu namorado? Aqueles dois definitivamente se completavam.
Pensou momentaneamente sobre o que deveria fazer. Primeiro que ele nunca havia parado para imaginar cenas sexuais com Frank ou qualquer garoto que seja – isso talvez seja mentira, mas as pessoas com quem fazia isso eram parte de um grupo bem escasso. Claro que ele nunca recusaria fazer qualquer coisa com Delvecchio. Ele era extremamente atraente e havia algo na maneira rude que ele agia, que faziam com que os pelos da nuca de Julian se arrepiassem, ao mesmo tempo em que ele se sentia levemente atraído. Alguns devem chamar isso de tensão. Segundo porque, uma vez que soltasse seus sentimentos, ele sabia que não ia ser correspondido e a imagem que Nick tinha de si mesmo provavelmente iria mudar. Estava em um impasse tão grande que achou que fosse reconsiderar suas opções e fugir pela floresta. Talvez os dois já tivessem bêbados o suficiente para não lhe alcançarem em sua fuga. Mas duvidada disso.
Então ele apenas respirou fundo, olhando para Frank, derrotado. E viu uma excitação no olho do outro que ele conhecia muito bem. Ego. Já havia lidado com pessoas assim antes, e com todas elas sempre era a mesma coisa. O mesmo segredinho. Sorriu, ainda desconcertado, mas acreditando ter uma carta na manga – Bem, eu não costumo pensar em coisas assim, por isso minha resposta pode não ser exatamente elaborada. – deu de ombros, olhando para os dois dessa vez – Mas eu acho que, se tivesse que fazer sexo com você... – nesse momento seus lábios se cerraram num sorriso absolutamente malicioso – Eu ia querer que você me fodesse tão forte que eu ia precisar de uma cadeira de rodas no dia seguinte. – e não conseguiu suprimir uma risada. Não era exatamente mentira, mas o tom que usara definitivamente demonstrava exagero. Seu olhar ainda estava baixo, por isso não conseguiu identificar qual expressão surgiu no rosto dos outros. Se aqueles dois queriam um jogo, um jogo eles teriam.
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Revirou os olhos com a provocação de Nick, preferindo não responder. Estava sentindo muitas coisas por ele no momento. Amor não estava no topo da lista. Sabia que estava sendo desagradável, até egoísta, mas não o conseguia evitar. Afinal, não lhe parecia que fosse tão inesperado que ele quisesse passar um tempo só com ele. Gostava dos momentos dos dois, especialmente quando sabiam que ninguém iria aparecer e arruinar tudo. Não só pelo sexo. Claro que era ótimo e Frank nunca rejeitaria essa parte, mas também pela intimidade entre eles. Era diferente. Podia ser ele mesmo, sem medo que fossem julgá-lo ou aproveitar-se da sua vulnerabilidade, mesmo que ela fosse temporária. Estava precisando disso. Pena que não parecia que fosse acontecer tão cedo.
Pegou sua garrafa de volta, dando mais alguns goles, decidindo que provavelmente era melhor parar pelo momento. Por muito que tivesse uma boa tolerância ao álcool, não lhe parecia aconselhável beber muito naquela situação. Quando o fazia, não sabia medir suas palavras, apenas dizendo a primeira coisa que vinha na sua cabeça, algo não muito habitual nele. Mais característico de Nick, na verdade. Não queria acabar apanhando dele por não saber manter a sua boca calada. Sorriu com a aparente reação de Julian a sala precisa. Às vezes, esquecia que nem todo mundo naquela escola tinha conhecimento daquele lugar. “Favores sexuais não me parecem ruins.” Deu de ombros, falando sinceramente, enquanto entrava na sala, parando no meio dela, observando em seu redor. Era incrível como aquele lugar nunca o desiludia quando precisava.
Desviou o seu olhar para Julian, logo que ouviu sua voz. Imediatamente, uma pontada de culpa surgiu. Não o queria fazer sentir que não era bem-vindo ali. Agora que já estavam todos dentro da sala precisa, seria um pouco idiota ele ir embora. Se o fizesse, duvidava que tivesse muita sorte de todo o jeito. Nick ficaria chateado por Frank ter reagido daquele jeito e tentaria ignorá-lo a noite toda. Então, sua aposta mais segura era manter o outro por perto. Pelo menos, não teria de aguentar o sermão do seu namorado. “Relaxa, cara.” Se dirigiu a onde ele estava, se sentando do lado dele, oferecendo-lhe um sorriso simpático. “Você não tem culpa de meu namorado ser um babaca. Fica ai, vai ser divertido.” Ofereceu a garrafa de volta para ele e quando ele a pegou, colocou um dos seus braços em volta dos ombros dele, dando um pequeno sorriso divertido para Nick. Se ele não iria ter sexo naquela noite, pelo menos se divertiria provocando o loiro. “Sério. Eu posso esperar para ter a bunda dele. Não é como se fosse difícil.” Soltou uma curta risada, apertando o braço do outro de leve, finalmente se afastando de seguida. “Que tal brincarmos de verdade ou desafio? Me parece mais interessante que ficar encarando a parede.”
Nick rolou os olhos, suspirando e suavemente arrependido de ter levado Julian com ele. Detestava aquele lado insuportável de Frank, quase sentindo vontade de acertá-lo com o primeiro objeto cortante que encontrasse no caminho. — Nossa, Frank, vai se foder. — Sem se importar em parecer acompanhando sua provocação. Seguiu até o carpete, sentando-se confortavelmente e evitando dirigir até mesmo o olhar ao namorado, sinceramente se sentindo desconfortável por vê-lo agir como um completo idiota na frente de seu amigo. Pobre Julian. Devia estar se sentindo entre loucos no meio de uma conversa que poderia até mesmo ser classificada como casual entre Frank e Nick. Ambos já estavam obviamente acostumados demais a provocar um ao outro como parte da tradição que os mantinha frequentemente irritados e completamente apaixonados um pelo outro. E poderia até admitir que o amava ali mesmo, mas a vontade de remover um dos sapatos e atirar contra a cara dele ainda era maior que o desejo de fazer declarações românticas.
— Às vezes ele é legal, eu juro. — Disse, dirigindo-se exclusivamente a Julian. Pensou no que poderia fazer para deixá-lo mais à vontade, afinal ter de ficar ouvindo referências sexuais a cada duas frases numa atividade que incluía um casal de namorados não devia ser algo exatamente comum para ninguém. Por um segundo quis entrar na mente de Julian só para ler o que ele estaria pensando. Ou na de Frank. Julgou-se um pouquinho ao perceber o que se passava na própria cabeça. Ele levara um garoto para o encontro que devia ser entre seu namorado e ele. Conhecendo Frank e lembrando de suas conversas aleatórias com Julian era quase impossível não pensar que os dois poderiam estar no momento o julgando um pouco, também. Isso mesmo Nick, reúna dois caras gatos na sala precisa logo depois de fazer uma piadinha oferecendo favores sexuais a ele. Eles vão mesmo achar que você só está sendo gentil. Quis ser menos intelectualmente lento naquele momento em que se sentia constrangido por si mesmo.
A sugestão de Frank o fez arquear a sobrancelha e depois de um riso pelo valor cômico daquela situação, Nick não pôde evitar que sua sinceridade clínica decidisse marcar presença, como sempre. — Isso sinceramente parece o começo de um filme pornô, sabiam? Céus. — Deu de ombros, encarando Frank por um segundo, quase como se silenciosamente enviasse sinais mentais pedindo desculpas por ter dado início aquilo tão inocentemente e esperando que tanto Frank quanto Julian se sentassem junto a ele. — Vou precisar de mais bebida. — Tomou a garrafa das mãos de Frank e bebeu alguns goles generosos, tentando manter o olhar o mais distante possível dos outros dois. Precisaria conter sua língua também, antes que sua necessidade de falar o fizesse ser tão incômodo quanto sempre era e informar aos dois que não planejara reuni-los ali para saciar fantasias sexuais ou qualquer coisa parecida.
A súbita mudança de comportamento que Frank teve não foi à parte mais estranha daquele momento. Enquanto ele sentia os braços do outro lhe apertarem como um convite ao inicio de uma amizade – ao menos ele torcia para que fosse assim – não pode deixar de sorrir com a casualidade das falas dele. Era estranho que, em menos de alguns minutos, Delvecchio já tivesse insinuado sexo com o namorado pelo menos duas vezes. Imaginou que isso fosse parte do relacionamento deles. Suspirou atônito quando o xingamento de Nick chegou aos seus ouvidos, e por poucos instantes temeu que uma briga se iniciasse. Ficou mortificado, imaginando o que faria se esse fosse o caso – provavelmente fugiria, assustado. Mas, por sorte, não foi o que aconteceu. Ao invés disso, ele viu que ambos pareciam ter ignorado tal situação. Ainda estava tomado pelo choque, por isso não conseguiu esboçar nenhuma palavra tão logo. Então ele apenas se desvinculou da proximidade com Frank e sentou-se no carpete, convidado-o com o olhar para fazer o mesmo em seguida.
Nick disse mais algumas palavras, e quase soou receoso. Julian não sabia quais motivos ele tinha pra estar assim, então simplesmente atribuiu a culpa a sua mente momentaneamente ludibriada pela bebida. Não estava bêbado, longe disso, mas a quantidade de álcool ingerida já parecia ser o suficiente para criar pequenos brilhos na sua visão periférica. Já havia feito coisas a quais não se orgulhava sob influencia da bebida, por isso evitava repetir situações como aquela. Mas é claro que ele já havia aprendido a se controlar e não agir mediante o que seus impulsos pareciam dizer. Só que, ainda assim, ele não se sentia totalmente confiante. Frank e Nick não eram pessoas exatamente convencionais quando se tratava em se aventurar, por isso imaginou se não tinham algo mais planejado. Descartou essa hipótese rapidamente, lembrando-se da expressão que o mais velho tinha quando o viu chegando. O que quer que aconteça aqui será uma surpresa para todos.
Quando Lawrence finalmente finalizou com a bebida, Carter tomou coragem e puxou a garrafa para si, colocando ela no meio de uma roda – ou seria triangulo? – improvisado que eles haviam formado ali – Eu começo. – disse com convicção, girando então a redoma de vidro enquanto o liquido ainda presente nela chacoalhava de um lado para o outro. Para sua surpresa, foi para Frank que ela apontou. Coçou a cabeça, em dúvida sobre o que deveria fazer a seguir. Jogos como aquele não eram exatamente comuns em Hogwarts, mas algumas pessoas ainda se arriscavam neles. Julian não era um desses. Tentou se lembrar – sem sucesso – o que ele deveria fazer, mas nenhuma resposta surgiu em sua mente. Por fim, apenas deu de ombros e resolveu perguntar – É a sua vez, certo? – dirigia-se a Frank, entregando o recipiente para ele. Torcia para que ele não visse aquilo como outra oportunidade de ser rude. Apesar de Julian saber que agir assim era de sua natureza.
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Naqueles dias, dizer que Frank andava um pouco frustrado com a sua vida era diminuir bastante a situação. Seu namorado, sendo o bom corvinal que sempre fora, parecia estar sempre demasiado ocupado com os livros para lhe dar atenção. Claro que ele tinha os seus jeitos de o convencer a fazer exatamente o que queria, mas duvidava que Nick achasse muito engraçado que ele os pusesse em prática no meio da biblioteca, especialmente considerando o quanto ocupada ela estava nos últimos dias. E esse era o objetivo daquela noite. Passarem algum tempo sozinhos, se divertindo, umas bebidas para ele deixar de ser difícil e reclamar o tempo todo o quanto ele deveria se preocupar com as suas notas. Uma tentativa inútil, na sua opinião. Sabia que deveria se sentar e tentar estudar, mas não conseguia. Não era o seu gênero. Preferia matérias práticas. O resto lhe parecia terrivelmente inútil, uma perda de tempo passar tanto tempo lendo aquelas palavras, sabendo que no fim não iria reter absolutamente nada.
Claro que foi apanhado de surpresa quando Nick apareceu… Acompanhado. Olhou o garoto de cima a baixo, o reconhecendo de imediato. Julian. Mentiria se dissesse que nunca tinha imaginado aquele garoto na sua cama, mas, em sua defesa, ele era absurdamente atraente. Não tanto quanto Nick, mas ainda assim. Mas Frank não era do género de perseguir as pessoas para ter o que queria. Geralmente, elas o procuravam se queriam uma noite bem passada. Obviamente aquilo tinha parado de acontecer desde que voltara. A maioria de Hogwarts sabia da sua relação com o loiro, já que nenhum deles fazia um real esforço para a esconder. Em qualquer outra situação, não se importaria com a presença do outro. Não se importava com os amigos de Nicholas. Mas aquele dia ele não estava com uma paciência exemplar para ficar de conversa com alguém. Deitou um olhar irritado ao seu namorado, enquanto apertava a mão de Julian firme. “Falou. Só esqueceu de se mencionar que você viria.” Respondeu, forçando um sorriso amigável.
“Bem, eu pretendia foder o meu namorado a noite inteira, mas parece que isso não vai acontecer hoje.” Seu tom era tão normal, que qualquer um poderia interpretar o que disse como se fosse um cumprimento entre amigos. Mas claro que as suas palavras não deixavam passar despercebido o quanto irritado estava na verdade. Levou a garrafa aos seus lábios, dando uns goles curtos no conteúdo, sentindo o líquido queimar sua garganta enquanto engolia. Ele iria precisar de uma garrafa inteira se fosse ter de aguentar a noite inteira sem atacar Nicholas. A desvantagem de ser comprometido é que tinha de esperar até que ele se sentisse em disposição para passarem algum tempo juntos. Nada de seduzir o primeiro cara que surgisse no corredor e arrastar ele para a sua cama. Duvidava que isso fosse bem visto aos olhos do loiro. “Não sei. Vocês decidem.” Deu de ombros, estendendo a garrafa para Julian, seus olhos focados nele. Não conseguia nem sequer imaginar o quanto constrangedor aquilo deveria estar sendo para ele. Só aquele idiota colocaria um amigo em uma situação daquelas, especialmente quando Julian nunca tinha sequer conversado com Frank. Aquela noite iria ser um pouco mais comprida do que antecipara.
Não que Nick estivesse esperando por um resposta educada e simpática de Frank, mas aquela certamente superara todas as expectativas. Aliás, nem tanto. A pergunta de Julian fora tão fácil de ser respondida por Frank quanto seria fácil para Nick deduzir o que ele responderia. Devia ter comentado com Julian sobre a incrível capacidade de Frank de elevar sua irritação a níveis catastróficos, mas tendo em vista que era tarde demais para pensar nisso, limitou-se a suspirar e sorrir na direção do amigo. — Bom, esse é o Frank. E essa é sua forma sempre adorável de dizer que me ama. — Afirmou tranquilamente, colocando as mãos nos bolsos e dando uma olhada para a ampla parede de concreto diante deles, que escondia a sala precisa, e então finalmente parou pra pensar o que diabos realmente poderiam fazer juntos. Com Frank visivelmente mal humorado não poderia esperar grande coisa, mas não devia ser impossível fazê-lo relaxar.
— Tá, vamos imaginar um lugar tranquilo e pacífico onde o Frank possa esquecer a frustração sexual dele por algum tempo e onde haja um carpete agradável onde eu possa deitar esquecer os cinco livros que tenho pra ler. Parece ótimo. Daí entramos na sala precisa e todo mundo fica feliz. — Pegou a garrafa, que agora estava nas mãos de Julian, e tomou um gole, devolvendo-a a Frank em seguida e caminhando calmamente na direção da parede. Se os outros dois permaneceriam com aquela tensão quase tangível entre eles, não seria Nick quem ia colaborar com a coisa e tentar amenizar o clima com algum discurso amigável. Ao notar uma sutil relutância de ambas as partes — Julian talvez por vergonha diante do cumprimento nada convencional de Frank, e esse por conta de ter tido sua maravilhosa ideia de “foder o namorado a noite inteira” ser descartada, Nick suspirou, encarando-os com sua casual cara de quem realmente não estava interessado em mais pressão psicológica.
— Vocês vão entrar comigo agora ou preciso oferecer favores sexuais pra vocês tirarem essa expressão estranha da cara? Francamente. — Riu despreocupado, indo até eles e puxando ambos pelas mãos. Se caberia a ele amenizar o ambiente, que fosse à força pra eles perceberem que ele não estava mesmo brincando sobre passar um tempo com os dois.
Julian resetou um pouco ao ouvir a resposta de Frank. Mesmo que conhecesse a reputação de “durão” que o outro carregava, não imaginou que o trataria assim. Mas ele até entendia os motivos que Delvecchio tinha para ficar irritado – se fosse ele no seu lugar, provavelmente sentiria a mesma coisa. Mas, obviamente, seria mais sutil quanto a maneira de demonstrar indignação. Carter olhou de soslaio para Nick, que mantinha uma expressão impassível. Imaginou por qual motivo ele teria lhe chamado quando claramente sabia os planos do namorado. A resposta lhe veio à mente quase em seguida. O garoto provavelmente se sentia um tanto quanto mal ao ter que cancelar a aula em cima da hora por motivos... fúteis como esse; então não deve ter visto nada de mais em incluir alguém mais. Ou ele era muito ingênuo, ou muito sacana, porque, apesar da sua posição, ele com certeza devia saber que Frank planejava algum tipo de aventura sexual para ambos. Aventura essa, que não incluía um Carter de vela.
Aceitou a garrafa que lhe fora oferecida, mas ficou apreensivo antes do tomar um gole. Quando finalmente o fez, o gosto praticamente perfurante da bebida passou pela garganta como fogo; o que diabos tinha naquela garrafa? A leve tontura veio a seguir, junto de um emaranhado de palavras que Lawrence finalmente tinha tido o prazer de pronunciar enquanto tomava a redoma de vidro de si. Não sabia se devia falar alguma coisa, então continuou encarando o nada – bom, não o nada exatamente. Encarava a estatura avantajada de Frank, imaginando o que mais seria tão grande nele. O súbito pensamento sexual veio como um balde d’água fria. Encarou então, quase abismado, Nick. Sabia que não podia ter lapso como aquele, afinal Frank era o seu namorado e, se tinha uma coisa que sabia respeitar, era o espaço dos outros. As outras palavras que Lawrence desferiu o trouxeram de volta a realidade, junto do segurar de mãos que ele fez com ambos. Sentiu-se uma criança que havia brigado com outra e alguém mais velho – Nick tinha esse papel – apartou e os obrigara a pedir desculpas.
Quando a porta finalmente se abriu, ficou instantaneamente mortificado. Sim, ali estava o ambiente que Lawrence havia descrito em suas palavras, só que parecia mil vezes melhor. Momentaneamente até esqueceu-se de toda a situação enquanto adentrava o recinto. Uma vez lá, não demorou muito até encontrar um lugar confortável para que pudesse se sentar. E foi nesse breve momento de relaxamento que Julian achou necessário tomar a palavra de novo – Olha Frank, desculpa se eu atrapalhei sua tarde é só que... – fez uma pausa, engolindo o seco. Delvecchio lhe dava um pouco de calafrios, mas surpreendentemente, não pareciam ser do tipo ruim – Eu não sabia, foi o Nick que me trouxe. E não foi culpa dele também, só estava querendo me ajudar. – atreveu-se a olhar de canto para ele – Eu acho. E, se vocês quiserem, eu posso deixar os dois sozinhos. Sei o quão chato é não poder ficar com quem a gente gosta. – deixou que seus lábios cerrados formassem uma espécie de sorriso sem graça – Sem falar que a ideia de ser um empata foda também não me agrada muito. – E então os lábios se abriram, dessa vez achando uma graça genuína.
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A pressão por conta das avaliações finais estava certamente incomodando mais da metade da população de estudantes de Hogwarts. Nicholas, por sua vez, estava tranquilo. Uma vez que sua absurda necessidade de estudar era categorizada quase como uma doença por Frank, Nick estava imensamente seguro quanto ao seu resultado ser positivo nas provas finais. Ainda faltavam alguns meses, é claro, mas era aquela fase do ano em que todos começavam a realmente ponderar sobre qual seria o destino das notas de acordo com as já obtidas durante os meses anteriores. Nicholas duvidava muito que Frank estivesse preocupado com isso — embora devesse estar, tendo em vista que passou bons três meses longe da escola e estava em seu último ano.
Nick acabara de deixar o dormitório, depois de um banho para se livrar temporariamente do cansaço provocado pelas incontáveis horas de aulas que tivera no dia. Combinara de ver Julian, que aparentemente estava com o mesmo problema relativo aos meses que passara longe de Hogwarts. Estavam no mesmo ano e Nick se oferecera para ajudá-lo a estudar na biblioteca depois do horário das aulas e já vinham fazendo isso há alguns dias. E era ao encontro dele que estava indo quando uma coruja deu um voo rasante em sua direção, largando um pergaminho em suas mãos. Suspirou, desenrolando a mensagem e já quase imaginando de onde vinha. Sorriu ao ler, quase no mesmo instante em que encontrou Julian nos corredores da escola, vindo até ele.
— E aí, Julian. — Cumprimentou, dando uma última lida na mensagem com a caligrafia de Frank. O convite dizia que ele o estaria esperando diante da sala precisa, que tinha bebida e que queria se divertir. Realmente parece a atitude de um formando em seus últimos meses na escola. Mas como tinha certeza de que Frank não trocaria sua bebida por algumas horas na biblioteca, decidiu que talvez ter uma folga dos livros fosse uma boa ideia afinal. — Frank acaba de me informar que hoje é dia de se divertir e não de estudar. Não que eu esteja completamente de acordo, mas acho que a ideia não é tão ruim. Vem comigo, garanto que não vou ficar agarrando ele nem nada. Só acho que merecemos um descanso.
Mal esperou a resposta do rapaz e se pôs a caminhar, colocando a mensagem no bolso. Era provável, é claro, que Frank não fosse adorar a ideia de Nick simplesmente cortar seu barato de ter algumas horas de “diversão”, mas Julian precisava de uma pausa no ritmo de estudo ou, desconfiava, o amigo ia acabar enlouquecendo. E, pela sua experiência, nada melhor que beber e passar um tempo com amigos para esquecer um pouco das responsabilidades envolvendo as notas escolares. Com Frank ele se entendia depois.
A pressão do retorno parecia apenas piorar. Depois de um começo absolutamente difícil, ele acreditava que o passar do tempo o ajudaria a finalmente alcançar o ritmo das aulas. Mas não foi o que aconteceu. Era obvio que Julian não era um dos mais inteligentes da turma, porém sempre conseguia se virar e passar de ano. Aparentemente esses dias viraram historia. A solução que achara foi começar uma espécie de “grupo de estudos” com Nick – o seu mais recente amigo – na biblioteca, durante os horários livres. Já haviam começado a se encontrar fazia um tempo, mas não parecia ter surtido grande efeito. Carter parecia ficar era mais desconcentrado com a presença do outro; imaginou que fosse pela vontade de iniciar conversas casuais. No dia em questão, estava a caminho da biblioteca. O tempo calmo e parado indicava que não haveria chuva, logo a maioria das pessoas estaria ao ar livre, o que era um alívio para ele. Não precisava de mais distrações. E foi pensando nisso que ele quase esbarrou em alguém.
Era Nick que estava ali na frente dele. O garoto parecia tão disperso quanto si mesmo, e, se não fosse pelos seus reflexos – aos quais costumava se orgulhar – eles provavelmente teriam trombado. Notou que ele esboçava um sorriso torto ao olhar para um pedaço de pergaminho. Era uma carta, provavelmente. Deu de ombros ao ouvir o cumprimento, queria apenas chegar logo ao seu destino e começar a devorar os livros. Mas Lawrence não parecia ter os mesmos planos. Ele deu uma breve explicação sobre o que realmente iria acontecer, e uma pequena voz racional no fundo da cabeça de Julian, que não costumava aparecer, lhe disse que deviam dar meia volta e seguir para seu destino original. Ele a ignorou. Sabia muito bem dos próprios problemas acadêmicos, mas achou que um dia de folga não faria mal a ninguém. Ele também era filho de Deus, afinal. Se é que existe um.
Nick apressou-se em seguir em frente, o que fez Carter pestanejar um pouco, mas acabou seguindo-o. Não sabia onde eles estavam indo – provavelmente a alguma sombra de uma árvore – e nem se deu ao trabalho de perguntar. Engolia o seco, imaginando que talvez não fosse uma boa ideia. O caminho que tomavam não era de conhecimento de Julian, não sabia aonde aquilo levaria. Talvez ao dormitório de alguma casa, mas, se fosse esse o caso, ele nem se daria ao trabalho de tentar entrar. Era quase impossível realizar esse feito. Surpreendeu-se quando avistaram a esguia figura de Delvecchio a alguns metros de distância. Ele estava em frente a uma porta até então desconhecida para Julian. Não tinha ideia de onde ela levaria, mas imaginou que seria o destino deles daquele dia. Quando se aproximaram o suficiente, indagou-se o que devia fazer. Não conhecia o namorado de Nick a não ser por historias que esse contava, e parecia estranho estar de frente a ele – Oi, Frank... – falou, estendendo sua mão para que ele pudesse segurá-la – Sou Julian Carter, o Nick deve ter falado de mim. – e então se deu conta de que, se aquilo havia sido planejado, por que motivos eles teriam chamado a si? O vislumbre de uma garrafa na mão do mais velho passou como um lampejo pelos seus olhos e ele automaticamente entendeu – Então... O que vocês planejam fazer? – falou, fazendo uma expressão desentendida.

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Mad Brother's. @Falian
Fabian fitou os olhos do irmão por alguns segundos, antes do mesmo desviar o olhar. Conhecia Julian bem o suficiente para saber que ele no mínimo estava envergonhado. Seu irmão era sem duvidas a pessoa mais sentimental que conhecia. Sorriu brevemente ao notar o constrangimento do mais novo, de alguma forma aquilo estava errado, aquele tipo de situação não era usual entre eles, e no que dependesse do mais velho não voltaria a acontecer. No entanto, não pôde deixar de surpreende-se quando Julian o abraçou. Passou os braços em volta do ombro do mais novo, esperava que aquele braço lhe passasse algum tipo de conforto. – Ei bra, relaxa. Acho que é natural você se sentir inseguro, pelo menos agora você sabe que esse tipo de coisa não é o suficiente para estragar a relação que temos. – manteve o abraço no irmão, mas sentia que de alguma forma Julian ainda estava desconfortável. Pigarreou ligeiramente para deixar a voz mais clara. – Julian, o fato de você gostar de garotos nunca vai ser um empecilho pra nossa relação, não da minha parte pelo menos. – apertou o ombro do mais novo com certa força. – Não precisa pedir desculpas, não existe motivo suficiente para isso.
Afastou-se apenas o suficiente para fitar o rosto do mais novo. Durante alguns poucos segundos tentou imaginar o tipo de situação em que Julian se encontrava, e em como seus pais reagiriam quando descobrissem. Se o irmão tinha tanto medo da sua reação, ele não queria nem imaginar como ele se sentiria em relação à reação de seus pais. – Seria legal se você olhasse pra mim enquanto a gente conversa. Julian, por favor, não precisa disso, nós somos irmão e não há esse tipo de coisa entre nós. – suspirou brevemente. – E agora para de me enrolar e me diz de uma vez se vai ou não para casa, você sabe tenho que escrever uma resposta para nossa mãe antes que ela nos mande um berrador.
Sentiu-se aliviado. Não que ele esperasse qualquer outra reação do seu irmão mais velho, mas, ainda assim, saber que ele podia contar com a sua ajuda o deixou mais tranquilo. Ainda na mesma posição, ele ouviu as palavras firmes, porém ternas de Fabian. A tranquilidade com a qual ele falava aquilo era impressionante, fazia Julian indagar-se qual gene ele havia herdado – porque sim, o pai e a mãe dos garotos Carters deviam ser as pessoas mais histéricas do mundo; e, mesmo que o mais novo não chegasse aos pés deles, ele também conseguia ser bastante escandaloso quando queria. Em situações como a de agora então, era provável que já tivessem tido um troço, e o mesmo teria acontecido com Julian se não fosse pela presença acalmante de Fabian. Sorte a dele que podia contar com um irmão mais velho. Desprendeu-se do mesmo, após ouvir as últimas palavras e lançou-lhe um olhar ainda receoso. Demoraria algum tempo até que toda a paranoia passasse, mas isso seria fácil de enfrentar. Pelo menos a pior parte já havia passado.
Respirou alguns momentos antes de replicar – Eu vou pra casa sim, pode dizer isso pra eles. – apenas deu de ombros, voltando a se sentar e encarando os olhos do mais velho. Lembrou-se então de quando ele havia dito que não voltaria pra casa, o que era estranho, já que ele adorava passar esse feriado junto da sua família. Não conseguia imaginar um motivo plausível para que ele permanecesse na escola – Porque você vai ficar na escola? – indagou, olhando para o mais velho no mesmo instante que algo lhe ocorreu. Apenas uma coisa seria capaz de prender a atenção de Fabian assim. Julian deu um sorriso de lado, antes de continuar – Você vai ficar aqui por causa de alguma menina? – buscou um rosto na sua mente – É aquela... como que ela chamava mesmo... – pausou por um tempo, fazendo um rosto de adivinhação no instante seguinte – Hope! – era esse o nome dela, definitivamente – Ou é alguma outra? – finalizou, então.
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Daniel fitou o garoto ao seu lado por alguns minutos, enquanto o mesmo balbuciava alguma coisa aleatória. Ele não costumava a ser muito de conversa, mas talvez fosse o jeito que Julian falasse que o fizesse tentar prestar atenção. Ou talvez fosse o fato dele ser atraente. De qualquer maneira, Daniel captou o nome de Jonathan, seu amado, querido, a e adorado primo na fala de Julian, a tempo de acompanhar a pergunta que veio logo em seguida. - Sim, ele é meu primo, infelizmente. Meus tios acharam ele no lixão lá perto de casa e agora ele é nosso cachorrinho particular. Chamo ele de primo só para não sermos acusados de maus tratos. - Respondeu, com um tom irônico, rindo fraco. - Estou brincando, claro. Ele não serve nem para isso. Mas é, ele é meu primo sim, uma figura, aliás. Você já deve saber disso, claro. - Era um pouco irritante o costume que os alunos de Hogwarts tinham de liga-ló a JJ e a Carter, mesmo quando ele já tinha deixado a escola fazia tempo. Não que ele não gostasse de Jay, por exemplo, mas ele era mais como um pássaro solitário Gostava de levantar voo sozinho, e queria fazer a sua própria reputação, e não ficar conhecido como ”o outro Jenner sem ser o Jonathan”.
Ouviu o menino agradecer, e só aí notou que a bebida dele já havia chegado. ”Tenho que parar de me distrair com a minha mente’’ Pensou, deu um pequeno sorriso para Julian, numa tentativa de disfarçar o fato de que ele tinha, literalmente, perdido a atenção nele. - Não agradeça, foi um prazer. - Arqueou a sombrancelha direita, enquanto tomava um gole da sua própria cerveja. - Me fale de você agora. Você tem algum irmão, irmã? Acho que já ouvi o seu sobrenome sendo direcionado a outra pessoa. - Apesar de quase nunca prestar a atenção mínima no que acontecia naquela escola, ele teve a leve sensação de já ter escutado falar de algum outro Carter. Um que não fosse, claro, o seu irmão pentelho. Julian poderia ter um irmão mais velho, talvez?
Julian riu depois de ter escutado a opinião de Daniel sobre Jon. Tudo bem que o garoto Jenner não era exatamente a melhor pessoa do mundo, mas o modo como ele esculachou ele pareceu um tanto quando exagerado. Estava claro no timbre usado, que era tudo uma grande brincadeira. Carter imaginou como devia ser a relação deles dois – provavelmente fingiam se odiar o tempo todo, mas no fim acabavam se abraçando e voltando a ser melhores amigos. Parecia ser algo legal, ter um primo assim, só pra variar. Os que ele tinha, ou pelo menos os com quem convivia, eram tão chatos que chegavam a dar raiva. Sem falar que nenhum deles eram tão bonitos quanto Daniel. Enrubesceu um pouco ao notar os olhos – incrivelmente claros, ele não pode deixar de ressaltar – do outro, fita-lo de cima a baixo. Não se considerava um garoto feio, e já havia recebido zilhões de flertes apenas com o olhar, mas nenhum deles o deixava... tímido. Não como o do outro Jenner. Talvez tivesse alguma coisa haver com o fato dele ser um alvo em potencial, e como geralmente era Julian que dava os olhares indiscretos, era estranho estar nessa situação.
Ouviu a indagação do Daniel e logo a imagem de Fabian lhe veio à cabeça. O mais velho era bem mais popular que Julian, e o fato dele estar no time de quadribol, mesmo que ele não fosse bom o ajudava a manter certa reputação que corria a escola. Ajeitou-se na cadeira, de modo que ficasse mais próximo do outro – Eu tenho um irmão, na verdade... – suspirou – Fabian Carter é o nome dele, você provavelmente já o deve ter visto em algum jogo de quadribol. Ele é da Lufa Lufa, como eu. – deu de ombros, deixando que o assunto morresse ali. Não queria continuar falando sobre Fabian com aquele garoto. Na verdade, não queria falar absolutamente nada com ele. Sorriu, lançando o seu melhor e mais sedutor olhar ao outro – Mas então, Dan... – fez uma pausa, corrigindo-se – Posso te chamar de Dan, certo? – deixou a pergunta no ar e continuou – Dan, você tem algum plano pra hoje ou você pode passar o resto da sua tarde comigo? – sorriu novamente, percebendo o quão bom era estar nesse campo novamente – Quer dizer, eu acho que nos dois ainda temos muito coisa pra... conversar! – fez questão de dar uma ênfase na ultima palavra. Esperava que o outro entedesse o recado.
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A páscoa era um dos feriados fudidos, na opinião de Daniel. A única coisa boa era se livrar da chatice que eram as aulas em Hogwarts, que pareciam mais extensas a cada dia que se passava. Lições, lições, e mais lições. Perguntou-se como Carter aguentou aquilo por tanto tempo. Ele não estava nem a um mês direito na escola, e já queria pular da janela de seu dormitório. Mas finalmente, ele iria ter um pouco de sossego, dormindo no leito da sua própria casa e pregando peças em seu irmão babaca. Bom, isso é o que ele pensava. No penúltimo dia antes das aulas, Daniel recebeu a notícia de que seus pais não voltariam para a casa, e que ele e seu irmão teriam de passar o seu feriado, em Hogsmead, com a tia. Não é preciso dizer que Dan teve um pequeno acesso de fúria, arremessando seu livro de Poções contra o seu colega de quarto e chamando os seus pais de nomes inapropriados. Não tinha nada contra a sua tia, pelo contrário. Apesar dela ser cinquentona, feder a alho e ter a cara espremida como a de uma fuinha, ela era uma mulher agradável. O que mais irritava Daniel era o fato de que ele sabia que os pais estavam escondendo algo dele. As respostas silábicas e os vários ”nada importante” presentes nas cartas deles enfureciam o garoto. Ele torcia que, no feriado, pudesse arrancar alguma coisa deles, alguma resposta. Mas agora, eles tinham novamente arranjado uma maneira de evita-ló.
Hogsmeade era uma cidade feia e cinza comparada com as outras cidades que ele já tinha vistado. Pacata demais, atingindo um nível insuperável de chatice. Após se instalar no pequeno cômodo aonde iria dormir, ele não demorou a deixar a casa e seguir para o três vassouras, o único lugar que não lhe parecia como um poço de tédio. O vento que vinha do leste fez suas bochechas corarem, mas nada que o fizesse sentir frio. Enquanto caminhava, ele observava minuciosamente as casas, que eram, em sua grande maioria, muito parecidas entre si. Algumas janelas estavam abertas, e ele podia observar algumas famílias comendo, enquanto em outras ele só conseguia ver vultos de crianças correndo. A simplicidade do local era uma coisa que intrigava Daniel. Mas, de alguma forma, ele se sentiu estranhamente acolhido naquele lugar. Havia alguma coisa ali que ele gostava bastante. Talvez fosse o silêncio que reinava por ali, fazendo o que até o canto mais baixo de um passáro fosse ouvido. ”Quando foi que eu me tornei tão… detalhista?” Questionou-se, mentalmente.
Para a sua surpresa, o Três Vassouras não estava tão melhor do que sua casa. Estava praticamente vazio, deveriam haver umas 6 pessoas lá, pelo o que Dan havia observado. O único barulho era feito pelos passos das garçonetes, e algumas poucos sussurros vindos de clientes. Ele logo escolheu uma mesa, na lateral do bar, e se sentou. Pediu uma ceveja amanteigada e apoiou os cotovelos na mesa, inquieto. Estava pensando na remota possibilidade de voltar para casa, quando um garoto o abordou. Disse que o seu nome era Julian e que eles tinham aula juntos. É claro que Daniel não o reconheceu, já que não sabia nem o nome de seus professores, muito menos dos seus colegas de classe. Mas ele não iria deixar o garoto ir embora. Afinal, ele era bonito. Quer dizer, os seus olhos brilhavam e seu porte físico não era nada mal. - Bom, se não nos conhecíamos antes agora você me conhece. Prazer, Julian, meu nome é Daniel Jenner, acho que isso é ironia do destino. - Murmurrou, apertando a mão do outro garoto. - Acho que eu me lembro de você. De qualquer forma, porque não se senta? Eu ia adorar conversar com alguém que não fosse a servente. - Riu fraco e sinalizou para que o garoto sentasse ao seu lado. No mesmo momento, a garçonete voltou, trazendo a cerveja. - Quer pedir alguma coisa? Eu pago.
Talvez fosse mesmo alguma ironia do destino. Julian lembrava-se das inúmeras ocasiões em que havia ido ao estabelecimento e encontrado alguém suficientemente interessante e que desse algum espaço para aproximando. Sorte a minha, pensou enquanto fitava os olhos incrivelmente claros do garoto a sua frente. E talvez tenha sido o modo dele se comportar, ou mesmo o jeito que ele parecia movimentar a boca que fizeram Julian notar algo de extremamente familiar dele. A princípio ignorou o sentimento, afinal o que mais acontecia era se lembrar de alguém em certas ocasiões, mas à medida que as palavras iam sendo ditas pelo garoto uma luz foi se acedendo e, depois de um tempo, e uma confirmação pela boca do mesmo, ele notou de onde o conhecia. Jenner. Era esse o seu sobrenome. E Carter conhecia outra pessoa que era dona dele – Jonathan. O outro Jenner foi um garoto que ele havia conhecido em uma situação um tanto quanto complicada: o pobre miserável havia prendido uma varinha em seu bolso, de modo que parecesse que ele estava... Se tocando. Na ocasião tudo havia sido bizarro demais, mas hoje, ao se lembrar, Julian apenas dava risada. Lembrou-se no que havia resultado a cena toda, e imaginou que talvez se repetisse. Dessa vez com um Jenner diferente.
Pediu uma cerveja amanteigada a atendente de cabeça chata e então voltou sua atenção ao outro. A primeira vista ele não havia reparado nos traços do mesmo, mas, agora, ele podia ver que era tudo tão desenhado. Era muito bonito, tinha de admitir, mas não lembrava em nada Jonathan – imaginou que tipo de parentesco eles tinham. Dada as circunstâncias, provavelmente não passavam de primos. Engoliu o seco e tomou a palavra – Daniel Jenner é? Sim, nos definitivamente temos Feitiços juntos. – lembrou-se vagamente do timbre grave que o professor Knight usava chamando esse nome – Engraçado, mas você por acaso não teria alguma ligação a Jonathan Jenner né? Quer dizer o sobrenome de vocês é igual e tudo mais. – deu de ombros em seguida, recebendo a bebida da mão da moça e dando-lhe um sorriso em retribuição. Daniel falou que pagaria, e quem era Julian para negar. Deu um longo gole no líquido e sentiu o gosto levemente adocicado atravessar-lhe a garganta. Estava ótimo. Fitou novamente o garoto a sua frente, pensando o que deveria dizer. Não pensou em nada inteligente, então simplesmente deu de ombros – Obrigado pela bebida, alias. – disse, por fim, dando um riso de lado.
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↳ 18. Drew Roy
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Fabian esperou pacientemente, enquanto Julian parecia procurar a melhor maneira de lhe responder. Várias coisas passaram pela cabeça do Carter mais velho, mas em nenhum momento, ele chegou a cogitar que Julian esperava por uma reação negativa de sua parte. Ponderou durante algum tempo sobre as palavras dele. Suspirou brevemente ao perceber que invés de julgar o irmão, ele é quem tinha sido julgado. No entanto, não poderia culpar o mais novo, haviam acontecido tantas coisas nas ultimas semanas que Fabian mal teve tempo de procurar pelo irmão. – Ouch. Pelo jeito foi você quem me julgou mal não é mesmo, bra? – seu tom de voz era baixo. E a irritação na sua voz era controlada. – Eu sei que devia ter dado maior suporte pra você e estar ao seu lado mais vezes. Mas, você sabe o quanto de matéria atrasada nós temos pra colocar em dia, e acabei deixando que os assuntos da escola atrapalhassem nossa relação. – fitou os olhos do mais novo. Julian era incrivelmente parecido consigo e Fabian sempre sentira um orgulho imenso de tê-lo como irmão. Porém, parecia que algo havia se rompido e que a ligação antes forte e inquebrável entre os dois, estava no mínimo fragilizada. – Por outro lado, eu acho que você me conhece bem o suficiente não é mesmo? – arqueou levemente a sobrancelha. – E eu não consigo entender como você chegou a acreditar que eu seria capaz de odiá-lo só por você ter uma orientação sexual diferente da minha.
Ajeitou-se na poltrona, de uma forma em que ficasse mais confortável. Respirou fundo, não queria ter nenhum tipo de atrito com o irmão, e talvez estivesse sendo muito duro com ele. Engoliu em seco e tentou colocasse no lugar de Julian. O mais novo sempre pareceu mais suscetível a criticas, isso era um claro reflexo da infância um tanto quanto complicada de ambos. Olhou novamente para o irmão e percebeu que ele parecia infeliz com os rumos daquela conversa. – Julian, eu sempre vou respeitar suas decisões. Tudo bem pode parecer um pouco estranho pra mim, e realmente é, mas eu não vou deixar que isso atrapalhe a nossa relação. – deu de ombros e lançou um sorriso para o irmão. – Da próxima vez, acho que é mais fácil você vir falar comigo, ao invés de começar a imaginar esse tipo de coisa. – colocou a mão dentro do bolso e tirou de lá o papel amassado com a carta dos pais. – Eles querem saber se vamos passar a páscoa em casa. Eu não vou, já que tenho algumas coisas para resolver aqui na escola. – o sorriso em seu rosto alargou-se ao pensar em Alana, e em como aquela garota parecia mexer consigo. – Mas, de qualquer forma tinha que falar com você antes de escrever uma resposta. Então, vai ficar ou vai voltar pra casa?- sentiu-se levemente aliviado ao perceber que aos poucos as coisas entre ele e o irmão estavam voltando ao normal.
Não há palavras que possam descrever a vergonha que Julian sentiu no momento. Engoliu o seco, analisando o peso das palavras do irmão e imaginando se não era tudo mentira. Talvez fosse, talvez Fabian seja educado demais para simplesmente jogar na cara do mais novo que sente vergonha, nojo dele. Talvez ele apenas tivesse em mente que, os dois ainda precisavam conviver por um tempo e que seria melhor não quebrar o clima. Mas Julian sabia que isso não era verdade, sabia que o irmão estava sendo cem por cento sincero com ele e que ele era sim, esse tipo de pessoa. Achou, talvez, que a vergonha por ter julgado o que o outro pensava de si mesmo estava falando mais alto e que a paranoia parecia ter aumentado. Então, por um momento, pausou para analisar tudo que havia acontecido. E foi esse momento em que ele percebeu que, o que havia cometido o erro ali tinha sido ele próprio. Abaixou a cabeça mais uma vez, afastando o que o outro havia dito sobre a páscoa e concentrando-se nas suas primeiras palavras. Estava claro o que Carter tentava fazer – afastar as lágrimas que pareciam querer jorrar de qualquer jeito.
Então, sem esperar mais, decidiu que devia fazer alguma coisa. Com um movimento rápido ele alcançou as costas do irmão e apertou-lhe em abraço firme. Engoliu o seco novamente, incapaz de se desprender do toque seguro que o outro lhe oferecia e então soltou tudo uma só vez – Me desculpe por ter pensado isso de você, Fabian. Eu só... Eu estava com tanto medo que você não entendesse, que você me odiasse e parasse de me considerar seu irmão. Eu não queria estragar o que temos, porque poucos conseguem ter uma relação tão aberta e saudável com um parente. Mas nos éramos... Somos a exceção. Me desculpa, sério, eu não sei onde estava com a cabeça para ter feito isso. Eu só não ia suportar que você sentisse vergonha de mim. – deu uma pausa para respirar, mas logo continuou – Você me perdoa? Por ter sido tão idiota? – engoliu as lágrimas mais uma vez. Seu corpo ainda tocava o do mais velho, e ele não sabia como o outro havia reagido a tudo aquilo. Não se desgrudou em nenhum momento, ainda havia hesitação da sua parte quanto à reação que Fabian teria. Olhar nos olhos dele estava fora de cogitação, sem falar que ainda não tinha forças o suficiente para simplesmente soltá-lo. Então descansou a cabeça no ombro do outro, esperando por uma resposta.

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A páscoa era um dos feriados preferidos de Julian. Não só porque ele podia se livrar da escola por um tempo, mas também porque era uma época onde sua família sempre estava de bom humor. No ano em questão, ele tinha outro motivo para amar ainda mais o feriado: As intensas tarefas que haviam sido atribuídas a si depois da ausência de alguns meses finalmente deram uma pausa. Isso significava que, pelos próximos dias, a única coisa com que deveria se preocupar era onde ele iria passar o tempo. Era o primeiro dia do feriado, e estava em casa faziam menos de cinco horas quando seus pais decidiram que iriam a Hogsmead visitar um parente, mas que Julian podia ficar em algum estabelecimento do vilarejo se divertindo – uma vez que Fabian não lhe faria companhia, encontros familiaries eram o último lugar onde o garoto desejava estar. Nunca gostou de estar na companhia de outros parentes, que não os que moravam em sua casa – achava o resto da família extremamente mesquinha e, com a proximidade da casa com a sua escola, era provável que sua reputação de “beija rapazes” já houvesse se espalhado. Por isso ele preferia estar algum lugar onde não tivesse que enfrentar seus primos.
Decidiu então caminhar um pouco. O clima ainda estava frio, mas estava um tanto quanto ameno comparado ao dia dos namorados – havia sido há pouco tempo, mas parecia uma eternidade. As ruas, antes cobertas com uma espessa camada branca de neve, agora tinham uma aparência enxuta e conservada. A decoração rústica da maioria dos lugares do vilarejo era mais evidente agora. Vislumbrou então a entrada do três vassouras, o lugar parecia vazio então a chance de encontrar alguém conhecido era pouca, talvez um ou outro estudante da escola. A iluminação fosca do local invadiu sua vista quando ele finalmente estava dentro do local, e, de relance, estudou onde deveria se sentar. Avistou então um banco vazio, ao lado de um garoto que não lhe parecia familiar, e por um instante o seu espírito de “caça” pareceu se revelar – mas ele se controlou, obvio, não podia sair flertando com todo mundo que visse. Isso apenas iria manchar mais sua reputação. Por fim deu de ombros e resolveu sentar-se, pedindo algo para molhar a garganta e olhando de lado o seu vizinho de banco. A visão daqueles olhos lhe invadiu e ele se lembrou de que já havia visto o garoto antes. Haviam tido alguma aula junta antes. Engoliu o seco, vendo a oportunidade de uma conversa aparecer – Oi! – exclamou, não querendo parecer animado demais – Eu tenho conheço né? A gente tem Feitiços juntos, eu acho. Sou Julian Carter, prazer! – e estendeu a mão ao outro – E você é?
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O clima em Hogwarts não era dos mais favoráveis. Havia uma estranha áurea de medo e insegurança pelos corredores. Os professores pareciam estar em todas as partes e junto com os monitores, tentavam assegurar que estava tudo bem. O sumiço de James Potter causara mudanças importantes na rotina de todos. Os treinos de quadribol haviam sido cancelados, as idas a Hogsmeade que antes já eram restritas, agora definitivamente estavam proibidas. Aurores caminhavam pelos jardins do castelo para garantir a segurança de todos os alunos.
Apesar de tudo isso, certos hábitos não mudam com facilidade. E como em quase todos os sábados, Fabian havia acordado cedo – mesmo que não houvesse necessidade, uma vez que não haveria quadribol. – O Carter estava sentado displicentemente sobre uma das confortáveis poltronas do salão comunal da Lufa-Lufa. A sua frente, estava a edição mais recente do profeta diário. Não havia novidade sobre o caso de James, na verdade o jornal lhe parecia apenas à mesma porcaria de sempre. Fechou-o e jogou de qualquer forma sobre uma das pequenas mesas dispostas pelo salão comunal. Contentou-se em observar durante algum tempo uma garota do sexto ano. Seus longos cabelos loiros lhe lembravam de sua ex-namorada, Hope. Ainda não sabia ao certo os motivos que levaram a garota a abandonar à escola, mas não podia negar que sentia falta dela. Sorriu brevemente ao lembrar-se de alguns dos momentos que passaram juntos. Passou a mão pelos cabelos escuros e estava considerando que talvez fosse uma boa ideia esticar as pernas pelo castelo, quando seu irmão mais novo aproximou-se.
A relação com o mais novo, sempre fora muito próxima. Mas, algo havia acontecido nas ultimas semanas e Fabian sentia como se o mais novo tivesse receio de se aproximar dele novamente. Aquilo lhe incomodava, mas a pesada carga de deveres acumulados – graças à viagem para o Peru – lhe deixava com tempo limitado para procurar o irmão. – Julian. – sorriu brevemente para o mais novo. – Sim, precisamos mesmo. Nossos pais mandaram uma carta perguntando se vamos passar a páscoa em casa, e eu ia mesmo procurar você para decidirmos. – suspirou brevemente. Sabia que o irmão provavelmente queria conversa sobre algo mais importante. Decidiu que seria ele a dar o primeiro passo. – E segundo, eu gostaria de saber o porquê exatamente você anda me evitando. – arqueou levemente uma das sobrancelhas e encarou o mais novo enquanto aguardava por sua resposta.
Julian ponderou. As palavras que saíram da boca de Fabian, ou mesmo o tom que ele usara, foram totalmente inesperadas. Imaginou que, uma vez que fosse procurar o irmão depois de todo aquele tempo, a hostilidade estaria presente e a tensão entre os dois aumentaria. Mas foi exatamente ao contrário. Carter às vezes se indagava como o mais velho conseguia quase sempre manter sua postura séria – mesmo quando os dois eram mais jovens, e alguma coisa ruim acontecia, era sempre Fabian que segurava Julian pelos braços; que afagava sua cabeça e lhe acalmava. Quando houve aquele marco histórico em especial na família dos dois, ainda que fosse muito novo, ele sentia que o irmão estava sempre lá por ele, o protegendo de todo o mal que podia começar a ronda-los. Esboçou um sorriso, imaginando o quão tola sua imagem devia estar: um lufano com olheiras e expressão cabisbaixa. Analisou o peso da sentença e chegou à conclusão de que o outro estava sendo sincero. Parecia até um pouco decepcionado pela ausência do mais novo, ele notou. Soltou um longo e esbaforido suspiro, praticamente arrastando seu corpo mole ainda de pijamas até o lado de Fabian.
Cruzou seu olhar com o do mais velho por alguns segundos. Estavam paralelos um ao outro agora, e Julian parecia estar fraco demais para continuar, então apenas deixou que seu olhar tomasse outra direção – a de baixo – e suspirou novamente. Não sabia nem por onde começar a dar explicações sobre seu comportamento estranho dos últimos tempos – Fabian, eu... – estava com medo de você ter vergonha de mim, pensou enquanto cerrava os lábios. Buscou palavras menos cruéis, mas nada que ele dissesse diminuiria o impacto daquilo e, ora, eles eram irmãos, nenhum drama iria se abater sobre os dois – Me desculpe, eu acho que fiquei com tanto medo da sua reação a minha... Você sabe... Revelação, que acabei me afastando de você. – deu de ombros, aquilo era verdade afinal – Acho que eu tinha medo que você começasse a me odiar sabe? Por eu ser diferente e tudo mais! – não soube como continuar. Permitiu-se, então, levantar a cabeça e encarar o rosto bronzeado do irmão outra vez. Não soube como interpretar sua expressão, mas encarou como uma boa coisa, afinal ele não havia dado um tapa em Julian e saído. Engoliu o seco, imaginando que devia mudar de assunto – Mas o que você estava dizendo sobre nossos pais mesmo? – perguntou, apesar de já ter uma noção sobre o que se tratava.