The good are never easy, the easy are never good | wereslut
Carlotta era decidida. Remus protelava. Carlotta acreditava no amor. Remus duvidava que algum dia fosse capaz de se permitir amar alguém da forma romântica. Carlotta era graciosa. Remus era desastrado e vivia machucado. Dizem que opostos se atraem, e nada poderia ser mais oposto que Carlotta Meloni e Remus Lupin.
O garoto ainda estava embasbacado por Lotta ter o livro que ele procurava por anos, ali na sua frente, e ter conseguido em tão pouco tempo. Era bem verdade que ele tinha contatos por ser um Maroto e conheciam Hogwarts como ninguém – afinal, os seis anos e alguns meses no Castelo como animagos serviram bem para que pudessem descobrir e mapear (literalmente) cada uma das passagens secretas e salas. Talvez fosse um mapa até mais completo que o próprio Dumbledore tinha em seu gabinete. Mas havia algo, um sabor a mais, em conseguir aquele dito livro sozinho, como se fosse sua vitória pessoal. Bem, ele havia perdido. Para Carlotta Meloni. “Conhecemos bem, mas James e Sirius têm mais contatos do que eu, digamos.” Tirou o olhar fixo do livro, temendo que Carlotta o achasse mais estranho do que de fato ele já era por estar tão fixado assim em um título. “Também provavelmente não vou ser tão bom como eles, mas nós, mortais, temos que depender de livros diferentes e não do dom, né? O dom que não temos.” Levantou novamente os olhos do pergaminho em que escrevia, justamente em tempo para ver o sorriso doce nos lábios de Lotta.
(Você não admite, Remus, mas seu coração pulou uma batida ali)
Pigarreou, temendo que tivesse deixado a influência daquele sorriso dela muito na cara e enfiou novamente a cara entre os livros e os pergaminhos, acenando positivamente com a cabeça quando mencionou Aurora. (Você deveria ter prestado atenção nessa parte, Lupin, mas não prestou. Mas deixemos o futuro para o futuro).
Quando achou que tinha novamente as reações de seu corpo sob controle, e só naquele momento, Remus voltou a olhá-la enquanto descrevia os cheiros de Amortentia. Aquilo era algo tão íntimo, poucos amigos seus sabiam do que Remus sentia. De alguma forma, aquela intimidade com Meloni parecia estar indo rápido demais, mas também parecia certa. “Eu ouvi que os cheiros da poção nunca mudam, mas que, às vezes, com o passar dos anos, algum cheiro entra a mais na sua lista. Talvez o cheiro do homem da sua vida não esteja aí ainda. Ou talvez o universo esteja… confuso. Ainda. Não sei.” Estava falando demais, concluiu. O que a gryffindor fazia ou não fazia, com quantos garotos se envolvia, nada disso lhe dizia respeito, nem era seu lugar julgá-la. “Sua visão faz muito sentido, Carlotta. Acredito nisso que o coração mude, que temos escolha sobre o nosso próprio futuro, mas não sei. Ao mesmo tempo acho que a magia é tão poderosa ao ponto de saber com quem vamos terminar antes mesmo que nós saibamos. Quer dizer, temos clarividentes, predição de futuro por outros métodos, não dizendo que funcionam, por que não uma poção não poderia saber o amor da sua vida?”
Lupin não falava muito de amor. Correção, Lupin não falava de amor. E aquela conversa ficaria na história para a posterioridade como a única vez em que o lobisomem expusera suas ideias. Sua Amortentia não tinha nada de muito diferente, e duvidava que o futuro tivesse lhe reservado alguém que aceitasse o pacote completo que atendia por nome de Remus John Lupin.
Influência era influência independentemente do modo que viesse. Tendo como amigos James e Sirius, Carlotta imaginara que, por tabela, Remus Lupin tinha contatos semelhantes. Eles não se desgrudavam afinal, viviam pelos corredores juntos, faziam duplas durante as aulas e estavam próximos mesmo nas visitas ao vilarejo. Aquela era uma amizade bonita de ser apreciada, Carlotta sentia certa inveja, repartia Aurora em pedaços com várias pessoas. Primeiro com Phillip, que passara a ser seu amigo confidente, depois com Korey, que sequer chegava perto para não sofrer um dia de arrumação que Carlotta tanto ameaçava entre dentes. Sempre procurava uma tesoura na bolsa quando o quase-namorado de sua amiga estava perto suficiente para cortar um fio ou dois do desalinhado-cabelo-eternamente-despenteado do sextanista. Sentia falta de Aurora, agora que a melhor amiga estava mais ausente que nunca, sentia falta do tempo que tinham juntas e agora só a tinha em aulas que não eram com a Slytherin. Nem mesmo encontrava-a no dormitório quando aparecia somente de madrugada. Talvez devesse ter prestado um tanto mais de atenção nos olhares de Remus sobre Miller, mas sempre tratou a situação com indiferença uma vez que seus olhos quase sempre estavam fixos nas pequenas ações de Lupin.
De certo modo, o apreciava. Apreciava o modo paciente que tratava o erro de seus amigos, como inclinava-se sobre a lição ou o pequeno redemoinho que formava-se em seu cabelo pela manhã na mesa da Gryffindor. Gostava de suas pequenas ações, como quando levava um livro a mesa ou sorria para terceiros sempre que seus olhos não estavam cansados demais. Todavia, Carlotta nunca notara essas pequenas coisas em uma pessoa. Era comum anotar características mentalmente para usar ao seu favor posteriormente, mas não como se de fato estivesse interessada. Eram coisas banais, supérfluas, um geral que caso qualquer um estreitasse um tanto mais os olhos, notaria. Mas com Remus o processo de notar era diferente. Quase compulsório, impulsivo. Tinha o timing perfeito para nota-lo por cima da fruta que comia pela manhã ou da planta que cuidava nas estufas. Seus olhos simplesmente se atraiam e podia dizer que seu coração falhava uma batida sempre que o via em momentos inesperados.
Aquele era o tipo de interesse que não estava acostumada a ter.
Suas sobrancelhas arquearam com o termo “confuso” citado, Carlotta tornou a olhar para as próprias anotações e tomou a pena em mãos para recomeçar a escrever. Seu sorriso se desfez. “Sim, confuso. Deve estar.” Comentou simploriamente sem tentar demonstrar qualquer rancor em seu tom de voz. “Talvez um dia entrem mais cheiros na minha lista, mas esses são os únicos que eu sinto desde que fora me apresentada a poção.” Deu de ombros. Amortentia era uma poção que não colocava tanta fé, por esse motivo não se importava muito com os “cheiros de seu amor”. Discutir sobre aquilo não era algo tão íntimo ao seu ver, mesmo porque Remus também admitira os seus com a facilidade de quem anuncia uma lista de compras. “Os trouxas também possuem lá suas clarividentes. Temos profecias, há uma sala repleta de profecias no Ministério, mas acho que isso não quer dizer nada porque o futuro está em constante mudança. Mas quem sou eu para contestar algo se acredito no alinhamento dos cosmos.” Riu consigo mesma e começou outro parágrafo em seu trabalho. “O fato é que eu não acredito em condenação, que algo ou alguém esteja condenado as suas atuais condições.” Pensava em si mesma com a última declaração. Carlotta Meloni acreditava no amor, acreditava que teria algo para si mesmo que o mundo lhe dissesse que não poderia ter. Acreditava que um dia alguém a aceitaria mesmo com toda bagagem de seu passado. Se um dia parasse de acreditar nisso, se alguém realmente importante lhe dissesse o contrário, sua ilusão se esfacelaria em minutos. E talvez, somente talvez, começasse a acreditar em condições.















