Não de longe, não por cima, não como quem olha pra algo curioso.
De um jeito que atravessa, que marca, que fica.
E às vezes eu me pergunto se você sabe disso.
Se você percebeu, se você sentiu, se você entendeu que, mesmo no meio de tudo, eu te enxerguei.
Você carrega um peso que não deveria ser seu, mas que o mundo colocou nas suas costas como se fossem obrigações sua carregar.
Te vi segurando a tua própria história com as mãos calejadas, tentando não deixar ela desmoronar, tentando não deixar ela se perder no meio de tantos olhares tortos, de tantas palavras que cortavam, de tantos silêncios que doíam mais do que qualquer grito.
Eu te vi quando teu olhar fugia do meu.
Quando teu corpo tentava se esconder dentro de si, quando teu peito encolhia, apertado, sufocado, e tudo que eu queria era ser abraço.
Eu te vi se vestir de coragem todo santo dia.
Coragem que sangrava, que doía, que tremia... Mas que nunca te deixou ceder.
Te vi segurando tua voz, às vezes com medo, às vezes com raiva, às vezes com tanto cansaço que parecia que até respirar era pedir demais.
E se eu te disser que eu sinto falta, você entende?
Porque não é só saudade de você aqui, perto, é saudade de te ver sendo.
Sendo gigante no meio de um mundo tão pequeno pra quem você é.
Será que eu te olhei o bastante?
Será que eu te acolhi como eu queria ter te acolhido?
Será que eu consegui te mostrar que, pra mim, nunca teve problema?
O problema nunca esteve em você.
Nas vozes que te chamavam por um nome que não te cabia.
Nos pronomes que te feriam mais do que facas.
Nas tentativas constantes do mundo de te encolher, de te fazer voltar pra uma caixa que você já tinha queimado, rasgado, destruído.
Te vi existir mesmo assim.
Te vi reconstruir tua própria pele,
Teu próprio nome, teu próprio espaço.
E Deus, como isso foi bonito.
Bonito, intenso, dolorido, enorme.
Foi como ver alguém nascer de novo todos os dias, com sangue, com lágrima, com força, com amor.
Amei tua coragem, tua existência, tua bagunça, tua tentativa.
Amei até tua vontade de sumir, que às vezes aparecia de um olhar perdido, de uma respiração pesada.
Te amei no teu jeito torto de existir num mundo que nunca te quis inteira.
Foi coragem, foi resistência, foi amor, foi dor, foi luz e foi sombra.
Foi vida, mesmo quando parecia não caber vida aí dentro.
Eu te vi quando ninguém mais quis ver.
Eu te vi quando até você, às vezes, não conseguia se olhar.
E se algum dia você se perguntar
Será que alguém percebeu?
Será que alguém entendeu?
Será que alguém viu além da casca, além da dor, além da luta?
Vi teu corpo tentando se encaixar num espaço que sempre foi teu, mas que o mundo tentou te roubar.
Vi teus olhos baixarem quando a voz tremia.
Vi teus ombros pesarem quando o dia amanhecia e a coragem precisava ser vestida mais uma vez.
A beleza de quem se constrói sem manual, sem aplauso, sem garantias.
A beleza de quem escolhe existir, mesmo sabendo que existir aqui é, muitas vezes, um ato de guerra.
E se você soubesse o quanto te admirei, o quanto te admiro... o quanto carrego você em mim, você entenderia por que ainda sinto tanto tua falta.
Não só falta do que a gente viveu. mas falta de te ver ser. de te ver ocupando o espaço que é teu, gritando teu nome pro mundo, mesmo quando o mundo fingia não ouvir.
Você foi, e sempre vai ser, um dos maiores atos de coragem que eu já tive o privilégio de presenciar.
E nada, absolutamente nada, apaga isso de mim.
Porque te ver ser, foi, e sempre vai ser, uma das coisas mais bonitas que eu já vivi nessa vida.