LASOMBRA. CESARE BORGIA aparenta ter 32 anos, mas é um imortal com 540 anos. Possui o oficio de senescal em seu clã, e costumam dizer que se parece com François Arnaud e esta indisponível.
A N T E S D O A B R A Ç O;
Segundo filho do Papa Alexandre VI, Cesare nasceu em Roma, na Itália, no ano de 1475. Desde muito jovem foi incentivado a seguir a carreira religiosa, assim como o pai, haja vista a enorme influência da Igreja Católica à época e o fato de que o herdeiro das propriedades dos Borgia seria seu irmão mais velho, Giovanni, com quem Cesare tinha desentendimentos frequentes. Não admitia para ninguém, mas invejava a liberdade do irmão, a quem desde sempre foi dada a oportunidade de uma vida normal e confortável, o que só piorou quando Giovanni assumiu o comando das forças militares do papado. Além dele, Cesare tinha ainda dois irmãos menores: Gioffre e Lucrezia. Por esta última nutria especial carinho, sentindo a necessidade de protegê-la constantemente. Para ele, ela era como um anjo, uma mulher diferente de qualquer uma das com as quais se deitava. O que, aliás, ele fazia com frequência.
Por mais que o jovem tentasse viver uma vida voltada para Deus, sua carne não permitia. Constantemente era pego envolvendo-se em orgias e bebedeiras, contrariando tudo o que a Santa Fé pregava, pouco se importando com isso. Mesmo quando ficou mais velho, recebendo o título de Cardeal – principalmente pelo fato de seu pai ter assumido o papado – não abandonou seus antigos hábitos. Mas houve vezes em que ele pecou de forma não intencional, pode-se dizer. Quando passou a frequentar os lençóis da irmã, por exemplo. Aquilo não fora premeditado, simplesmente aconteceu. E por mais que ele soubesse que o incesto era abominado pela Igreja, não pode conter seus impulsos. Amava a irmã da forma que jamais amaria outra mulher, ainda que soubesse que ela jamais poderia ser inteiramente dele.
Casamentos foram arranjados para Lucrezia, pois o Papa Alexandre VI tencionava formar alianças com casas poderosas. No entanto, Cesare sempre arrumava maneiras de exterminar os pretendentes da irmã. Assassinou seu primeiro noivo, Giovanni Sfoza e um criado que, desconfiava-se, era amante da Borgia, lançando o corpo deste último no Rio Tibre. Sua fúria era implacável quando se tratava do ciúme que sentia da mulher.
Mas Cesare não pode permanecer no encalço de Lucrezia para sempre, por mais que tenha tentado. Além do mais, tinha planos ambiciosos que não poderiam ser freados por paixões juvenis. Quando a irmã se casou pela terceira vez, ele se viu inteiramente voltado para as questões políticas com as quais tinha uma facilidade assombrosa para lidar. Tencionava constituir um principado na Romanha, o que não ia de encontro à sua posição religiosa. Quando Giovanni Borgia morreu, Cesare aproveitou-se da ocasião para assumir a posição que sempre desejara, casando-se com a princesa Charlotte de Albret e recebendo como bonificação o ducado de Valentinois.
Como o “Duque Valentino” – nomenclatura pela qual ficou conhecido mais tarde –, ele demonstrou toda a sua habilidade política, mostrando-se implacável para com seus adversários e inimigos. Era capaz de armar as emboscadas mais inimagináveis; também não se importava de se utilizar de venenos e outros meios ardilosos e cruéis. O importante era fazer com que seus objetivos fossem atingidos e ele fosse temido. Passou a conquistar territórios por toda a Itália, tendo se apossado da Romanha por determinado período, além de Faenza, Pesaro e Rimini, encontrando um empecilho na cidade de Florença, um dos principados mais poderosos à época.
Foi nessa ocasião que conheceu Nicolau Maquiavel.
Na condição de legado da república florentina, Maquiavel foi enviado até Cesare como diplomata. Com o passar dos dias e a observância das medidas adotadas pelo Duque Valentino, ele acaba impressionado com o mesmo. Sua crueldade e habilidade para lidar com as questões políticas eram notórias. Não era um homem amado pelos povos que chegou a governar, mas sem dúvida era temido, e isso acabava por ser até mais eficaz.
O tempo que passou na companhia de Cesare Borgia fez com que ele sentisse uma necessidade cada vez mais latente de conceder-lhe o Abraço. A pretexto disto, em certa feita, quando reuniu-se em particular com o Duque, revelou-lhe sua verdadeira natureza, ressaltando as benesses daquela não-vida, além de mencionar as possibilidades que o clã Lasombra poderia lhe oferecer. A vaidade de Cesare era tanta – além do fato dele já se encontrar moribundo em razão da ingestão de um veneno que paulatinamente ia deteriorando seu intestino – que ele seria capaz de qualquer coisa para tornar-se um vampiro. Fascinado com a possibilidade de ter poderes sobre-humanos – para alguém que teve a imagem de Cristo pintada à sua semelhança isso era só a cereja do bolo – e assim derrotar qualquer um que atravessasse seu caminho, Cesare não pensou duas vezes.
O que Maquiavel pediu em troca não passava de escusa para que o homem não pensasse que ele estava lhe entregando a imortalidade de bandeja e em proveito próprio, o que, de fato, estava. Ter sob seu jugo um homem poderoso como o Borgia era algo que ele nunca sonhara desde que havia se tornado parte da sociedade cainita.
D E P O I S D O A B R A Ç O;
Recebeu o Abraço no ano de 1503, quatro anos antes de sua morte. Nicolau não foi o melhor dos Senhores, no entanto. Estava claro que tinha um carinho especial por sua cria, mas ainda assim, não fez questão de explicar com detalhes a nova situação de Cesare, o que obrigou o homem a descobrir tudo por conta própria, e da forma mais difícil também. A sede por sangue era tanta que, depois de anos, ele era incapaz de dizer se havia matado mais em batalha ou nas horas em que a fome o assolava. Sentia prazer em matar, isso era um fato, e sua natureza e clã só contribuíram para que continuasse fazendo o que gostava. Não demorou muito para que fosse apresentado ao Príncipe – o dos vampiros, não aqueles que ele abominava e que viviam protegidos em seus castelos fortificados – deixando de ser uma Criança da Noite apenas três anos depois de sua transformação.
Foi aconselhado a ocultar sua condição vampírica dos demais, ainda que sentisse ânsias de transformar Lucrezia num ser como ele, para que pudessem viver juntos pela eternidade. No entanto, suas ambições tiveram de ser interrompidas com a morte do pai. Cesare perdeu grande parte da influência que possuía, pois já não contava com o apoio papal; na verdade, era o oposto: o novo Santo Padre, o Papa Júlio II, passou a persegui-lo, e ele não era o único; alguns monarcas também seguiram seu exemplo. Cesare foi encarcerado por duas vezes, conseguindo fugir posteriormente graças a seus poderes vampíricos e deixando um rastro de sangue por onde passava, em especial sangue inimigo.
Deslocou-se até a França, onde contava com o apoio dos Albret, graças ao seu casamento. Assumiu o comando do Exército francês, sentindo-se mais forte do que nunca; seu único problema era o sol, que tornou-se seu inimigo, o que impedia que ele lutasse em grande parte dos dias. As baixas no Exército foram muitas em razão disso, até que os franceses fossem pegos numa emboscada em Viana, na Espanha. Os espanhóis não deram chance ao seu exército já destroçado, e Cesare deveria morrer com seus homens, se isso fosse possível. O que não era.
O italiano teve de forjar a própria morte, já que seria humanamente impossível que sobrevivesse àquele ataque. Para isso, permitiu que os espanhóis perfurassem seu corpo com espadas e expusessem seu cadáver em praça pública durante três dias. Quando foi levado para seu túmulo estava com tanta sede que a Besta interior quase o dominava. Acabou rapidamente com a vida do coveiro quando foi deixado sozinho com o velho, colocando seu corpo inerte no túmulo que seria dele próprio e concluindo o serviço. Depois daquele dia, todos pensaram que ele estava morto e enterrado.
Após sua morte, Cesare nunca mais viu seu Senhor, mas não é como se não tivesse recebido notícias dele. Inclusive ficou sabendo que ele ofereceu de presente a Lourenço de Médici um livro que mais poderia ser um manual de instruções escrito pelo próprio Cesare. Métodos que ele continuou a aplicar em sua não-vida, de forma ainda mais incisiva, se possível.
Passou a enxergar a humanidade mais como alimento, mas sabia aproveitar os prazeres que ela tinha a ofertar, como as mulheres. Não tinha pudores quando se tratava da própria diversão, e passou vivendo desta forma por séculos; três, para ser exato, tendo de ver sua querida Lucrezia morrer, assim como Charlotte e sua filha Louise. Porém, sua natureza de líder o impelia a buscar por outras coisas além do prazer. Ele era movido a poder, e vivendo às escondidas pela Europa como estava, era impossível conquistar o que desejava.
Também estava cansado de viver como um Caitiff, à margem da sociedade cainita. Decidiu que se apresentaria ao Cardeal de Londres, mas não poderia ser maior a sua surpresa ao perceber que o Cardeal em questão tratava-se de um de seus antigos inimigos. Teve de fugir mais uma vez, dessa vez da Europa, tomando um navio para o Novo Mundo, sem saber praticamente nada a respeito de seu destino.
Foi nos Estados Unidos do início do séc. XX que Cesare finalmente passou a se interessar pela Jyhad. Talvez fosse a saudade da guerra de um modo geral, exceto que aquela guerra em especial não era como as que ele estava acostumado. Não havia embates, nem campo de batalha, mas ele era igualmente bom com intrigas, traições e política. Não demorou para que caísse nas graças do Cardeal de New Orleans, tornando-se um membro ativo e apaixonado do Sabá, tomando como objetivo de vida suprimir a Camarilla.
Instalou-se na charmosa cidade, adotando como Refúgio uma mansão cedida pelo próprio Cardeal, alimentando-se principalmente de belas mulheres e – por que não? – de belas vampiras. Só era preciso que eles as seduzisse e as levasse para sua casa e o trabalho estava feito.
Tinha planos mais ambiciosos para sua seita; estava grato ao Cardeal por sua generosidade para com ele, mas sentia que o Cardeal não era o homem ideal para ocupar a posição que ocupava; mas ele, Cesare, era. Para isso tinha de arrumar meios para fazer com que o vampiro subitamente fosse atingido pela Morte Final. Até porque, vampiros morriam o tempo todo, em especial os importantes.
Ele sentia que estava próximo de conseguir seu tão sonhado principado. Se não havia conseguido em vida, talvez fosse porque estivesse predestinado a tê-lo na morte.
P E R S O N A L I D A D E;
Os traços da antiga vida de Cesare permanecem intactos, ou melhor: foram intensificados. O homem é dono de uma personalidade implacável e impiedosa, tendendo a agir com agressividade na maior parte do tempo. Não tolera fraquezas e é por isso que esconde as suas a todo custo, gostando de pensar que possui muito poucas. É ótimo com as palavras; dono de uma retórica perfeita digna de um governante – o que ele, de fato, era –, Cesare é manipulador e controlador, exigindo que os outros ajam da maneira que ele acha mais adequada. Também é imponente e refinado; é possível perceber por seus trejeitos e postura que ele não se trata de um qualquer. Além disso, possui um espírito de liderança muito forte e natural, que não abre espaço para questionamentos, dada a sua facilidade de comando. Como bom comandante de exércitos, Cesare é um estrategista nato. Inteligente, frio e calculista, planeja tudo cuidadosamente, evitando ser impulsivo, por mais que às vezes seja impossível conter seus desejos. É obstinado nas causas em que acredita, o que o torna um membro valioso para o Sabá. Tende a ser invejoso, pois está sempre buscando mais. Com as coisas que já possui, no entanto, é extremamente possessivo e não pensa duas vezes antes de matar qualquer um que se aproxime de seus objetos de desejo – mulheres, em geral. Ah, por sinal, ele é apaixonado por mulheres, sendo isso uma das suas fraquezas, também. Gosta de brincar com suas presas, seduzir, flertar – acha que isso torna o alimento mais saboroso. Há momentos, entretanto, em que o italiano mostra-se insano. Muitos vampiros de seu clã acham que não passa de excentricidade, mas o passar dos anos e a ânsia por poder causaram danos à sanidade do vampiro, o que o torna um inimigo imprevisível.
Pouco restou de sua humanidade, visto que ele a deixa em segundo plano, sabendo que se tentar ser mais humano se lembrará de Lucrezia e de que ela deixou de existir há muito tempo. E ele não suporta a dor desses sentimentos.











