Uma mecha teimosa do meu cabelo decidiu cair por cima dos meus olhos. Em um movimento sutil com a mão livre, retirei-o, colocando outros possíveis candidatos a rebeldia para trás da minha orelha.
Aquilo era particularmente agradável; saber que, de certo modo, eu estava atingindo meus objetivos. Aproximando meu rosto do pescoço dele, murmurei um quinze, enfim encostando meus lábios ali para pequenas peripécias. O dezesseis foi em áreas próximas e assim eu prossegui, com paciência e delicadeza.
Não pretendo ficar sozinho muito rápido.
Uno usa roupas diferentes e… De certo modo, acho que já vi elas em algum local específico… Hmm… Isso não tem muita relevância no momento. Elas são fáceis de retirar. Mas não tenho certeza se quero retirá-las.
Eu definitivamente não iria aguentar muito mais se cada carícia lenta me provocasse estática atrás de estática. Assim que ele teve o rosto o mais próximo possível do meu, o segurei pelas bochechas e o beijei sem pensar.
- “Mil” é um número muito alto - sussurrei num breve intervalo antes de trazê-lo outra vez, e com alguma força bruta, puxei o arcano de modo que eu deitasse as costas em seu colchão e o obrigasse a se pôr sobre mim.
Não sei como ele reagiria, mas esperava que o fato de eu estar praticamente sufocando ele com esse beijo não o deixasse resistir muito.
Concentrado nas carícias lentas, eu ainda pude perceber o movimento do sanguinário, mas não fiz nada quanto a impedi-lo. Pelo contrário, deixei-me levar, apear de que… Uno estava bem bruto. Meus reflexos não me permitiam ficar completamente submisso, mas eu fazia algum esforço para isso.
Era um pouco complicado acompanhar, o que me rendeu alguns “tropeços” - e um cobre leito fora do lugar. Não é como se esse cobre leito não fosse ficar fora do lugar e… enfim. Forcei-me a afastar os meus lábios dos do Uno, inspirando uma grande quantia de ar no processo. - É isso que torna ele… o número ideal. - Abri um sorriso de canto, dias esquecidos pareciam quase meio ano sem contato.
Ele estava em uma posição que eu poderia manter controle, mas… O que poderia fazer? O corpo dele não é o tipo de corpo que eu conseguiria manter passivo por muito tempo. É nesses momentos que eu fico confuso. Deitei-me de modo que o meu corpo não pesasse tanto sobre o do Uno, com a minha cabeça no ombro direito dele, evitando contato com a tatuagem. Talvez… tudo que eu preciso seja um pouco desses momentos calmos.
Como da outra vez em que ele esteve por cima, não pude deixar de perceber aquela expressão momentaneamente confusa e hesitante como quem não sabe o que fazer a seguir, e no fim ele apenas se acomodou no meu ombro.
Isso é realmente problemático?
Acomodei a mão direita nas costas da cabeça dele, deixando meus dedos aventurarem-se entre os fios úmidos do banho recente e afundei o nariz nos topo da cabeça inalando aquele cheiro levemente perfumado de xampu. O ambiente era tão silencioso que eu podia ouvir as batidas compassadas de seu coração e a respiração ocasionalmente bufante de um filhote de dragão.
- Hey - chamei bem baixo, hesitando em romper aquele silêncio cômodo - como as pessoas normais fazem essas coisas? Quero dizer… - aquela curiosidade formigava em mim desde que tomei mais consciência sobre esses atos íntimos, mas sempre perdia a oportunidade de perguntar - Eu sei que faltam coisas no meu corpo e que isso claramente te confunde, e que não dá pra fingir que não e continuar normalmente. Se eu fosse só outro humano normal, como seria agora?
Eu não tenho uma experiência vasta com isso. Entreguem-me uma espada e eu derrubarei um dragão se for preciso, mas, esses assuntos aparentemente mais simples… Eles não são a minha especialidade.
- … Bem… - Comecei, formulando a resposta, na minha mente, aos poucos. - Pessoas normais procuram prazer. - … Não não não, só isso não é bom. - Fazem coisas para fazer com que o parceiro sinta coisas boas… E… Se você fosse um humano ordinário… Faria coisas parecidas com a que você faz em mim… - … Por que é tão estranho tentar explicar isso?
…Isso não responde a minha pergunta. Na verdade até responde, é uma resposta simples e óbvia, não sei porque esperava mais.
Entretanto, ele fica mais atraente quando aquecido por constrangimento. Resolvi insistir.
- Hm. Pode ser mais específico?
Deslizei minha mão das costas da cabeça dele para sua nuca, infiltrando-me na gola da camisa branca e dali seguindo para o ombro equivalente ainda por dentro do tecido fino.
… Eu sinto como se estivesse quebrando a inocência de alguém em pedaços, porém, não é como se isso fosse errado. Ponderei por alguns instantes, realmente tentando explicar bem mais aquilo, mas, por fim, acabei suspirando, só relaxando meu corpo contra o dele. - Não sei ser específico, minha experiência de vida com isso não passa de algumas conversas que ouvi acidentalmente, e… com você, Uno. - Expliquei, lembrando-me das caras e bocas que o Harpe acabava fazendo quando me ouvia falar sobre isso. Era engraçado.
Ele parece estar sendo totalmente sincero, acho que insistir realmente não nos levará a lugar algum. Que pena…
Percebi que ele relaxou o corpo (possivelmente abaixou a guarda de novo). Ainda estamos na beira da cama, um lugar não muito cômodo. Então eu o segurei pelos ombros e ergui as pernas num movimento rápido o bastante para nos permitir rolar até o centro da cama onde terminaríamos deitados de frente um para o outro. Meus sapatos caíram de meus pés no processo.
- Assim é melhor? - apesar do possível susto que lhe dei nessa manobra. - Sinto como se pressionasse você à algo impossível quando te deixo por cima.
Em um movimento rápido, e com uma força que não é bem novidade, eu bati minha cabeça contra a superfície fofa da cama, ficando alguns segundos um tanto quanto atordoado.
- Se deseja inverter posições, pode me falar ao invés de tomar atos repentinos. - Eu ri, enlaçando o pescoço dele com ambos os meus braços, e observei-o por alguns instantes. - Não é como se me pressionasse, creio que seja mais culpa da minha indecisão natural. - Aquele era um fato tão gritante que até mesmo eu tinha noção disso. É mais fácil seguir ordens, ou comandar movimentos que não sejam de cunho sexual do que… bem, movimentos que não sejam de cunho sexual. Totalmente confuso, é. Eu sei.
Ao que me lembra… - É um pouco aleatório e foge totalmente do que nós estávamos falando, mas… Já estamos na época do Lughnasadh, o festival da primeira colheita, que tal me acompanhar nele? - Abri um sorriso terno, passando, agora, minha mão direita para o rosto do rapaz mais novo que era o meu namorado. Isso é pedofilia? - Claro, se não se sentir pressionado com a quantia de pessoas…
- É que é divertido te pegar de surpresa. - Respondi sobre meus “atos repentinos”, com um sorriso bobo no rosto. Acho que à esta altura já seria previsível que eu fosse imprevisível.
Estava pronto para provar mais do pescoço dele, quando ele mudou de assunto e me fez parar antes de mordê-lo de novo. - Festival da colheita? - perguntei com um interesse inocente. Tenho vagas lembranças de um evento parecido naquele vilarejo. E eu quero muito ir… - Desde que você esteja lá comigo e eu não precise usar outra gravata, eu estarei bem quanto às multidões.
Eu ri baixo quanto a parte da gravata, elas eram mesmo desconfortáveis, mas não eram tão satânicas assim. - Tudo bem, tudo bem… Dessa vez, só precisaremos vestir algo que combine laranja e amarelo. - Apesar de ser um “só”, eu dificilmente conseguia sair do quarto em menos de algumas horas, por me sentir estranho usando apenas essas cores. - E não precisa ter uma gravata.
Joguei meu corpo para o lado mais espaçoso da cama, imaginando que não iríamos muito mais adiante naquilo depois do assunto do festival ter surgido. Deitado de lado, virado para ele, eu tinha boas expectativas sobre ir ao festival.
- Acho que tenho um hakama desbotado no fundo do meu armário, está bem alaranjado… Mas não imagino você usando nada que não tenha muito azul.
- Essa vai ser uma oportunidade única de me ver usando cores vibrantes, sem nenhum azul. - Ri baixo da minha desgraça, não conseguia mesmo me ver muito bem em cores chamativas. Bem… É só por um dia… Ou quando acontece esse festival. - Agora vamos dormir, ok? Tenho que acordar com algumas horas de antecedência pra tentar não me atrasar… - E é óbvio que eu vou me atrasar, mesmo acordando bem cedo.
- Estou ansioso por isso.
Tomei aquele “vamos dormir” como um convite para permanecer ali. Sem cerimônias, puxei a colcha da cama de forma desajeitada de forma que no fim conseguisse envolver nós dois e terminar aninhado ao peito dele. Já de olhos fechados e postura preguiçosa, beijei-lhe o pescoço uma última vez.
- Não me deixe dormir demais. - Considerando o quão confortável estou, poderia dormir por eras. - Boa noite.
Eu não estou ansioso por isso...
Nem um pouco. Só de pensar em revirar minhas coisas atrás de roupas laranjas, e me atrasar por isso, já me dá o impulso de passar a noite em claro tentando encontrar algo. Mas não é como se esse impulso fosse mais forte que a minha vontade de ficar aqui na cama, quieto.
Passei o meu braço livre por cima do corpo do Uno, em um quase abraço, e também me acomodei em alguma posição confortável... Apesar de já estar nela... Enfim. - Não deixarei. - Eu acho. Sorri, teria feito algum ato assim se a posição não fosse se desfazer. - Boa noite. - E tratei de apagar a luz do cristal com uma runa, permitindo-nos dormir no escuro com uma Eri embaixo da minha cama.