Fractais de setembro
Por algumas semanas antes da morte do meu pai eu estava me dedicando ativamente a aprender como plotar (do jeito que eu tinha imaginado na minha cabeça) fractais de Júlia. O objetivo inicial era simples: pra fazer um fundo bonito pra um site. Acontece que passei a mexer com isso em todo tempo livre que eu tinha. Eu voltava da aula tarde da noite e ainda assim gastava 1 ou 2 horas quase todos os dias.
Quando fiz a disciplina de sistemas dinâmicos na graduação era início de 2020. Só tivemos uma aula presencial. Lembro que até vimos a curva de casos da covid19 àquela altura, o professor explicou que estudaríamos algumas das teorias por trás dessas análises… Na quinta-feira daquela semana já tivemos as aulas suspensas na UnB. Fazer a disciplina de sistemas dinâmicos naquele contexto foi estranho. Eu já queria muito ver além do que já estudava de sistemas dinâmicos na iniciação científica (que continuei por mais 2 anos e TCC…) e queria aprender mais sobre como fazer aquelas curvas e mapas bonitos do livro do Yorke. A vida vai acontecendo e eu não consegui fazer mais que o mínimo por um bom tempo.
Só em setembro do ano passado (2025) que sinto que consegui chegar onde queria sobre uma coisa muito especifica dos fractais de Júlia. 4 dias antes da morte do meu pai eu escrevi
“Na última semana testei umas coisas que vinha adiando. Entre atraso, acaso e caos… uma animação do fractal de Júlia “visitando” as sementes que mais gostei.”
E postei um vídeo que, entre procurar sementes, blends de paletas e estruturar o código em si, me custaram algumas boas horas. Meu pai curtiu! Sua presença nas coisas que eu postava era quase constante. “Os fractais da minha linda Filha 😍”, ele comentou. Nossa, que saudade!
Passei os meses seguintes evitando fazer coisas que eu gostava, como se sentisse culpa mesmo. Não podia passar mais horas mexendo em nada prazeroso. Parecia, e ainda parece um pouco, que eu precisava estar alerta pra algo que iria acontecer. Acho que só agora, 10 meses depois, estou voltando a conseguir desenhar, programar ou ler por prazer.
Ainda espero notificação dele ao longo dos dias. E quando chegam os finais de semana tenho o pensamento de fundo como quem lembra “é mesmo, tenho que ligar pro meu pai”. Perder repentinamente alguém que a gente ama tanto (e faz parte da nossa rotina) é assustador.
Eu achava que “melhorar” do luto seria esquecer… e, nesses meses, estive bem inconformada porque não entendia como as pessoas conseguem lembrar sem vir a tona todos os sentimentos de perda de novo. Quando eu soube, eu senti dor. Senti que a tristeza vinha de tantos lados que era como se estivesse mergulhada nela. Eu saí de casa pra tomar chuva naquele dia, queria sentir toda e qualquer coisa que não fosse aquilo. Sentir o frio da chuva deu alívio. Fui ver as plantinhas que ele conhecia e falei dele a noite toda. Lembro que não comi por uns 4 dias... quando tive que ir no mercado eu tive uma crise de choro. Queria estar comprando comida, pasta de dente, o que fosse, pra ele. É muito estranho digitar isso hoje porque eu ainda sinto. Sinto uma saudade e tristeza absurdas, mas um pouco menos dor.













