Quem observasse os dois interagindo, perceberia o contraste de personalidades e estilos de vida. Enquanto Blaze é muito mais sério, Apollo não consegue passar mais de dez minutos sem soltar uma piada sem graça ou algum trocadilho. Tem a necessidade patológica de fazer as pessoas do seu círculo social sorrirem, não gosta de seriedade. O vocalista da Venom Union, inclusive, é um dos principais alvos de seus comentários brincalhões e de seu afeto. Entretanto, quando estão juntos e conversando, o Blackthorn sequer se lembra das diferenças entre os dois, muito concentrado em suas expressões e suas palavras — para alguém com transtorno de déficit de atenção, atenção absoluta é como uma declaração de amor. A conexão que os dois dividiam era única e, por mais que fossem muito próximos dos demais companheiros de banda, sentia que era diferente. Não sabia bem o motivo, mas era uma sensação que possuía desde o início da banda e que vinha crescendo nas últimas semanas. Isso, é claro, o assustava demais e foi a principal causa de ter beijado qualquer pessoa naquela noite e nas noites anteriores. Sabia que não era o jeito ideal de lidar com a atração, ou seja lá o que sentia pelo amigo, mas não conhecia outro jeito. Investir ou flertar com ele, fora do âmbito da brincadeira, estava fora de cogitação. No momento que se juntou a ele, sabia que estava irritado com alguma coisa, mas não conseguia identificar em quê. Não se preocupou muito, principalmente por sempre conseguir se livrar das irritações do Hawkins com algumas falas, estava acostumado com aquele tipo de situação. Entretanto, pela primeira vez em muito tempo, sua mente entrou em sinal de alerta depois de ouvir a fala alheia. Então é isso. Não sabia como responder ou o que pensar, porque nunca tiveram nenhum problema por deixarem um ao outro para ficar com qualquer outra pessoa. Aquilo, sim, era novo para ele. Na realidade, sempre reprimiu qualquer comentário mau-humorado depois de ver Blaze com alguém, porque não lhe cabia reprovar seus atos ou companheiros sexuais. Pela surpresa, demorou alguns segundos para que seu cérebro processasse uma resposta adequada. “ — Você sabe, preciso me distrair enquanto você dá chances para todo mundo, menos para mim.” Seu tom era para ter sido jocoso, mas soou quase irritado. Quase. Não poderia sair falando coisas desse tipo para a pessoa com quem fez aquele acordo, não era justo com nenhum dos dois. Desejou ter outra bebida em sua mão para poder se livrar da irritação, mas reprimiu-se pelo pensamento. Não é do tipo que bebe para esconder frustrações, nunca gostou tanto assim. Em vez disso, desviou o olhar do rosto de Benjamin para fitar qualquer outro ponto no cômodo. Tornou-se ciente, de verdade, da proximidade dos corpos e teria se afastado, mas não sentiu-se muito motivado. “ — I’m just kidding.” Repetiu suas palavras em um ato orgulhoso, afinal, ambos sabiam que nenhum dos dois estava brincando. Pelo menos no caso do mais velho, não chegava nem perto de ser brincadeira. Assistira Blaze ficar com inúmeras pessoas e nenhuma palavra saíra de sua boca, embora sua língua coçasse para fazer algum comentário ácido. Voltando ao Apollo de sempre, voltou a fitá-lo com um sorrisinho descarado. “ — Então é por isso que passou o tempo todo me encarando de cara feia? Não que você consiga ficar feio, é claro. You’re hot when you’re jealous.” Brincou enquanto seu indicador enrolava os cachos loiros no dedo, erguendo as sobrancelhas. Sóbrio, não falaria nada daquilo por puro medo do que poderia acontecer em seguida, mas não conseguiu calar a boca. Poderia culpar o álcool no dia seguinte, certo? Esperava que sim.
Estava sendo um tanto quanto hipócrita falando aquelas coisas para Apollo, e tinha plena consciência disso. Blaze era a última pessoa que podia sentir-se ofendido por vê-lo investindo com diferentes pessoas em uma só noite, considerando que o próprio Hawkins era especialista quando o assunto era aquele. Mesmo antes da banda engrenar, sua adolescência já fora marcada por várias brigas que se desencadeavam nas festas que frequentava, por nunca saciar-se com a primeira companhia da noite. Aquilo só piorou depois que iniciaram a turnê, e as festas feitas depois dos shows começaram a ser marcadas por altas quantidade de álcool e ilícitos, que, uma vez juntos no organismo do vocalista, deixavam-no um pouco mais desinibido do que costumava ser. A grande questão ali poderia ser apontada no fato dele estar tão acostumado àquilo: Conseguir o que queria. Ou melhor, quem queria. Ele era empenhado em muitas coisas na vida, mas nada comparava-se a dedicação do loiro em conseguir cativar seus alvos. Talvez aquele fosse o problema. O fato de não ser permitido para ele conseguir Apollo. Haviam firmado o trato logo que se conheceram, quando notaram a tensão que crescia entre os dois sempre que estavam juntos, e o quanto isso podia atrapalhar o curso da Venom. Afinal, se Blaze era bom em conseguir as pessoas que queria, era ainda melhor em magoá-las depois disso -- os vários tapas na cara durante os anos eram a prova concreta disso. Ambos foram racionais ao firmarem aquele trato. A banda era muito maior do que eles, envolvia mais pessoas, tinha proporções mais altas do que o nível de atração entre os dois... Ou pelo menos era disso que ele tentava se convencer, todas as vezes em que se via sozinho com Apollo.
Voltou o olhar para o rapaz quando ouviu sua resposta, as sobrancelhas arqueadas, mesmo que ele soubesse tão bem quanto Blaze o motivo de tantos limites impostos. Não respondeu a acusação, afinal, não havia muito o que ser dito ali. Esperava que o assunto fosse encerrado, e que eles apenas se levantassem e cada um tomasse rumo até a própria cama. Porém, não foi o que aconteceu, já que a próxima sentença do mais velho fez com que Blaze franzisse o cenho. Onde ele estava querendo chegar com aquilo?, perguntava-se internamente, ao mesmo tempo que outra parte de si torcia para que ele não parasse. “ — You should stop... ” murmurou, olhando-o pelo canto dos olhos. Apoiou a cabeça no apoio do sofá em seguida, o rosto voltado para ele, e, graças a curta distância, nada se não poucos centímetros eram o que separavam seus lábios. “ — Porque, se não parar, eu vou ser obrigado a tomar alguma atitude sobre isso. ” completou, em um tom mais baixo. De repente, os limites que eles colocaram um para o outro pareciam extremamente borrados em sua mente.