na última vez que a gente se viu você disse “acabei de ver um cometa” e se frustrou que eu não tivesse conseguido vê-lo também. eu disse “faz um pedido” como quem abre mão da própria chance de um tête-à-tête com o universo, porque talvez você precisasse mais do que eu do alinhamento dos astros ou de um milagre numa terça-feira qualquer. mordi a parte interior da boca. decidi não te perguntar o que você queria tanto a ponto de fingir que qualquer corpo inerte caindo do céu pudesse fazer a diferença. essa era a relação que a gente tinha.
eu sentia que estávamos ali há milênios. os dois catando acasos pra alimentar o futuro. tentando entrar vida a dentro sem soltar a mão do que nos mantinha intactos. como se a liberdade pudesse nos quebrar. eu pisei fundo na areia morna. respirei todo o ar salgado que coube em mim. naquele dia estávamos longe. não sei dizer como. não culpo os silêncios, porque custa intimidade partilhá-lhos sem medo. também não culpo os centímetros, porque nem todo espaço é um buraco. talvez essa seja uma das coisas as quais jamais saberei nomear.
estávamos longe. um do lado do outro. vendo a mesma vista. cantando o mesmo verso do cícero. estávamos talvez dentro demais. mas naquela noite eu fui feliz. não com a pompa de uma epifania, mas com a naturalidade de uma janela aberta no fim da tarde. eu respirei como não respirava há semanas. depois a vida seguiu. quanto mais longe você ficou, quilômetros, litros, dias, quanto menos eu te senti na pele, nas pontas dos dedos, costas e barriga, quanto menos eu tive de você dançando na língua, mais eu gostaria de ter perguntado do seu pedido.
não porque a resposta fosse mudar quem nos tornamos. somos, talvez, inevitáveis e, ainda que não fossemos, eu não te mudaria e não mudaria quem você me tornou sem perceber. é que você sempre foi energia, luz, vibração, desejo. eu queria saber o que te toca assim fundo que quando você fecha os olhos pra mim, pro mundo, é isso que você quer ver. é isso que você implora ao céu quando uma estrela morta o rasga. é isso que você chora quando se deita, porque não está ao seu lado. eu queria saber o que é isso que te segura tão fundo dentro si mesmo.
quando eu disse “faz um pedido”, eu sabia há milênios que o pedido não seria eu. acho que foi quando meu silêncio virou espaço e meu espaço virou buraco e eu tenho tentado preenchê-lo com outras palavras que não são o seu nome, o seu cheiro, a cor do seu cabelo na minha nuca. eu tenho tentado desenhar a liberdade e ir de encontro a ela porque já não quero estar intacta, entende? eu já não quero estar a mesma. eu quero ir e estar viva, volátil, vulnerável e livre.
quando eu te conheci, engraçado, logo nos primeiros dez minutos eu já sabia que não tinha volta. queria ter te perguntado do seu desejo mais doído, do que te prende em si porque entre um dos nossos silêncios, danças, abraços, toques, olhares, demoras, estados, bebedeiras, exaustões, num de nossos momentos mais sóbrios, mais lúcidos, mais despidos de esforço, você me desamarrou de mim e eu entendi, sem palavras, quando você me disse “vai”. e agora indo, queria saber das suas correntes, queria saber do que te impede de vir junto. não deliro que a gente possa trilhar o mesmo caminho, dividir o futuro. nunca foi sobre isso. nós somos duas retas não paralelas que viveram o infinito antes de se tocarem, sem saber que esse não é o mesmo infinito que viverão depois.
me distraio agora acreditando que se você me contasse do seu maior desejo, da sua maior covardia, do que te assusta, do que te falta, eu poderia apontar pro futuro e dizer: está lá e só você pode buscar. mas você nunca precisou me dizer isso em palavras. você é isso em cada molécula, partícula subatômica, vibração de elétron. você é energia, desejo, movimento e me tocando por um instante, me libertou da minha inércia. naquela noite, eu agradeci a carona e desde então tenho ido embora. só queria também ter te ajudado a partir de si mesmo.