A tribo já não tinha mais paciência para aquele menino do movimento que, de quando em sempre, virava a tribo de “ponta-cabeça”.
Essa falta de empatia se resumia aos rígidos costumes “apresentados” aos seus desde tenra idade e que, de vez em sempre, eram ordeiros, obedientes e criados para servir à tribo.
Por alguns anos o menino ponta-cabeça foi tolerado, mas nunca aceito. Até aquele ano...
Ano em que a escassez de água foi persistente, endurecendo ainda mais as pessoas da tribo, desidratando ainda mais os pensamentos e enrijecendo tolerâncias.
Bani-lo não era uma opção, não seria parte do costume da tribo. Mas porque não presentear” todo esse movimento com uma missão inviavelmente nobre e de impossível retorno?
E assim foi feito... com o indelével deserto à frente apontaram a direção e apresentaram a missão: encontrar água e trazê-la para salvar a tribo.
Léguas...sol...areia...dias...noites. Da tribo agora, só a distância, vagas memórias e saudade. Mas seguiu o intrépido, característica primal daqueles do movimento, focando sua incomum energia no objetivo.
Quando suas últimas energias escorriam pela areia pesada do deserto, o que parecia impossível agora estava a sua frente... ÁGUA!!! Era tanta que tinha certeza que, além de saciar sua tribo, poderia também transformar todo deserto. Os grandiosos sonhos dos meninos do movimento...
Mas como iria transportar tamanha quantidade de água? Teve uma ideia simples, pois fazia aquilo por uma vida inteira, mas... já não tinha mais tamanha energia... seria sim seu último e eterno ato.
Olhou a velocidade e direção do vento e completou sua missão. Colocou o mundo todo de ponta-cabeça. A água então escorreu para o anil céu, transformando-se em nuvens e sendo levada pelo maral vento. Depois do seu eterno e derradeiro movimento em prol dos seus, dissipou-se, tornando se movimento puro, ventos e nas marés.
Algum tempo depois, as nuvens e a chuva chegaram à tribo, o deserto se transformou, a “ordem” voltou, o mundo em sua posição “normal”. Mas, esse mundo jamais seria o mesmo. Seria sem graça, com menos energia, menos sonhador. E nunca mais pôde ficar de “ponta-cabeça”.