━━━━━━━━━━━━ Merida era a mais rápida de seus irmãos. Poderia vencê-los em uma corrida tão facilmente que nem mesmo cansaria. Quando criança, mais nova, seus pais sempre estavam na linha de chegada, comemorando não só a vitória de Merida, mas a tentativa incansável de seus irmãos ao tentar vencê-la. Seu sonho era correr entre as árvores, livre, sem pensamentos sobre casamento, sem medo de nada. Pouco a pouco, seu sonho transformava-se em um pesadelo. O caminho tinha obstáculos do início ao fim, os galhos cortavam seu rosto como facas afiadas enquanto corria. Não lembrava-se da floresta ser tão deliberadamente fechada como estava naquele momento. Do rugido, escutou apenas ruídos. Porque não podia se dar ao luxo de escutá-lo totalmente, de absorvê-lo de entender o que o som da fera significava para o seu destino. Se o ouvisse por completo, deixando ecoar em sua mente, talvez as pernas já não responderiam ao correr desesperado. Ao medo. Pavor. Merida estava aterrorizada. Tinha medo correndo em suas veias, formigando em seus dedos, entorpecendo seus sentidos. Nem mesmo podia crer que a árvore havia caído com a força de seu caçador, por isso e apenas isso, virou-se para trás. Sem deixar de correr, apenas para vislumbrar um dos capítulos anteriores ao seu fim. “PAI!”, gritou novamente, desesperada, querendo ser ouvida, que seus últimos desejos fossem ouvidos, que fosse salva, que… Qualquer coisa. Não sabia em quantos espinhos havia pisado, mas os pés descalços ardiam em contato ao chão atribulado. Ele não cansaria, mas ela não poderia dizer o mesmo: era adrenalina que a movia naquele momento. Apenas a adrenalina e sua força de vontade de sobreviver. Porque o medo começava a paralisar sua mente. O que fazer? Quanto de força de vontade era o suficiente para salvá-la do destino trágico que iria acometê-la? Não sabia o que fazer, não sabia se teria o que fazer. Fim. Ela o sentiu quando ouviu o rasgar de seu vestido e como foi interrompida em sua corrida. Caiu, tombou, rosto batendo no chão com tanta força que ela gemeu de dor, alto, respiração descompassada tentando se firmar, arco e aljava longe demais de seu alcance. Ainda tentou se arrastar por mais alguns centímetros, agarrando-se à grama, à terra abaixo de si, querendo se livrar, tinha de fugir, mesmo ciente da impossibilidade. “Agh!”, ela reclamou, virando-se para a fera, ainda maior agora que estava no chão. Tinha o tamanho do mundo todo acima de si, saliva escorrendo de seus caninos, com fome, com raiva. O peito de Merida subia e descia, incansável, apavorado, tentando buscar seus últimos segundos de ar, como se algo fosse mudar. A princesa gritou, o som escapando de sua garganta a medida em que arranhava, rasgava. Sentia bafo quente da criatura, mesmo que fosse incapaz de olhá-lo por mais um segundo. Os dentes da fera tinham o tamanho de uma faca, tão grande quanto àquela que… Merida quase podia senti-la, presa em seu cinto. Pegou-a com a mão esquerda, a única que poderia alcançá-la naquele momento, e ergueu-a, cravando na couraça do urso com o quê restava de sua força e de sua coragem. Mor’du. Assim, cara a cara com o ser, tinha certeza. Ela não morreria sem lutar.