Hideaki saiu às pressas do hospital. Aceitou a carona de uma colega que costumava oferecer-lhe a praticidade quase todos os dias, mas que ela recusava simplesmente porque não queria incomodar. Ainda assim, chegou alguns bons minutos depois em sua casa, correndo em disparada para o chuveiro depois de dar a comida de Thunderus e Tornadus. Sua ducha não foi demorada e, no final das contas, ainda bastante apressada, Hideaki estava trocada, analisando sua maquiagem básica no espelho sobre a maior cômoda de seu quarto. A respiração ofegante escapava por seus lábios avermelhados que complementavam a simplicidade de seu delineado, ornando também com os longos cabelos que recaíam sobre os ombros estreitos da jovem. Não gostava do que via, como sempre, mas sabia que não havia muito mais que pudesse fazer para melhorar sua imagem. Com um suspiro, moveu-se pelo cômodo jogando as coisas de qualquer jeito dentro de sua bolsa: o batom que usava para retocá-lo se fosse necessário, uma garrafa de água e sua carteira. Tudo isso ao lado do exemplar do livro de Seunghee que comprara, ajeitado delicadamente dentro daquela pequena bolsa que carregaria de lado, atravessada em seu torso, que ela tentara ler durante aqueles dias, sem sucesso, sabendo, aliás, que era o autor daquela obra que causava-lhe todo aquele desespero em cumprir seu horário mesmo quando Seunghee fora absurdamente desagradável consigo.
No final das contas, quase às dez e meia da noite, Hideaki estava descendo do táxi que chamara pelo aplicativo, na porta do estabelecimento onde combinara de encontrar o rapaz. Seu coração parecia querer sair pela boca, como sempre acontecia em suas interações sociais restritas a uma única pessoa em meio a vários outros rostos desconhecidos. De qualquer maneira, a japonesa adentrou o local, esquadrinhando todo o ambiente à procura de Seunghee. Suas bochechas esquentaram ao avistá-lo, porque realmente era uma coisa ruim ter se atrasado, mesmo que ele dissesse que era paciente.
“Foi mal. Te fiz esperar demais, né?” Crispou os lábios, engolindo em seco logo em seguida, sentando-se ao lado do moreno. Daquele jeito poderia não olhá-lo tão diretamente nos olhos. “Eu já imaginava que ficaria com o horário muito justo, mas não podia combinar uma coisa às onze e meia ou meia noite.” Justificou-se, encolhendo os ombros, finalmente olhando-o um pouco mais. De perto, daquela maneira, parecia ainda mais bonito, pensamento que fez com que suas bochechas esquentassem ainda mais e certamente se tornassem um pouco mais coradas. “Desculpa.” Foi seu pedido oficial enquanto ajeitava a bolsa no apoio da cadeira, outra vez encerrando todo e qualquer contato visual que pudessem ter naquele momento. Ela era mesmo uma tragédia ambulante.
Para ser justo, Seunghee não era a mais pontual das pessoas e havia se atrasado bons dez minutos, bastante interessado em maneiras de estilizar os cabelos e melhorar a aparência com detalhismo excessivo. A anormal vaidade devia-se ao fato de que não era qualquer uma a quem iria encontrar no momento, mas para entender a fascinação de Seunghee deveria-se primeiro avaliar seu gosto romântico. Sua bissexualidade não era uma novidade, mas ele costumava ser criterioso quanto às pessoas que frequentavam seus lençóis. Acima de aparência, apreciava as mentes distorcidas, tão ou mais doentias que as suas. Por mais dócil que fosse, Seunghee constantemente admirava seus entornos à procura de pessoas que coubessem em suas preferências, e um pouco mais de observação lhe revelara Hideaki, a inter cambista japonesa.
Começara a cortejá-la de modo charmoso porque não sabia exatamente como se aproximar de outra maneira. Ele a convidava para dançar nas festas da faculdade, elogiava sua aparência e se mostrava interessado no que ela dizia porque realmente estava. Acabara encantado pelo longos cabelos escuros e a exótica beleza da jovem, natural e escura, refletindo intenções e pensamentos nada ortodoxos. Vez ou outra, o escritor acabava cercado por pessoas de má índole ao deixar-se guiar pelas mentes maravilhosas que tanto gostava de explorar, mas se arriscaria uma vez mais para estar ao lado da mais nova. Todavia, enquanto a esperava em uma mesa circular, observando um solitário homem tocando guitarra no palco de luz baixa, começou a matutar consigo mesmo se sua companhia seria tão desejada por ela quanto a dela era por ele. Uma rápida olhada no rolex dourado envolvendo seu pulso revelou que esta poderia ser uma hipótese.
Entretanto, as dúvidas esvaneceram ao vê-la adentrando o estabelecimento, levantando-se de seu assento para acenar e indicar sua localização. Um sorriso cresceu nos lábios, mas vagarosamente desapareceu conforme a figura feminina aproximava-se e seus trajes tornavam-se mais claros. Mesmo alguém que optasse mais por cérebro do que rosto poderia apreciar uma pessoa bonita, e Seunghee contemplou-a da cabeça aos pés por um minuto à mais do que deveria. Não como um predador sexual, mas de fato como alguém admirado, uma vez que a vira tão arrumada em raros momentos; nas festas, vez ou outra, mas costumava estar escuro e barulhento demais para reparar bem nela. Agora a tinha em toda glória diante de si e bebia de sua beldade com grande sede, tomando cuidado para não ofendê-la com seus olhares de soslaio. "Não tem problema. Eu cheguei alguns minutos atrasado também... E você está linda então a espera valeu à pena." Elogiou, voltando a mostrar os dentes em um sorriso. Por mais que ela pudesse não acreditar, ele diria novamente, uma e outra vez, até convencê-la da imagem que via. Mas com um pouco mais de cuidado desta vez.
"Tudo bem, como eu disse. Eu já pedi uma dose e tinha apostado com o bartender se meu encontro viria ou não. Ele me deve alguma grana agora, então obrigado por não me dar o toco." Confidenciou, inclinando-se suavemente para o lado de Hideaki, como quem buscava contar um segredo. Voltou à sua posição ereta, relaxado no banco alto. Tinha os cotovelos cruzados sobre o tampo da mesa e uma garrafa de cerveja importada pela metade defronte. Levou uma das mãos à camisa que utilizava, listrada verticalmente em padrões de risca de giz, e abriu os primeiros botões devido o calor. Subitamente, a temperatura parecera modificar-se drasticamente. "Quer pedir alguma coisa? Desculpe por não te esperar, mas acabei indo na frente." Indicou, levantando a botelha com um dar de ombros.
"Como foi o trabalho hoje?" Questionou, passando a brincar distraidamente com os botões soltos da manga da camisa. Os olhos voltaram ao rosto da mulher, não deixando de reparar a linguagem corporal tímida exibida pela mesma. Não era uma novidade, contudo. Hideaki sempre se mostrara uma pessoa mais quieta e Seunghee não queria que mudasse. "Espero não ter tomado seus pensamentos durante o dia e ter te feito errar a medicação de alguém." Comentou, e com dificuldade desviou o olhar para não acabar sobre o decote alheio, ainda que sua mente pedisse para analisá-lo mais de perto. Não queria causar constrangimento àquela altura do campeonato. "Você me acharia muito estúpido se eu confessasse que gastei algumas folhas à mais com erros de distração porque estava esperando pelo encontro?"