Eu estava em um ônibus, desses intermunicipais baianos, que não tem ar condicionado e as janelas estão emperradas. O ônibus estava cheio e eu estava em pé com meu namorado no espaço reservado para cadeirantes. Não demorou muito eu percebi que tinha alguém passando recolhendo os celulares dos passageiros. Consegui alertar ao motorista e deixar meu celular escondido com ele. Enquanto eles se aproximavam meu coração acelerava, e fui sendo tomada por uma impulsividade e vontade de me livrar daquela situação. Fui de novo ao motorista, a porta de descida já estava aberta, então eu pulei.
Quando eu desci do ônibus, estava mais desnorteada do que antes, vi o ônibus se afastar e de repente um deles aparece na janela, com a arma apontada pra mim. Deitei atrás de uma mureta de cimento, que parecia estar ali só para me proteger. enquanto eles atiravam o ônibus se afastava e em certo ponto eu tive a oportunidade de levantar e sair correndo.
Nessa parte, o corpo que me representava não era o meu, mas o de um garoto adolescente, negro, magro e com alguns dentes faltando. Então eu estava correndo em busca de socorro e me percebi em uma vila. Pedi ajuda para a primeira mulher que me apareceu. Era uma matriarca de muita força e representatividade na região, ela me levou a um de seus filhos, um homem gordo e bigodudo, que acabara de ver 2 rapazes descendo de um ônibus, armados. Enquanto ele falava eu pude vê-los surgindo no final da rua. Corri no sentido contrário, ultrapassei uma cerca que me levou para o para o terreno desmatado de uma fazenda repleta de montes. Atrás de mim havia casinhas da vila com seus varais cobertos de roupas, na minha frente uma vastidão íngreme de gramas e arbustos. Pensei se não seria melhor recorrer ao abrigo de alguém, em uma daquelas casas, mas minhas pernas já haviam me colocado no meio do mato, e eu sentia a presença dos meus caçadores se aproximando.
Então, no meio da minha correria, eu esbarro um canteiro de obras, havia um senhor tentando fazer o trator ligar, mas não ligava. Pedi socorro a ele, que me levou para uma van branca, de vidro escuro e disse que me deixaria na cidade mais próxima. No meio do caminho descobri que ele era filho de Odimar, a matriarca que me recebeu na vila. Em seguida vimos os rapazes me procurando, um deles sugeriu que eu pudesse estar na van, mas o outro achou pouco provável e então eles seguiram.
A van foi adentrando sertão e passando por diversas vilas até chegar na cidade, no caminho reconheci uma igreja e a menina que ia entrando nela. Era minha irmã. Era uma menina magra, negra, com os cabelos esticados presos em um rabo de cavalo. Eu comentei com o senhor que estava me levando que ela costumava vir me visitar, devia estar me procurando, mas naquele momento eu estava fugindo e aquela vila não parecia ser o meu destino.
Em outro momento, senti que estava sendo levada para o abate, mas foi aí que eu acordei.