Reflexões e camadas profundas sobre Ainda Estou Aqui (2024)
Ainda Estamos Aqui em 2025.
Quando o diretor Walter Salles se coloca no papel de diretor de cinema — ele em seus filmes cria abordagens e métodos diferentes, proporcionando afetividades da história em relação ao público brasileiro. E foi o que aconteceu com Ainda Estou Aqui (2024), sua produção mais recente, a palavra que podemos resumir o melhor filme lançado no ano de 2024 é memória.
Uma história de dor e resistência
O filme se destaca por sua abordagem sensível e intimista, que busca retratar o impacto da ditadura na vida de uma família. A narrativa se concentra na figura de Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva, e em sua luta incansável pela busca do marido e pela verdade sobre seu desaparecimento.
O longa é uma adaptação do livro autobiográfico e homônimo de Marcelo Rubens Paiva e segue a trajetória da mãe de Marcelo, Eunice Paiva, viúva do ex-deputado federal Rubens Paiva, sequestrado e assassinado pela ditadura militar em 1971. Filme que convida o espectador a refletir sobre a importância da memória e da luta contra o autoritarismo. A obra busca resgatar um período sombrio da história brasileira e homenagear aqueles que lutaram pela democracia.
Uma das cenas mais impactantes, por incrível que pareça é na cena de abertura, com a protagonista boiando na praia do Leblon, enquanto um helicóptero do exército passa dando um rasante sobre a areia. A mistura sonora do helicóptero com a sensação de paz que a imagem mostra gera, em seguida, a sensação complexa e muita firmeza cultural, mostrando o aspecto da época da ditadura militar.
Não é de se duvidar que as pessoas que foram assistir no cinema tivessem uma presença de um turbilhão de sentimentos no momento em que estavam assistindo dentro dessa caixa maravilhosa, o qual é o cinema, já que o filme provoca sentimentos angustiantes e agridoce.
É quase um filme surrealista quando pensamos na força pesada que a direção e o roteiro conseguem causar, o efeito paralelo na história. Na primeira metade do filme, mostrando a felicidade da família, os momentos maravilhosos e, em seguida, cortando para a segunda metade, vemos a construção pesada negativamente da situação da história.
É uma obra bastante sensível pela capacidade harmoniosa que tudo nele entrega. O fato do enredo da história "real" se passar na época mais assombrosa do Brasil e a situação onde muitos eram levados de fora de suas casas e nunca mais retornaram leva em conta a provocação de expor toda a barbaridade que os militares faziam na época. É grandioso o quanto o cinema é capaz de narrar perfeitamente com o uso das ferramentas e elementos. Quando eu assisti ao filme, não consegui tirar literalmente o olho para prestar atenção em cada detalhe, em cada fala, cada jogada dos atores.
"Ainda Estou Aqui" é uma obra que mistura reflexão, emoção e uma profundidade emocional notável ao tratar de temas como a felicidade, identidade nacional e a permanência do ser humano diante da dor. Dirigido por Walter Salles, o filme nos apresenta uma jornada delicada e dolorosa de seus protagonistas, cujas vidas se desenrolam de forma inesperada pelo fato de Rubens Paiva ser levado pelos militares, revelando a complexidade das relações sociais. É um filme sensível e delicado, que aborda temas universais com uma honestidade emocional impressionante. Sua narrativa é reflexiva e, por vezes, lenta, mas é exatamente esse ritmo mais cadenciado que permite ao espectador imergir nas profundezas da dor e da superação.
Fernanda Torres atua em camadas, a atriz mostra em sua atuação as quebras que a própria Eunice Paiva transmitia, hora quando estava fingindo e mostrando que estava tudo bem para os seus filhos, hora quando ela tem a firmeza de investigar onde está o paradeiro do seu marido. Há uma força no olha que também devemos destacar os momentos finais da fodona Fernanda Montenegro.
Entretanto, por mais que exista o contexto, a história é forte, o foco do filme é a própria família. Mesmo que emita os momentos de violência dos militares, o roteiro se mostra mais preocupado com as reações de Eunice e dos filhos quanto ao sumiço do pai. O olhar expressivo e marcante da Eunice nos momentos em que Rubens Paiva está "envolvido" na situação perante os militares, assim nos momentos suspeitos nas cenas onde ele recebe as ligações em casa. Da mesma forma, sentimos a sua dor nos momentos que ela passa no período que fica presa no DOI-CODI para prestar depoimento, a sua dor ao voltar para casa sem a presença e alguma informação sobre o marido.
“Sequestraram outro embaixador, outro, deu na TV agora.”
Com certeza, o ponto mais significativo é a intercalação entre os momentos felizes com as cenas de tensão e tristeza. Há uma profundidade melancólica na construção do filme disfarçada dessas complexidades. Claro que o filme não se perde combinando esses elementos abordados de lembranças e perguntas sem respostas.
Acredito que o filme foi criado não só para o público ter a consciência histórica, mas também para que os próprios responsáveis torturadores possam assistir e massagear o ego dos dito cujos. Como até na cena onde a Eunice Paiva confronta com uma raiva escondida a situação de fazer um registro de foto com os filhos na cena "Sorriam!" mostrando que no meio de todo aquele caos silencioso, ela demonstra uma bravura surreal.
Na última cena, fazemos um passeio pelos cômodos da residência dos Paivas, agora vazia. Sem muito alarde, a câmera vai se afastando da casa como se a casa fosse um personagem que vai deixando de existir, fazendo esse paralelo com o desaparecimento do Rubens. É um simbolismo sensível que Walter Salles faz de toda a presença e vida da família, se tornando cada vez mais um lembrete doloroso do período que vai se tornando uma lembrança profunda na vida de Eunice, dos filhos e de todo o público que se toca com a história.
O cinema tem esse poder quando fazemos filmes históricos. O fato de resgatar e preservar a memória de um momento específico da história da humanidade diz muito sobre o curso que todos nós levamos ao vivermos a nossa presença na vida, quanto aos modos e aspectos de vida que carregamos. E assim a nossa história vai acontecendo.
Não lembro de algum outro filme nacional que tenha me causado um impacto gigantesco com alguma temática relacionada à história do povo brasileiro. Ainda Estou Aqui, conseguiu traduzir a época da ditadura militar brasileira para o mundo. É um filme importante e necessário, que contribui para a preservação da memória e para a reflexão sobre o passado recente do Brasil. A obra é um testemunho da força da resistência e da importância da luta por justiça.
Cometi o crime de ainda não ler o livro do Marcelo Rubens Paiva, por isso não posso mencionar ele neste texto, porém tenho certeza de que a forma como o Marcelo quanto Autor se mostra sensível em relação à sua história.
Muito obrigado a todos os envolvidos nessa obra magnífica. — Elton Queiroz