Sally
Sally era uma daquelas mocinhas bonitas daquelas que a gente vê em revista chique. Eu sempre a vi por aí com outras pessoas e jurava que jamais me envolveria com ela, mas a verdade é que somente ela virou pra mim em um momento de emoção e tristeza velada. Ela me reconhecia no meu estado mais deplorável mesmo quando o mundo me julgava um ser humano completo e feliz. Ser completo pro mundo é ser vazio de significado e ser feliz é sorriso que nada mais é que um músculo que pode ser movido até quando se está morto, mas Sally ria sincera de boba quando eu falava certo ou falava sério. Ela via através da felicidade e sorria além desse manto pessoas moribundas movendo lábios por espasmo. Ela me fazia querer sair do mundo e só voltar quando eu tivesse tudo que ela podia me dar. Todos me viraram as costas no dia que Sally me levou pra passear e nunca mais voltamos. Mas era melhor uma hora com ela do que uma vida com o resto. No portão do parque ela disse que me amava e nos beijamos. A pele dela parecia de porcelana gelada, quase congelante, e os lábios faziam carinho como vidro quebrado. Era doce, suave, tranquila e olhos que apesar de verdes profundos e grandes, tinham uma maldade vermelha que cintilava pra além da doçura. Deitei na grama com ela e rolamos até que eu dormisse num sono gostoso, num sono que parecia sonho, até que tudo que havia era escuridão e Sally havia partido. Entre um encontro e outro com Sally tudo era desespero, era grito, e eu tinha uma raiva que não cabia em mim. Um grito de Sally tomava minha vida e eu gritava junto de desespero. Haviam risadas que riam de mim e quanto mais riam mais eu gritava. Estava no meu pesadelo e era aterrorizante, era inumano, o desespero corria nas veias e eu não conseguia parar com a agonia. Faria qualquer coisa pra fazer parar, qualquer coisa. Minha garganta provavelmente sangrava enquanto Sally gritava pra que eu a encontrasse de maneira desesperada. Overdose de medo. Sempre saía a procura de Sally não importava onde ela estivesse e que horas fossem, a voz dela como se estivesse sendo dilacerada me consumia e não podia mais dormir ou comer. Sempre a encontrava em um beco chorando e vindo correndo pra mim com um sorriso que fazia tudo parar. Era um ciclo. Porque se o mundo me virou as costas, Sally, ah Sally, essa jamais me abandonou na alegria e na tristeza, na saúde e na doença e nem a morte nos separou. Sally me trouxe a morte e a abracei porque Sally a abraçou primeiro e era tinha um cheiro tão bom que mesmo depois de não conseguir mais ver ouvir nada, eu não queria mais parar de sentir. Que linda música tocando baixinho e diminuindo enquanto a tela escurece. Encontrarei Sally do outro lado.




















