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Que a felicidade nĂŁo dependa do tempo, nem da paisagem, nem da sorte, nem do dinheiro. Que ela possa vir com toda simplicidade, de dentro para fora, de cada um para todos. Que as pessoas saibam falar, calar, e acima de tudo ouvir. Que tenham amor ou entĂŁo sintam falta de nĂŁo tĂȘ-lo. Que tenham ideais e medo de perdĂȘ-lo. Que amem ao prĂłximo e respeitem sua dor. Para que tenhamos certeza de que: Ser feliz sem motivo Ă© a mais autĂȘntica forma de felicidade.
Carlos Drummond de Andrade. (via romantizar)

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O que falta para eu entender que acabou? Que dor falta sentir? Mas amor nĂŁo se pede, imagine sĂł. Ei, seu tonto, serĂĄ que vocĂȘ nĂŁo pode me olhar com olhos de devoção porque eu estou aqui quase esmagada com sua presença? NĂŁo, nĂŁo dĂĄ pra dizer isso. Ei, seu velho, serĂĄ que vocĂȘ pode me abraçar como se estivĂ©ssemos caindo de uma ponte porque eu estou aqui sem chĂŁo com sua presença? NĂŁo, vocĂȘ nĂŁo pode dizer isso. Ei, monstro do lixo, serĂĄ que vocĂȘ pode me beijar como um beijo de final de filme porque eu estou aqui sem saliva, sem ar, sem vida com a sua presença? Definitivamente, nĂŁo, melhor nĂŁo. Amor nĂŁo se pede, Ă© uma pena. Ă uma pena correr com pulinhos enganados de felicidade e levar uma rasteira. Ă uma pena ter o coração inchado de amar sozinha, olhos inchados de amar sozinha. Um semblante altista de quem constrĂłi sozinho sonhos. Mas vocĂȘ nĂŁo pode, nĂŁo, eu sei que dĂĄ vontade, mas nĂŁo dĂĄ pra ligar pro desgraçado e dizer: ei, tĂŽ sofrendo aqui, vamos parar com essa estupidez de nĂŁo me amar e vir logo resolver meu problema? Mas amor, minha querida, nĂŁo se pede, dĂĄ raiva, eu sei. Raiva dele ter tirado o gosto do mousse de chocolate que vocĂȘ amava tanto. Raiva dele fazer vocĂȘ comer cinco mousses de chocolate seguidos pra ver se, em algum momento, o gosto volta. Raiva dele ter tirado as cores bonitas do mundo, a felicidade imensa em ver crianças sorrindo, a graça na bobeira de um cachorro querendo brincar. Ele roubou sua leveza mas, por alguma razĂŁo, vocĂȘ estĂĄ vazia. Mas nĂŁo dĂĄ, nem de brincadeira, pra vocĂȘ ligar pro cara e dizer: ei, a vida Ă© curta pra sofrer, volta, volta, volta. Porque amor, meu amor, nĂŁo se pede, Ă© triste, eu sei bem. Ă triste ver o Sol e nĂŁo vĂȘ-lo se irritar porque seus olhos sĂŁo claros demais, sĂŁo tristes as manhĂŁs que prometem mais um dia sem ele, sĂŁo tristes as noites que cumprem a promessa. Ă triste respirar sem sentir aquele cheiro que invade e vocĂȘ nĂŁo olha de lado, aquele cheiro que acalma a busca. Aquele cheiro que dĂĄ vontade de transar pro resto da vida. Ă triste amar tanto e tanto amor nĂŁo ter proveito. Tanto amor querendo fazer alguĂ©m feliz. Tanto amor querendo escrever uma histĂłria, mas sĂł escrevendo este texto amargurado. Ă triste saber que falta alguma coisa e saber que nĂŁo dĂĄ pra comprar, substituir, esquecer, implorar. Ă triste lembrar como eu ria com ele. Mas amor, vocĂȘ sabe, amor nĂŁo se pede.
Tati Bernardi.Â
â E o que a gente vira quando vai embora de alguĂ©m? E o SenhĂŽ respondeu: â Uns viram pĂł. Outros caem igual estrela do cĂ©u. Outro sĂł viram a esquina⊠E tĂȘm aqueles que nunca vĂŁo embora. â NĂŁo? E eles ficam onde, SenhĂŽ? â Na lembrança.
Caio Fernando AbreuÂ

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Aquele seu eco nĂŁo me alcança mais. HĂĄ paredes novas me cortonando, e repare que nĂŁo uso mais a palavra âprotegendoâ. NĂŁo me protejo; parede alguma me protege. O mundo me bate, mas nĂŁo escolho apanhar todos os dias, apenas quando o tĂ©dio bate junto. Agora essas paredes me contornam, delimitam alguns espaços que eu quebro ou nĂŁo. No seu caso, nĂŁo quebro. EstĂĄ sentindo falta do copo dâĂĄgua durantes as suas noites? Ah, eu faço falta como ele, nĂŁo Ă©? Aquilo que parece pouco, mas nĂŁo Ă©. Sua boca fica seca, seu sono vai embora, suas palavras nĂŁo saem. Seu eco foi junto, foi embora pouco a pouco com a ĂĄgua que nĂŁo te levo mais, com os beijos que nĂŁo te dou mais e com a vida toda que nĂŁo se vive mais. Gosto amargo Ă© o que fica, descobriu? Aposto que descobriu! Se chegar mais perto, quem sabe posso ouvir a sua voz. NĂŁo mudarĂĄ as minhas paredes, muito menos a sua garganta seca. NĂŁo mudarĂĄ o que jĂĄ mudou. HĂĄ espaços intransitĂĄveis no ar, tal como o nosso mais novo silĂȘncio.
Camila Costa.Â
VocĂȘ nĂŁo me amava, apenas gostava da minha presença quando todos te deixavam. VocĂȘ nĂŁo me amava, apenas gostava de ver que alguĂ©m realmente se importava com o seu bem-estar. Apenas gostava do modo que eu te tratava; como ninguĂ©m nunca te tratou. VocĂȘ nĂŁo me amava, apenas me pedia para ficar, pra nĂŁo perder aquela pessoa que nĂŁo se importava em se entristecer pra te ver sorrir. VocĂȘ nĂŁo me amava, apenas se sentia importante quando via que, um dia sem vocĂȘ, era muito tempo pra mim. E eu? Eu te amo, desde o Ănicio. Eu te amo, mesmo que doa. Eu te amo, mesmo sentindo tudo sozinho. Eu te amo, mesmo que hoje vocĂȘ diga que nunca quis me iludir.
Fernando, ou o que restou de um.Â

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Eu tinha feito uma musica pra ela. Bem assim, cara. Uma musica. Bem daquele estilo que ela curte, bem daquele jeito que faria ela me notar em alguma coisa. Onde jĂĄ se viu eu escrever uma musica pra alguĂ©m? Pois Ă©, escrevi. E ainda escrevi pra aquela coisinha. Aquela coisinha que Ă© complicada pra caralho. Ela tem uma mania de dizer que eu nĂŁo me importo com nada, diz que eu tenho que crescer. E eu tenho que concordar com tudo. Porque Ă© verdade. Eu sei bem o que eu sou, mas juro que gostaria que ela nĂŁo soubesse. NĂŁo que eu seja muito ruim, mas Ă© que ela Ă© muito boa. Em qualquer sentido. Eu sou um otĂĄrio. Em qualquer sentido. A Robin Ă© toda estranha, sabe? Começando pelo jeito e as manias. Ela demonstra certeza mesmo sendo totalmente incerta. E eu sou todo meio-termo. NĂŁo sei tomar decisĂ”es, sĂł faço as escolhas erradas. Ela Ă© impulsiva, mas ela sabe o que faz. E eu nĂŁo sei nem tomar conta do meu nariz. Mas bora lĂĄ, escrevi uma musica. Tentei escrever, nĂ©? Tentei impressionar, tentei fazer alguma coisa pra ela se ligar que eu tĂŽ ali. âOlha, nĂŁo repara bem a desafinação na minha voz. Mas eu escrevi isso pra vocĂȘ, pra tu lembrar de mim de algum jeito.â Ela nĂŁo disse nada. E eu comecei a cantar, cara. E ela ainda tava lĂĄ, quietinha. Eu acabei de cantar e dei aquela suspirada meio derrotado. Sei lĂĄ se ela tinha gostado, se tinha achado o suficiente. âO que vocĂȘ achou?â âEu gostei. Ficou boa. Por cinco minutos atĂ© parecia que vocĂȘ nĂŁo era o idiota de sempre.â Tem prova mais concreta que ela me curtia depois disso? E porra, ela Ă© toda diferente. Ela fala uma coisa querendo falar outra. Ela derreteu com a musica, deu pra ver pelo sorriso. Mas nĂŁo ia assumir, ela nĂŁo Ă© disso. Mas ela tinha me notado. E eu queria que ela entrasse bem na minha vida. Que ela me invadisse, que roubasse o espaço. Que entrasse pra ajeitar todas as coisas que eu desarrumei. âPor que seu quarto Ă© tĂŁo desarrumado?â Ela veio dando risadinhas. A primeira oportunidade que ela tinha de me gastar, ela gastava. âUĂ©, cara. Meu quarto Ă© meu reflexo.â âIsso quer dizer que vocĂȘ Ă© bagunçado e meio⊠Desarrumado?â âPode ser, mas acho que vocĂȘ jĂĄ notou isso. NĂŁo quer tentar dar um jeito?â âNo teu quarto? Parece meio impossĂvel. Tem casaco atĂ© na porta.â âNo meu quarto e em mim.â TĂŽ sabendo bem o que eu tĂŽ dizendo. Sou totalmente sem jeito, sem rumo e solução. Mas eu me perdia nela e mesmo assim ela me encontrava. Eu sempre fui bagunçado, mas com ela por perto eu fiquei mais ainda. Ela sempre foi a minha pergunta e a minha resposta. Tudo ou nada. PĂŽ cara, sĂł ela pode me dar jeito. Ă ela ou eu fico assim sempre. Na verdade, se ela tĂĄ por perto Ă© mais fĂĄcil nĂŁo ser tĂŁo imbecil. Ela me fez escrever uma musica, cara. E eu nunca soube fazer nem um poeminha. Mas com ela Ă© tudo diferente. Ă tudo mais complicado e difĂcil. âSabe, vocĂȘ Ă© meio que o oposto de mim.â âCara, eu nĂŁo sou meio teu oposto. Sou completo teu oposto. Porra, vocĂȘ fala atĂ© francĂȘs.â âJâai besoin que vous restiez, Stubb.â âAgora traduz.â âVocĂȘ percebeu que âstubbâ Ă© meio francĂȘs?â Esqueci de dizer que ela Ă© covarde. E que foge de tudo que ela acha que Ă© perigoso pra ela se envolver. Ă claro que ela nĂŁo disse o que aquilo significava. Mas Ă© claro que eu joguei no tradutor e acabei descobrindo. Ela me acha um idiota, um tremendo de um imbecil. Sou comum, sou clichĂȘ e sou o que ela menos quer. Mas ela disse que precisava de mim pra ficar. E enquanto ela precisava de mim pra ficar, eu precisava dela pra me arrumar. PĂŽ cara, tem tudo pra dar certo. Mas ainda dĂĄ errado. E se desse certo, eu tenho certeza que ela largava de mĂŁo. O problema Ă© que ela se amarra em ficar dando errado comigo. E eu me amarro em dar errado com ela. PĂŽ, bonito isso que eu acabei de falar. Vou atĂ© tentar escrever um poeminha com isso. Depois da musica, qualquer coisa entra. Vai que dĂĄ certo e ela volta falando francĂȘs de novo?
robin and stubb.Â