muito se passou, entre eu e você; entre eu e ele; eu e ela. hoje eu estudo, eu trabalho, e cada página da minha vida é um sonho construido com as esperanças de um dia viver de arte. aliás, esse é o sonho de todo artista: viver da arte. meu pai me contou da vez que ele fugiu da polícia. e da vez que ele apanhou no escuro da noite de dois caras. e outra vez que apanhou sozinho. de quanto ele era solto na rua e no mundo, e carregava tanta raiva no peito que descarregava nas festas, na bebida e nas brigas. lembrei de baco em “sinto tanta raiva”.
ouvi histórias que me trouxeram até aqui. eu não deveria sentir vergonha de mim, se o que eu tenho é fruto de uma vida sem sonho, de gerações que não puderam ter ou sonhar; gerações de bolso vazio e peito sedento. eu ainda sinto tanta sede mas estou aprendendo a navegar no mundo. a real é que nem tudo é tão passageiro assim… e eu tenho estado interessada no que fica.
às vezes me sinto apática — quero ir pra casa, quero ir pro quarto, quero ninguém; mas muitas outras vezes queria um afago e alguém que me olhasse nos olhos e me amasse como sou.
parece que algumas coisas tem perdido a cor, mas eu me abraço e me sinto bem comigo mesma. quietinha, sem julgamento — até porque só eu sei o que acontece: na minha conta bancária, na minha geladeira e debaixo do meu coberto.
sonho em um dia poder trabalhar como atriz entrando e saindo de filme, imersa em uma personagem vilã ou vivendo uma mocinha que vira uma monstra.
meu pai me disse que minha bisavó não queria que ele casasse com mulheres brancas porque sofreu por ter casado com um holandês. sofreu tanto que não aceitava que mulheres brancas adentrassem sua casa querendo namorar seus filhos e netos.
eu não tenho defeito de cor: meu maior defeito é ser uma mulher marrom cacau que me tira desse lugar por ter o que tenho. mas meu marrom define minha doçura, sou chocolate, cocada de côco queimado, sou quente, sou herança ancestral de força pura.
toda mulher sagrada tem que ter seu santuário; e toda mulher marrom cacau precisa entender que carregar esse tom é ter vivido dor nesse mesmo tom em outras vidas.
essa semana eu finalmente compro um kindle e um caderno para escrever o que sinto — faz um tempo que me estranho, e me entranho.
a jade vai morar comigo e eu tenho medo. tô com saudade desse encontro entre eu e o medo do desconhecido — me empurro pra esse lugar como fosse ímã.
tenho vontade de transar com o zuza. e com a duda. acabou o verão, quero fazer uma festa junina. quero comprar um caderno de luas pra escrever o que sinto e em breve arrumo meu armário de remédios. do mato.
fazer da terra do quintal meu prato, do meu peito um buraco tapado com quentura de cacau de ilhéus e do meu corpo uma possibilidade de saúde e acolhimento a mim.
mesmo nessa fase esquisita de apatia )ou seja lá o que for( me sinto bem, enfim.