Flor de cerejeira
Entre o sal do mar, pores do sol dourados e o som distante das ondas de Copacabana, Daniel — ou apenas Kyu para aqueles que o conhecem de verdade — descobre que algumas pessoas chegam como o verão: intensas, bonitas e passageiras demais. Minju veio ao Rio por pouco tempo. Uma pesquisa de campo. Férias. Algumas semanas longe de casa. Era pra ser só isso. Mas entre cadernos recheados de anotações, conchas esquecidas pela areia, caminhadas no fim da tarde e silêncios que diziam mais do que qualquer conversa, os dois acabam criando algo que nunca souberam nomear. Porque às vezes o amor não começa com promessas. Às vezes começa com rotina, e talvez seja justamente isso que torna tão difícil deixar ir.
"Busco uma flor de cerejeira Em cada braço esquerdo Que eu acho parecido com o seu Se tudo passa nessa vida Por que você não passa outra vez E decide ficar?"
Dani Bessa · Hiperdrama · Song · 2024
O horizonte de Copacabana tinha aquela típica paleta de cores que, segundo Daniel, não existia em nenhum outro lugar do mundo. Não era azul, mas também não era laranja, era um meio-termo quase que impossível de entender como era possível, era um dourado queimado que parecia derreter lentamente e escorrer pela vastidão do mar enquanto o dia acabava sem pressa, com preguiça. — Vai ficar parado olhando pro céu igual um idiota? — ouviu um de seus amigos, Niki, gritar entre altas risadas. Daniel, costumeiro, apenas mostrou seu dedo do meio para o grupo, sem realmente olhar para trás, arrancando gargalhadas do pequeno grupo de garotos que ali estavam espalhados pela areia. Ainda assim, acabou cedendo quando a bola caiu perto de seus pés. As altinhas no fim da tarde sempre terminavam do mesmo jeito: areia grudando nas pernas, muitas discussões bestas sobre quem tinha deixado a bola cair, músicas ruins tocando ao longe nos quiosques e o vento carregado cheio de sal. Era rotina, e Daniel gostava de rotinas, gostava porque elas davam a falsa sensação de permanência. A bola subiu mais uma vez entre os garotos, atravessando pés, ombros e risadas altas, até que um chute mal calculado desviou completamente de sua trajetória prevista. — Caralho, Kyu! A bola atravessou parte da faixa de areia antes de finalmente parar próximo às pedras mais afastadas da praia. Daniel soltou uma risada curta pelo nariz. — Deixem de zuadar, eu vou buscar. Saiu andando sem pressa, os pés afundando na areia ainda morna enquanto o som dos amigos aos poucos diminuía atrás de si. O mar parecia diferente naquela parte, mais calmo. As ondas quebravam devagar contra as pedras escuras, espalhando espuma branca entre pequenas poças cristalinas que refletiam o céu dourado acima. Daniel se abaixou para pegar a bola, mas interrompeu o movimento ao perceber algo preso entre as pedras. Uma pequena flor rosada, provavelmente trazida pelo vento de algum lugar distante da orla, ou talvez esquecida ali por alguém. Daniel ficou parado olhando para ela por alguns segundos, por tempo demais. Sentiu algo estranho atravessar seu peito — rápido, quase imperceptível, mas suficiente para fazê-lo franzir levemente o cenho. Como saudade, não exatamente de alguém, mais de um momento, de um verão inteiro. Os dedos passaram distraidamente pela própria nuca enquanto o vento soprava outra vez, bagunçando seus cabelos úmidos de maresia. E então veio a sensação, forte e repentina. Como ouvir uma música antiga tocando baixinho em algum lugar. Como lembrar de uma conversa sem conseguir recordar as palavras. Como reconhecer um perfume no meio da rua e quase virar o rosto procurando alguém que já foi embora há muito tempo. Daniel engoliu seco, os olhos permaneceram presos na pequena flor. Por um instante curto demais, teve a impressão de ouvir uma risada distante misturada ao som do mar, uma daquelas memórias que talvez nunca tenham realmente ido embora. — Kyu! Vai casar com a bola caramba?! A voz dos amigos ecoou longe, arrancando dele um pequeno sorriso pelo nariz, ele finalmente pegou a bola. Antes de voltar correndo, porém, olhou uma última vez para a flor presa entre as pedras. E mesmo sem entender o motivo… Sentiu que já tinha vivido aquele fim de tarde antes.
ㅤ Uma bagunça organizada ㅤㅤFoi a conclusão que Minju teve primeiro ao abrir a pequena caixa de lembranças que sempre deixava bem no topo de seu guarda-roupa, lugar que somente mexia quando necessário, e agora era. ㅤㅤEstava fazendo faxina em seu lar, e por mais que gostasse do pequeno caos que era seu cantinho de descanso, sabia que era necessário cuidar dele. ㅤㅤPegou com cuidado a pequena e frágil caixa de madeira — adornada com múltiplos adesivos e desenhos diversos de qualquer coisa que fosse do oceano: um peixe aqui, uma estrela do mar no meio, alguns corais nos cantos da tampa —, levou-a até sua cama, curiosa para rever e lembrar das recordações que ali gostava de guardar, despejou o amontoado de itens do interior da caixa em cima da cama. ㅤㅤEstendeu a mão, o primeiro item que foi pego foi uma pequena pulseira feitas artesanalmente de conchas, lembrava que a tinha feito em sua primeira aula de pesquisa prática, quando acompanhou de perto, em um fim de tarde de verão junto a uma ong, o eclodir de centenas de pequenos ovos de tartaruga — um ritual da vida, onde cada pequena rachadura percebia o qual frágil era o início de um momento, onde cada mergulho no mar representava o fim dele, e onde o sol rapidamente cedeu seu lugar a lua naquele dia, mostrando o quão passageiro aquilo era. ㅤㅤDeixou a pulseira de lado, seu olhar dessa vez repousou em uma pequena folha de papel agora já amarelado e pouco amassado, perdurou seu olhar ali, antes de estender seus dedos sobre a superfície, pegando com cuidado pela ponta. Tinha um galho colado com pedaços de fita adesiva ali, um pequeno galho de madeira em marrom forte, suas folhas, ainda que quase impossível, carregavam ainda seu tom pastel de rosa — claro que se recordava, não era de pegar coisas fúteis apenas por lembranças, raras férias de primavera, onde as ruas movimentadas passavam a ter um tapete natural e macio de tais pétalas, folhas de cerejeira, ela achava intrigante, não somente por sua beleza apesar de ser um ponto forte, mas apreciava seu significado puro e tão real, tempo, não qualquer tempo, aquele que passa, daquele que por sua beleza se faz achar que vai durar por muito, mas é justamente o contrário, é aquele que mais rápido passa. ㅤㅤIsso arrancou um longo suspiro da garota, que guardou novamente aquele fragmento de memória novamente em sua caixinha, e o mesmo fez com mais diversos itens: algumas conchas, post-its coloridos com pequenas anotações diversas, cartões de viagem de tudo um pouco, até que julgou ter devolvido tudo a seu pequeno universo afetivo, pensamento que não durou muito ao ver uma única polaroid escondida ali entre os lençóis – levemente amarelada, pontas amassadas, com alguns adesivos que dentro desses, se destacava uma pequena bandeira do Brasil. ㅤㅤNão se aguentou de curiosidade e buscou a polaroid com seus dígitos, percorreu seu olhar pela frase no verso, reconhecendo sua própria caligrafia: ㅤㅤ“Seus olhos parecem o mar antes da chuva.” ㅤㅤObservou, pensou, aquilo a deixou completamente fixada, até que sem mais enrolar, virou a pequena foto para outro lado, finalmente vendo a imagem que ali tinha sido marcada no tempo. ㅤㅤSentiu seu coração dar um pequeno tropeço no peito, uma batida alta que pareceu ressoar pelo pequeno cômodo, não percebeu quando um suspiro alto escapou de si, ou quando um sorriso fraco surgiu no seu rosto. ㅤㅤMuito menos, não percebeu quando a janela se abriu com um suave vento, permitindo reflexos de um sol a pouco de desaparecer no horizonte, que com a suave brisa trouxe pequenas pétalas de um tom claro de rosa.
— link da fanfic:: https://www.spiritfanfiction.com/historia/flor-de-cerejeira-26736563




















