Talvez o que mais me canse seja perceber que estamos vivendo o amor em tempos lÃquidos, em que quase tudo parece provisÃŗrio, descartÃĄvel e incerto. Onde se aproximar de alguÊm jÃĄ vem acompanhado de uma espÊcie de manual silencioso (nÃŖo demonstre demais, nÃŖo se entregue rÃĄpido, nÃŖo mostre suas vulnerabilidades, nÃŖo seja sincero demais).
Tudo parece ter se transformado em uma batalha de egos interminÃĄvel, um jogo de desinteresse em que vence quem demonstra menos. Lembro de ter lido que muitas vezes, nÃŖo buscamos aquilo que Ê seguro, mas aquilo que nos Ê familiar. E penso que existe uma tristeza enorme nisso.
Pessoas que aprenderam, em algum momento da vida, que amor Ê ausÃĒncia, instabilidade, dÃēvida. Que alguÊm sumir e voltar pode parecer mais familiar do que alguÊm que simplesmente fica. Que a tensÃŖo, a espera e a incerteza podem ser confundidas com paixÃŖo porque foi assim que, em algum lugar, o corpo aprendeu a reconhecer o amor.
EntÃŖo repetimos padrÃĩes sem perceber. Corremos atrÃĄs de quem nÃŖo se compromete, nos prendemos a quem oferece migalhas de presença e confundimos ansiedade com intensidade. NÃŖo necessariamente porque queremos sofrer, mas porque, à s vezes, o que nos machuca tambÊm Ê aquilo que reconhecemos.
E talvez seja esse um dos retratos mais tristes dos amores lÃquidos, tanta gente procurando afeto, mas tambÊm procurando validaÃ§ÃŖo. Tanta gente querendo ser escolhida, desejada, confirmada, enquanto protege o prÃŗprio ego de qualquer responsabilidade emocional. E assim o ciclo continua. Um se afasta para nÃŖo parecer interessado, o outro se cala para nÃŖo parecer vulnerÃĄvel, alguÊm desaparece, alguÊm volta, e todos fingem que nÃŖo sentiram tanto assim.
Eu me sinto despreparada para esse jogo.
NÃŖo porque eu nÃŖo entenda as regras, mas porque eu nunca quis jogar. Nunca quis transformar afeto em estratÊgia, vulnerabilidade em fraqueza ou interesse em algo que precisasse ser escondido.
Eu ainda acredito que gostar de alguÊm deveria poder ser uma coisa simples. Que demonstrar nÃŖo deveria significar perder. Que permanecer deveria ser mais bonito do que provocar a falta.
Talvez eu seja ingÃĒnua. Talvez eu tenha nascido em um tempo errado para o tipo de amor que desejo.
Mas, se amar exige que eu finja nÃŖo me importar, esconda o que sinto e me torne indiferente, entÃŖo talvez eu realmente nÃŖo tenha nascido para esse jogo.
E, sinceramente, eu me recuso a aprender a jogar.