—Seu cabelo tá mais claro.
—É, eu pintei. A moça falou que esse tom ficaria melhor.
—Ficou bonito —eu disse, tocando as pontas dos cachos. —Melhor assim.
Ficamos nós duas sozinhas na cozinha. Fingi que ia pegar algo na despensa, depois mudei de ideia e voltei. Vagava pela casa feito uma última lembrança, alisando os móveis, analisando coisas sem pretexto algum. Senti o rosto queimar com lágrimas que pediam para descer, mas segurei firme.
Então é assim? Me falaram do Tempo. Eu o saudei, esperando que me tornasse alguém diferente, suavizasse os traços do corpo e da alma, me entreguei a ele. Agora esperava que tivesse me curado, mas não tinha sido o caso. Acontece que o tempo não age —só aplaca.
—Você acha que sua avó vai querer mais bolo?
—Não, está bom. Obrigada.
Os segundos, os dias, os meses… Sempre engolem tudo. Mas a dor, esta não está diminuída, apenas se amorteceu. Não foi com você, pensei, amargurada. Não foi com você, não foi em você. Nunca seria. Antes pensava em minha garganta como com um rasgo, este esperando a dádiva de alguma justiça oculta. Agora…
Era isso, o nada? O oco de um pequeno bicho pulsando impune, mas ainda assim muito fraco. Não adianta voltar a certas brigas. Escorrer em mim mesma fora minha única válvula de escape, mas não fazia mais sentido.
Eu sou você, recitei para mim mesma.
Eu sou você. Eu sou você. Eu sou você, e me vi naquela posição, daqui há vinte, talvez trinta anos.
Certas lágrimas são mais difíceis de conter que outras.