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Existem dores que não cicatrizam, elas se tornam abismos que sangram sem trégua, onde nem o acalento de novos amores consegue estancar o fluxo. É uma guerra constante dentro de mim, uma mente que luta contra o próprio corpo, retorcendo-me por dentro. Sinto o estômago contorcer em uma ânsia muda, um grito que não encontra saída enquanto minha cabeça gira num looping incansável. Meu corpo, em silêncio, suplica pelo fim, ele me pede para parar, para deixar de tentar estancar esse sangue que insiste em escorrer quente para fora de minhas veias.
Mas meu coração, cruelmente teimoso, ainda implora por mais uma tentativa. Só mais uma.
Seria infinitamente mais simples desistir, abrir mão da minha existência apenas para te libertar do peso que sou. Estou exausta. Minhas olheiras não me permitem mentir, meus tics nervosos não me deixam disfarçar o colapso iminente. E, mesmo quando minha boca desenha um sorriso para o mundo, meus olhos insistem em inundar e transbordar. A garganta se fecha num nó que sufoca, o coração falha o compasso e o estômago revira, alimentando-se apenas do vazio.
Não como, não durmo, não me levanto. Permaneço imóvel, sentindo a ferida arder, o sangue encharcando os lençóis e as lágrimas derretendo o travesseiro. No escuro, a única coisa que resta é o eco da minha mente gritando que nada, absolutamente nada, ainda vale o esforço.
— Anne.R, de papel.
As verdades mais cruéis são aquelas que nos obrigam a encarar o abismo, enquanto as mentiras, essas que inventamos para nós mesmos, são o único conforto possível para mentes que já não sabem como estar inteiras.
Mas você chegou. E, de uma forma violenta e inesperada, você me obriga a abandonar a segurança das minhas ilusões. Você não me permite mais o conforto do engano, você me força a olhar para cada caco, para cada fragmento destruído que eu escondi no escuro. Por sua causa, sinto o desejo perigoso de tentar colar esses pedaços, mesmo sabendo que a cicatriz será o único mapa da minha sobrevivência.
Agora, a lucidez me persegue com uma força que eu não pedi. Estou, neste exato momento, suspensa em uma dualidade que me corta: não sei se desejo o alívio de me entregar inteira a você, de tirar sua roupa e me perder no seu toque, ou se a minha única saída real, o único fim definitivo para essa dor, é tirar a minha própria vida.
— Anne.R, de papel.
Mariusz Lewandowski (1960–2022), “Melancholy II”
oil on canvas, 2016 — source

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Notas sobre a desintegração do "Eu"
Parte 3: O Estrangeiro no Abraço
Procuro no fundo da minha própria alma um motivo para manter a estrutura, para ser a pessoa forte que esperam que eu seja. Mas, quando a luz apaga, o que resta é o eco de um vazio solitário.
Você está aqui. Você me toca, me abraça, me beija, me deseja, me coloca em um pedestal que acredito não merecer. Enquanto sua pele pressiona a minha, eu sinto uma distância oceânica, é como se houvesse um vidro espesso entre nós que me impede de senti-lo por inteiro. Você vê uma mulher, mas o que habita esta pele é um ser que não conhece o código humano.
Sinto-me perdida, uma estranha em trânsito, alguém que nunca recebeu o manual de instruções de como habitar o próprio corpo.
Sou um extraterrestre observando a rotina de seres humanos comuns com uma fascinação distante. Eu não me encaixo nos seus ritmos, nos seus planos, na lógica do que é "viver". Enquanto você pisa no chão firme da rotina, eu sinto que estou flutuando.
Estou à deriva, suspensa no vácuo do espaço. Em volta de mim, planetas gigantescos e estrelas que queimam com uma luz fria e indiferente. O seu toque, por mais caloroso que seja, não consegue me puxar de volta para a órbita da Terra. Eu sou poeira estelar perdida em um mundo feito de concreto e expectativas. E o mais aterrorizante? Eu não tenho certeza se quero ser resgatada.
— Anne.R, de papel.
Notas sobre a desintegração do "Eu"
Parte 2: Desabafo na insônia, a madrugada devorando o que restou de mim
O quarto está mergulhado em uma penumbra que parece pesar toneladas. Não há descanso, apenas o zumbido incessante de pensamentos que se recusam a dormir. Meus olhos buscam um ponto fixo no teto, mas o que encontro é o reflexo da minha própria agonia.
A insônia não é apenas a ausência de sono, é o ruído de um motor que não sabe desligar. Mesmo nos momentos em que tento forçar a sanidade, essa voz rasteja pelas sombras para me cobrar o preço das minhas dores. Ela não me deixa esquecer a geografia dos meus erros, o inventário das falhas, a crônica de tudo que destruí. Cada lembrança é uma lâmina que me lembra: você é fraca, você é o caos.
Sento-me na cama, o corpo ancorado por um peso que ignora as leis da gravidade, o peito contraído pela angústia claustrofóbica de ser a única alma acordada enquanto o mundo lá fora se permite descansar. E, no vácuo da madrugada, sussurro para o nada, uma prece rouca, invocando alguém, real ou não, que possa, enfim, testemunhar este silêncio e decifrar o caos que me habita.
— Eu sonhei com a leveza, com felicidade... Queria ser como o ar, como alguém que não carrega o peso da própria história. Mas o monstro que habita o meu interior não permite o perdão. Ele coleciona cada cicatriz na minha pele, cada lacuna em minha memória, como se fossem troféus de uma guerra que eu perdi.
Pego uma folha de papel, a mão trêmula busca um sentido. As lágrimas queimam, um rastro de fogo que o rosto não consegue conter. Elas pingam, pesadas, sobre o papel.
A tinta se expande. As letras que eu tento formar para me explicar... elas sangram, se distorcem, se desfazem. Como eu.
— Dizem que o recomeço é uma dádiva. Mas para recomeçar, eu precisaria morrer mais uma vez. E eu estou exausta, entende? Cansada desse ciclo maldito de morrer apenas para ser obrigada a renascer e assistir, de camarote, à minha própria ruína sendo reencenada num ciclo que já não me cabe.
O papel manchado é o espelho do que restou.
— Estou cansada de morrer. E, desta vez, não tenho forças para me mover ou mudar nada.
— Anne.R, de papel.
Notas sobre a desintegração do "Eu"
Parte 1: O monólogo da estranha no espelho
Diante do espelho, a luz é fria. Não encontro um rosto, apenas a geometria da exaustão. Meus lábios tentam um sorriso, uma simulação mal feita que morre antes de chegar aos olhos. Então, a voz escapa. Não é minha, é um mecanismo autônomo que vomita verdades que eu mal consigo processar.
— A vida é um espelho infinito, um ciclo de engrenagens oxidadas que mói os dias em uma tortura estática. Estou presa neste looping, observo a mim mesma definhando, enquanto a realidade se desfaz como tinta sob a chuva.
Inalo o ar rarefeito. O silêncio da casa não é vácuo, é uma pressão que me esmaga os tímpanos.
— As noites são arquiteturas de nada, planos que colapsam antes da aurora. E as manhãs… chegam como cinzas. O silêncio é uma lâmina serrilhada que me fatia em silêncio. Sinto a ansiedade, essa eletricidade metálica, vil, percorrendo cada nervo, me lembrando, com uma crueldade metódica, que ainda estou presa neste espaço.
Meus dedos tocam o vidro, as unhas arranham o frio da superfície. O reflexo mostra um corte, um filete de sangue que parece vir de outro alguém.
— Eu me perdi. O labirinto não é um lugar para onde fui, o labirinto é o que eu me tornei. A entrada fechou-se há eras, o caminho de volta foi apagado da história. Selada. Condenada à minha própria dor.
Uma lágrima trai o controle, mas o olhar permanece estático. Sou um vídeo em pausa, um frame suspenso em um tempo que não flui.
— O vazio, aquele monstro que antes me fazia chorar, hoje é meu convidado de honra. Divido meu oxigênio com o nada. Deixo que as vozes esculpam o que sobrou de mim até não restar nada daquela menina que acreditava na luz. A desintegração é completa.
Fico imóvel. Apenas os lábios ditam o ritmo da ruína. Aguardo, em uma transe de agonia, o que mais resta ser expelido.
— Fui fragmentada até perder o contorno. Sou apenas um esboço mal acabado, uma colcha de retalhos de alguém que nunca existiu. Onde guardava sonhos, hoje armazeno a fadiga de apenas existir. Meu corpo, este hospedeiro em decomposição, tenta me expulsar, enquanto eu, exausta, observo a cena.
Abaixo a cabeça. O espelho finalmente me devolve o silêncio. As últimas palavras são o corte final.
— Estou definhando no caos. Que o amanhã se recuse a nascer, ou que, se vier, traga o fim definitivo deste labirinto. Sou uma estranha habitando a própria pele, um eco esquecido no fundo de um abismo que, um dia, com uma arrogância infantil, eu chamei de "eu".
— Anne.R, de papel.

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Sou sua em cada detalhe, em cada gemido e em cada marca. Me maltrata, me fode com força, me faz lembrar que não existe nada além de nós dois.
Tudo o que eu sinto termina sempre no mesmo lugar: na urgência insana de ter você me possuindo. Sem pressa, sem juízo, com toda a força que você tem eu estou pronta para ser sua, da forma mais crua e intensa possível.
— Anne.R, de papel.
O que eu quero de você.
O mundo para no segundo exato em que você entra em mim. É um encaixe visceral, uma invasão que silencia tudo. Você me toma com uma posse que me arrepia, me apertando como se quisesse me marcar ou garantir que eu não vá a lugar nenhum.
Nessa troca desenfreada, onde a gente se funde e se perde, um jogo violento e necessário, onde um não consegue mais soltar o outro. Eu sinto cada centímetro. A dor deliciosa do impacto a cada estocada, as força das suas mãos e os tapas que me marcam e me fazem vibrar, meus dentes na sua pele, mordendo e puxando, querendo você cada vez mais.
É um desejo enlouquecedor, cru, onde meus gemidos e gritos se misturam ao som dos nossos corpos colidindo. E eu quero esse contato cada vez mais forte, cada vez mais rápido, cada vez mais fundo. Estou aqui, à sua mercê, esperando por aquele instante definitivo: a fome insana de sentir você explodir dentro de mim, de sentir seu gozo me inundar até me deixar, finalmente, entregue à inércia total que só você poderia me fazer alcançar.
— Anne.R, de papel.

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Você pergunta onde foi que erramos
E eu passei essa madrugada acordada pensando em uma resposta entre os fragmentos de memória que me restaram daquela época, procurando como quem revira uma casa abandonada em busca de um objeto que já não está lá. Achei risos, lágrimas, promessas, noites inteiras de conversa e muitas cicatrizes que o tempo não soube curar.
Talvez não tenhamos errado em um instante específico. Talvez tenhamos sido arrancados um do outro num único golpe de um mar revolto, tão repentino que passamos anos chamando de tempo aquilo que foi apenas um naufrágio. Como dois navegantes observando o mesmo horizonte, incapazes de compreender que certas perdas não acontecem aos poucos, elas se afogam de uma só vez e passam o resto da existência nos puxando para o fundo, enquanto tentamos, entre um afogamento e outro, alcançar o ar que nos faltou naquele dia.
Você fala dos meus olhos como se ainda guardassem a mesma magia, mas eu os vejo diferente. Vejo neles todas as versões de mim que precisei abandonar ou reconstruir para continuar existindo. Algumas ficaram com você, outras desapareceram pelo caminho sem sequer se despedir, morreram em silêncio, tão lentamente, que quando percebi já haviam se tornado irreconhecíveis para mim, eram apenas ecos dentro da minha própria memória.
E ainda assim, quando penso em nós, não consigo mais sentir toda aquela raiva que nutri por tanto tempo. Sinto algo mais estranho que não se parece com tristeza nem ausência, nem dor e nem amor, mas ainda assim continua ali. É como observar uma estrela morta que continua atravessando a escuridão mesmo depois de seu fim. A luz ainda chega até meus olhos, mesmo que a origem já tenha partido há muito tempo.
Talvez seja isso que algumas pessoas dizem sobre o amor quando ele atravessa a nossa vida. Ele não permanece inteiro dentro de nós, mas também nunca parte de verdade. Talvez eu tenha passado tanto tempo tentando entender a sua ausência que não percebi o que realmente havia se perdido. Não era você. Era a pessoa que eu era antes de tudo acontecer.
E se um dia o mundo realmente acabar, como você diz, espero que encontre mesmo no último instante a paz que procurava nas estrelas, na lua e no mar.
Eu a procurei dentro de mim, mas ainda não há encontrei. Mas, se você estiver errado e o mundo não acabar nos próximos minutos, quem sabe? Talvez, em algum segundo inesperado, possamos encontrar juntos esse tal amor, essa tal paz, esse algo sem nome que deixamos escapar entre os dias e que, desde então, carregamos perdido dentro de nós. Algo que nunca deixamos de procurar. Algo que a vida levou de nós antes que tivéssemos aprendido a guardá-lo.
— Anne.R, de papel.
“Teus olhos são nostalgia que emanam magia pura. O tempo olha-nos como amantes solitários. Poderia ele voltar e consertar as coisas? Poderia. Em nossas vidas somos apenas viajantes. O amor bateu a nossa porta há exatamente o tempo certo. Hoje eu vejo teus olhos novamente como na primeira vez em que nos amamos. Perdoe-me, mas onde foi mesmo que erramos? As estrelas não me dizem a verdade, tão pouco a lua. O mar do amor está revolto para novos navegantes. Somos dois tolos esperando o mundo acabar. Você sussurra em meu ouvido; eu sempre fui sua! Faço promessas eloquentes como nos tempos de amantes. O horizonte nos pergunta; onde será que vamos acabar? O mundo esfriou e as manhãs não tem mais sol. Será que podemos viver sem um coração? A chuva cai toda noite para me fazer companhia. Mas ela só me matem acordado tentando domar essa agonia.”
—