Há anos um naufrágio vivia rodando os setes mares. Alma pobre desejando lares. No meio do mar havia um felino, astuto e quase divino. Misterioso Gamas, velho e preto. Viveu como ninfeto. Em busca de sua juventude sob à luz de Diana, miava para voltar à sua terra baiana. Mas antes, ia de encontro à fonte que lhe entregará vida eterna, não queria ajuda com medo de lhe passarem a perna. Para um velho gato de que serve ir atrás de uma figura materna? Depois de tanto miar até se rasgar, logo à frente a sua caverna. Por falta de leitura, o felino faltou com bravura. Na fonte esbarrou com sua amante, esposa de Dante. Foi tão forte os seus miados que em pranto morreram assustados. Pobre gato velho e cansado não fez nada de caso pensado. Sem a fonte, sem naufrágio, morrerás tão frágil.
Oh Gamas, por que não me amas?
Oh Gamas, não fique em chamas.
Esse é o gato mais sortudo do mundo, aproveitou suas sete vidas e apenas quatro ficaram comprometidas. Mas qual intuito de ansiar por tantas chances, sendo que o mundo é pequeno e o velho já visitou todos os lugares? Talvez ele ainda estava querendo conhecer os mares, o pobre Gamas sempre foi de honras peculiares. Bem que eu digo para os meus familiares, "Não adianta querer viajar altos-mares. Nem tudo existe para preenchimento de lugares", digo sorrindo com muita saudade, sigo sorrindo com vulnerabilidade. Medo eu tenho de encontrar Gamas, por toda esquina me ascende chamas. Choro pelas noites de luto, por todas as mortes eu fico puto. Não compreendo tanta falha então prefiro voar pra longe sem pegar uma tralha. Minha outra família não me procura, pois sempre tratei-os com muita secura.
Agora estou mais calmo, mas me desalmo em minha defesa. Vou à Bahia atrás de Baronesa, falarei com ela sem nenhuma braveza. Quero meu gato vivo e só ela poderá me ajudar, no meio de tanta tristeza ainda há um trecho a brilhar. Pedirei com calma por todas as almas, que cada miado que eu não seja sentenciado. O machuquei algumas vezes sem pensar nas consequências, todos os dias eu peço para que isso acabe, por um fim que tudo desabe. Não consigo imaginar como foi para Gamas ter que lutar e com feras ele teve que brigar, para no mínimo meu coração ganhar. Ah, se ele soubesse o quanto isso me amolece, não teria ido pra longe, mas o hábito não faz o monge.
Se ele estiver me ouvindo, falo sério exigindo. Volte pra cá, meu felino. Venha meu São Paulino. Renasça em outro Estado, mas não seja tão abestado. Ore por nós, caia em dominós. Volte para o lar e me mostre como é amar. Preciso de você pra aprender a voar, não quero pelejar, muito menos chorar, preciso de ti aqui para me ensinar, me motivar. Não posso, mas serei curto e grosso. Tenho que lhe entregar todo carinho para tu aprender a cantar, não ouso tentar tirar suas vidas para experimentar, prometo não cometer e o bem você vai me converter. Preciso saber se sou merecedor de um dia ser vencedor. Vou gritar e orar para Diana me guiar, por todos os galhos e soalhos. Vou lhe vingar sem me matar, vou lhe salvar sem machucar.
Canto esse texto pra que um dia você entenda, que para qualquer bruxa existe uma oferenda. Você me cantava ao miar, toda vizinhança chegava a chorar, seu peitoral quase explodiu com toda avidez de uma vida senil. Ontem matei, hoje chorei, mas sempre te amei. Meu naufrágio não foi por acaso, mal me desfaço. Sou um amontoado de coração magoado, digo em tom alto e claro para que um dia alguém me entenda ao ler essa lenda, que nada é como a gente quer, é tipo efeito-colher. Você pode lutar a vontade, dizer que não tem maldade, mas no final tudo se volta, você se revolta e o mundo desbota. Oh meu Gamas, sinto-te em chamas. Bem que minha mãe me dizia, "Se um gato preto lhe atender, grite a Santa Luzia. Berre o mais alto que puder, pois ela é uma mulher, sempre está longe demais pra ajudar um qualquer!" Obrigado minha mãe por me mostrar o que fazer, quanto o meu bem, querido Gamas aparecer, mas como de costume vou desobedecer, pois a fonte é nossa. Mesmo se eu não merecer. Gamas irá me perdoar e eu vou voltar a amar, tudo ficará normal novamente e o do naufrágio literalmente se tornará uma lenda. As crianças pedirão a Deus para não ouvir a história de vida do velho que esqueceu de ler o Evangelho. Desculpa ao meu gato que hoje enterro, todas as histórias que contei, de orgulho chorei, digo aos leitores que morro de amores por todas as dores que lhe causei.