Um texto antigo sobre sentimentos antigos que quero deixar registrado, como um diĂĄrio:
Estou apaixonada. Fazem anos, talvez, que isso nĂŁo aconteça- ou pelo menos nĂŁo desta maneira. Ă claro que, Ă minha moda, foi por um amigo. Acho que posso começar a histĂłria pelo primeiro semestre do ano passado, 2025. Estava no Brasil por um perĂodo mais longo do que o habitual pela primeira vez em muito tempo e tive a oportunidade de rever e reconhecer velhos amigos. Uma das pessoas com as quais acabei me encontrando bastante foi ele, apenas pelo fato de ele ser uma pessoa que sempre topa rolĂȘs por aĂ. SaĂmos de carnaval em carnaval, saĂdas aleatĂłrias andando de bicicleta de madrugada, ou atĂ© invadindo festas chiques de formatura.
De qualquer modo, no final de semana antes de sair do paĂs e ir estudar fora, fomos em uma festa junto com o alguns amigos. Esses amigos acabaram por sair mais cedo e eu e ele continuamos andando pela cidade universitĂĄria juntos, bĂȘbados rindo e conversando. Ele me levou num morro perto do instituto de fĂsica em que ele normalmente fica deitado. Ficamos lĂĄ por um tempo, batendo papo. Eventualmente ele começou a falar que gostava de alguĂ©m ou algo do tipo. Eu, meio entendendo que talvez pudesse ser algo mais, talvez cruelmente tentei redirecionar o assunto, em algo como âĂ, entendo!â
Continuamos, entĂŁo, a andar. O fim da noite se aproximava e o sol aparecia enquanto chegĂĄvamos perto do portĂŁo principal. LĂĄ, na rotatĂłria em frente ao ponto de ĂŽnibus, ele me disse que gostava de mim e que precisava falar por ele mesmo. Ele pediu milhares de desculpas por ter me falado isso. Eu, ainda em choque (um pouco amaciado pelo que aconteceu na fĂsica), falei que o via como amigo. Nunca tinha pensado sobre isso antes, nele desta maneira. Sentamos no ponto de ĂŽnibus e conversamos sobre. NĂŁo lembro exatamente o que, mas em algum momento ele começou a chorar. Algumas pessoas sentaram ao lado dele no ponto tambĂ©m. Ele me pediu que o deixasse sozinho, e assim o fiz.Â
Alguns dias depois, no voo, recebi uma mensagem dele. Uma mensagem se desculpando e dizendo que ao mesmo tempo que nĂŁo queria esquecer daquilo que aconteceu, por ser um momento importante de crescimento, queria saber se ainda podĂamos ser amigos. Respondi que sim, se ele estiver confortĂĄvel, tudo continua igual, que minha amizade sempre tem. TambĂ©m fiquei aflita pelos pedidos de desculpas constantes, acho, fiquei feliz com a parte da mensagem que ele reconheceu como algo importante da vida dele.Â
Meses e meses depois, em dezembro, fomos viajar para o interior juntos com alguns amigos. Fomos colocados no mesmo quarto com uma outra menina. E todas as noites, todos os dias, ficĂĄvamos batendo papo, atĂ© o sol nascer. Teve um dia que falamos atĂ© umas oito da manhĂŁ. Ele me falava sobre ele, sobre a vida dele, sobre como ele odeia nossa cidade e quer fugir, entre vĂĄrias e outras coisas que agora nem lembro mais. E aos poucos, acho, fui começando a gostar um pouco dele, ou como diriam os jovens, a desenvolver um crush.Â
Mas a minha inabilidade pessoal de separar sentimentos romĂąnticos e de amizade, meu desejo por nĂŁo gostar de amigos e o fato de que eu, e ele, nĂŁo vamos estar no mesmo lugar em um futuro prĂłximo me fizeram reprimir. Porque nĂŁo vale o custo do grupo de amigos, ou da prĂłpria amizade dele, os sentimentos dele.
No entanto, todas as noites, na minha percepção de alguĂ©m que gostava dele, chegamos mais perto e mais perto, trocando olhares com a luz da manhĂŁ que entrava pela janela. Na penĂșltima noite isso ficou extremamente claro, queria beijĂĄ-lo, tocĂĄ-lo, abraçå-lo, e acho que em algum momento ele inclusive se levantou, mas veio o lado consciente que oprime os desejos e eu disse âacho que estĂĄ tarde, vamos dormir.â
Paralelo a tudo isso o P, perceptivo e grande amigo, ficava conversando comigo sobre isso. Ele viu, sozinho, o que estava acontecendo por comentĂĄrios meus ou dele, talvez. E algumas vezes fez comentĂĄrios altos sobre, na frente dele, momentos os quais eu me reprimindo fiquei puta. No ano novo, andamos e conversamos bastante.
Na Ășltima noite, depois de jogar DnD, bebemos e fomos entrar na piscina. Bebados, toninhos, por algum motivo, comecei a falar com o P sobre isso. Falamos sobre ele, sim, sobre como eu gostava realmente dele. E de maneira mais geral sobre nĂŁo perceber sentimentos, ou perceber e reprimir. O P disse âPĂŽ, aĂ Ă© foda, quando vc percebe seus desejos vc vai lĂĄ e reprime!â E foi nesse momento que eu falei, bom, vou fazer isso, porque nĂŁo quero me arrepender depois, porque quero viver.Â
EntĂŁo eu dei mole. TambĂ©m conhecido como dei em cima. Toquei com as minhas pernas na sua, cheguei perto e eventualmente estĂĄvamos apenas os dois conversando sobre alguma coisa. Mas nesse momento tinha minhas pernas entrelaçadas nas suas, de costas contra a parede. E eu disse: âtĂĄ, e aĂ, vamos falar sobre isso?â NĂŁo foi a transição mais suave, ele se fez de bobo e disse âisso o que?â E eu falei, âisso que estĂĄ acontecendo agora, que esteve acontecendo nos Ășltimos dias, nĂŁo Ă© possĂvel que apenas eu estava sentindo a vibe.â E conversamos sobre isso, durante quase meia hora. Falamos sobre as coisas que tinham acontecido desde março, do que sentĂamos e do que ia acontecer depois. Eu nĂŁo lembro exatamente, estava tontinha, mas foi depois de muito tempo que nos beijamos. Nos beijamos por algum tempo, todas as outras pessoas saĂram por terem ficado meio desconfortĂĄveis, talvez (me sinto mal por isso). Meu cotovelo doĂa, raspando contra a borda da piscina. Fiquei com vergonha, percebendo que todo mundo tinha saĂdo, entĂŁo sugeri que saĂssemos.
Tomamos banho juntos, nada demais, banho mesmo. Mas depois fomos bater um papo de cinco minutos na cozinha com as outras pessoas, procurando comida (só tinha meio pedaço de panetone e eu dividi com ele). Foi estranho.
Fomos todos dormir, ficamos nĂłs dois. NĂŁo vou lembrar direito do que aconteceu, mas lembro de algumas poucas coisas- outras estĂŁo escritas no caderno vermelho. Lembro de ele ter o corpo quente dele, do beijo mais ou menos (segredo) . Lembro de como eu passei a mĂŁo nas suas costas e ele soltou um mini gemido, foi fofĂssimo. Lembro de ele ficar repetindo âque merda,â porque gostĂĄvamos um do outro mas aquilo seria o fim, aquela noite. Porque na semana seguinte ia viajar com meus pais e depois ir embora. âQue merdaâ pelo que nĂŁo aconteceu, mas poderia se fossem outras as circunstĂąncias. EntĂŁo por trĂĄs dessa noite, tinha uma tristeza escondida.
De manhĂŁ, abraçados, combinamos que era aquilo, que ali era o fim. Que sairĂamos daquele quarto e nada iria mudar, voltarĂamos a ser amigos. Fingi normalidade, ele nĂŁo. O clima ficou estranho, todos querendo fazer piadinhas ou curiosos sobre o que aconteceu, ele ficou quieto e estranho.
Fomos embora, eu,o P e mais algumas amigas. Contei para eles toda essa histĂłria, com menos detalhes. Mas tinha esquecido minha bolsa tĂ©rmica- e ele, o menino q eu gosto, levou lĂĄ em casa algumas horas depois. Na rua, ficamos batendo um papo rĂĄpido de maneira estranha, rindo da situação. Ele me perguntou se podia me beijar e eu disse que sim. E, no meio da rua, sob olhar do porteiro, nos beijamos.Â
Naquela noite, enquanto nĂŁo arrumava a mala, comecei a escrever sobre isso no caderno vermelho, sobre toda essa experiĂȘncia. E, no chĂŁo do banheiro, comecei a chorar. Chorei por horas, porque percebi que gostava dele, de verdade. Em algum momento eu liguei para o P. Mas doĂa bastante, o fato de gostarmos um do outro mas nada pode acontecer. E eu mandei uma mensagem, egoistamente, que acabei apagando.
Fui viajar com meus pais, acompanhada de trĂȘs chupĂ”es. E foi difĂcil, estava triste, acho, ouvindo mĂșsicas de amor. Mas ainda meio que falando com ele. Em uma noite, liguei para ele. Falamos por algumas horas, sentados na rede. Uma coisa que aconteceu tambĂ©m foi que recebi uma mensagem do G,um outro amigo que estava na viagem e ele me contou que o menino em questĂŁo nĂŁo tinha falado nada para eles no carro enquanto eles voltavam do interior, ele sĂł sofreu bullying por duas horas. Por que ele Ă© assim. Ele Ă© um fofo. Eu realmente o respeito por isso, ele Ă© uma pessoa boa. O G disse tambĂ©m que estĂĄ contente, porque raramente vĂȘ ele sorrir assim, por motivo nenhum.Â
Na viagem eu percebi que teria um dia e meio na minha cidade, e resolvi marcar um rolĂȘ. Com bolas gigantescas eu perguntei se ele sairia comigo em algum horĂĄrio que o grupo de amigos nĂŁo marcar. Ele disse que sim.Â
Cheguei em casa e imediatamente fui encontrar com os manĂ©s do grupo de amigos. Eles foram para casaÂ
(à um novo dia, preciso estudar história para a prova amanhã de manhã, mas não consigo, continuo com ele na cabeça)
Como a gente tinha muitas pessoas, fomos alguns de nĂłs no porta-mala: eu, ele e mais duas pessoas. EstĂĄvamos um do lado do outro, e Ă s vezes, com bastante vergonha, eu pegava na mĂŁo dele, entrelaçando dedos. Mas meio com medo, soltava? Ele me zoou, mas tambĂ©m nĂŁo agiu (entĂŁo nĂŁo tem moral para fazer isso!). Chegamos em casa e ficamos lĂĄ todos conversando, bebendo, jogando cartas. Ao longo da noite a vergonha foi um pouco indo embora? Conversamos com uma outra menina, que nĂŁo sabia de nada, e ela disse que percebeu assim que eu cheguei para encontrar com eles que tinha algo rolando (acho que Ă© mentira, mas ele falou que ficou incrĂ©dulo!). De qualquer maneira, eventualmente fomos para a cozinha com o chĂŁo de madeira, e ficamos conversando com as outras pessoas. Com vergonha ainda, peguei a mĂŁo dele, escondendo atrĂĄs do balcĂŁo, como se ninguĂ©m fosse ver. Sentamos depois de um tempo no mesmo banco- acho que aĂ meio que pouco importava. O sol nasceu.Â
Depois de organizar a sala (eles me ajudaram, fico feliz), todos foram embora. Ele ficou. Fomos para o meu quarto. NĂŁo sei muito bem tambĂ©m o que rolou, mas assim que entramos no quarto e fechamos a porta (inclusive como eu nĂŁo tenho chave, sĂł colocamos uma maca que estava lĂĄ contra a porta) ele me deu um abraço forte e disse algo como âvocĂȘ nĂŁo faz ideia de como senti sua falta.â Acho que eu quase morri (e atĂ© agora escrevendo). Mandei mensagem para a minha mĂŁe que um amigo ia dormir em casa e acho que fomos dormir mesmo.Â
Fico em dĂșvida, inclusive, se ele dorme ou nĂŁo, porque eu durmo fĂĄcil, mas ele jĂĄ falou que tem problemas para dormir. Mas eventualmente, em algum horĂĄrio pela manhĂŁ (fomos dormir jĂĄ estando claro, nĂŁo sei se existe noção de tempo), ficamos deitados, abraçados por muito muito tempo. Tentamos fazer umas coisas (mas nĂŁo deu muito certo kkkkk), mas tudo bem. Teve um momento, tambĂ©m, que eu deitei em cima dele e apoiei o queixo na minha mĂŁo que encostava no peito dele. E sĂł ficamos nos olhando, acho, por um curto longo perĂodo de tempo. Ele sorriu (e eu puxei a bochecha dele).Â
De conchinha, eu com as costas para ele, eu chorei duas vezes. Uma delas ele viu. Ele Ă© um fofo.Â
Uma outra hora eu perguntei: âEu tambĂ©m nĂŁo sei a resposta, tendo achar que nĂŁo, mas acho que me arrependeria se nĂŁo perguntasse, mas vocĂȘ consideraria algo a distĂąncia?â Ele respondeu algo como âCara, acho que nĂŁo. Eu cheguei a pensar sobre isso tambĂ©m, mas acho que quero minimizar sofrimento. Porque quando ligamos quando eu estava viajando foi legal, mas doeu.â NĂŁo posso falar nada sobre isso, acho, e nem sei se queria algo alĂ©m da amizade, mas acho que fiquei mal com isso.
Tive que arrumar a mala, porque ainda não o tinha feito horas antes do voo. Saà da cama e comecei a organizar coisas. Mas sentada no chão, tirando coisas do armårio, encostei nas pernas dele (ele estava sentado na borda da cama me fazendo companhia) e as abracei. De maneira meio engraçada, tocando nos bolsos do shorts dele sem querer, ouvi um barulho de plåstico. Perguntei o que era. Era camisinha. E ele ficou com vergonha ao me falar isso.
Depois disso tentei mais uma vez arrumar a mala, levantei, abri a mala no chĂŁo e comecei a enfiar coisa dentro. Virei de costas para ele para colocar algo na mala e levantei para pegar a prĂłxima coisa. Mas entre essas açÔes, olhei para ele. E ele perguntou âque foi?â Abaixei sem pensar muito com as costas viradas para ele e ele deu um tapa na minha bunda. Achei dahora mas ele ficou cheio de vergonha depois kkkkk. Acho que meio depois disso desisti totalmente de fazer a mala e sĂł deitei com ele abraçado na cama. Deitei entre as pernas dele, com as costas apoiadas no peito. Eventualmente comecei a rir de algo aleatĂłrio, nĂŁo lembro exatamente, mas ele achou que eu estava rindo sobre o pau dele estar duro. Nem tinha notado atĂ© ele falar algo como ânĂŁo Ă© algo que eu controlo.â AĂ eu olhei para baixo e vi, marcado contra o shorts. Ele falou âpara de olhar para minha pica!â Esse foi outro momento engraçado.
E ele teve que ir embora, porque eu realmente tinha que arrumar a mala. E foi isso.Â
Continuamos nos falando, todo dia. Hoje, o dia inteiro. E aqui estou eu, apaixonada, nĂŁo estudando histĂłria para a prova de amanhĂŁ e pensando o que vou fazer.
Porque estar apaixonado é dahora, eu me sinto sentindo coisas, fico feliz quando vejo notificaçÔes dele no celular, ou quando ele fala algo aleatório sobre o dia dele. Mas fico frustrada também, de estar longe, de que somos amigos, de que talvez eu seja a pessoa insistindo, apaixonada sozinha. Eu sei que provavelmente não, que ele também ainda gosta de mim. Ele manda mensagem e responde råpido. Mas não sei se ele começa conversas (talvez seja só a maneira de ele interagir com as pessoas). E eu não posso falar nada, porque somos amigos.
















