Era quase como um ritual. Nas noites de lua cheia, Ambrosia ficava contemplando esta por horas. Nunca entendeu sua obsessão pela lua, mas sempre fora assim. Em Hogwarts, a garota gostava de observar a lua na ponte ou perto do lago. Olhou-se no espelho, penteando os cabelos, decidindo qual lugar escolheria. Lago. Foi uma resposta instantânea, e ela ficou feliz por não ter que pensar demais sobre isto. Sua cabeça já estava cheia de coisas, a maioria delas ruins, não queria arranjar um problema por algo tão simples como um local para ver a lua. Após colocar o colar que sua mãe, Astoria, costumava usar, pegou seu suco de abóbora, seu cobertor e saiu de seu quarto, atravessando a Sala Comunal da Sonserina e todo o castelo silenciosamente.
Estar fora do castelo, para ela, era ótimo. As vezes, sentia-se muito sufocada naquele quarto, uma das coisas que incomodava-a em Hogwarts. Outra, era o nome de sua família. Mas, no fundo, Ambie acreditava apenas que incomodava-se com ela mesma. Sentia, muitas vezes, que era como Draco, e isso dava-lhe um arrepio na espinha. Amava o pai, mas não poderia discordar de que ele tinha uma personalidade um tanto quando… excêntrica. A garota desejou por um momento parecer com sua mãe não apenas fisicamente. Ela era tão doce, gentil, e para Amb, perfeita.
Quando chegou ao lago, sentou-se na grama encostada em um tronco, enrolou-se no seu cobertor e tomou um gole de seu suco. Ela adorava coisas feitas de abóbora. Lembrava muito sua infância, e Ambrosia definia como a melhor fase de sua vida. Ficou em silêncio, suspirando e observando a lua por alguns minutos, mas logo foi interrompida por sons de passos, qual fez a morena pegar sua varinha instintivamente.
Era mais uma daquelas noites. Mais uma daquelas noites em que o sono simplesmente não vinha; e quando vinha... trazia consigo o rosto inerte de Aimée, a vida dela lhe escorrendo por entre os dedos. Já se passava vários meses desde o acontecimento, mas o mesmo ainda estava gravado fundo no coração de Adrien como se nunca fosse sair dali. O quarto parecia-lha mais e mais abafado, pesado, quase lhe caindo em cima e pressionando o seu peito contra a cama, impossibilitando-o de respirar. A lua cheia, lá fora, enchia a divisão de reflexos prateados que serpenteavam e se moviam consoante o ar fresco se fazia sentir. Precisava de sair dali. Precisava de respirar o ar fresco do Dezembro escocês que lhe gelava o sangue de uma forma tão reconfortante como se estivesse de volta à Holanda.
Levantou-se e cobriu os ombros nus com o pesado manto da corvinal que começava a encarar cada vez mais como seu. Pensou em sair dali somente assim, mas o vento uivava suavemente junto à sua janela e isso significava que do lado de fora do castelo, estaria muito pior. Não nevava, nem sequer corria chuva ligeira... estava exatamente o estado de tempo que Adrien mais adorava: frio e seco. Pegou no cobertor da sua própria cama e pousou-no braço, carregando-o escada abaixo até à sala comum. A fogueira ainda crepitava levemente, com brasas baixas que enchiam a sala de um fumo fino, e lhe conferiam um tom acinzentado. Adrien não olhou sequer para trás. Sabia que se se deixasse adormecer na poltrona da sala comum com aquele cheiro a cinza, os seus pesadelos seriam ainda mais intensos.
Continuou a descida até ao exterior do castelo num passo certo e pesado, não parando sequer para dar um “lumos” na varinha; fê-lo enquanto caminhava. Se alguém o observasse naquele momento juraria que ele estava indo em direção ao lago com algum propósito, mas não. Adrien só queria respirar fundo, não pensar, abstrair-se dos seus próprios pensamentos e viver sem culpa. Estava se aproximando da água profunda quando viu uma sombra junto a uma árvore. Aproximou-se sem medo, ainda que com a mão dentro da manga do manto, junto ao punho da varinha. Era uma menina: cabelos escuros, olhos profundos como a água do lago, um cobertor como o dele sobre os ombros e um colar de pérolas que não deixava margens para dúvidas. Ambrosia Malfoy.
Ofereceu-lhe um sorriso sem pensar. Com certeza não esperava vê-la ali. “Não há um horário de recolher neste castelo? Principalmente para meninas de quinto ano?” Encostou-se à mesma árvore que ela, ainda que de pé, obrigando-a a olhar bem para cima para o ver adequadamente.