Não queria ser mal agradecido. Apreciava todos os esforços de Abraham para mantê-lo longe das mais diversas encrencas. A verdade era que ele não queria seu melhor amigo travando as mesmas batalhas que ele. Muitas dessas batalhas eram ocasionadas pelo comportamento agressivo de Isaak, que não costumava deixar qualquer provocação passar batido - por menor que ela pudesse ser. Sabia que Rogers não conseguia evitar e que, provavelmente, se magoaria com as palavras usadas pelo mais velho para afastá-lo desse tipo de situação, mas elas eram necessárias.
Não queria Abraham no meio de suas brigas porque preferiria ir para o hospital a vê-lo machucado por sua culpa, tão simples quanto isso
“I just…didn’t want you involved in my shit.” Argumentou, provavelmente numa tentativa quase nula de melhorar o suposto humor do amigo. E estava sendo sincero, esperava que ele o entendesse. Só que no fundo sabia que Abraham nunca pararia de ajudar ele sempre que se envolvesse nesse tipo de situação. Era o jeito dele e era essa uma das características que fazia com que Barnes o admirasse tanto. Era o que tornava Abraham tão especial e único, mesmo não gostando de vê-lo em perigo, ele provavelmente nunca conseguiria mudar isso. Nem toda a sua arrogância e orgulho conseguiria afastá-lo e isso o tornara o seu melhor amigo e ponto de paz em meio ao caos de sua vida.
“Não me importaria de estar no hospital desde que você estivesse seguro, Rogers.” Suas palavras sairam altas e firmes, como se quisesse soar o mais convicto possível diante de sua argumentação. Mesmo sabendo que a irritação dele consigo fosse passageira, não conseguia não se sentir incomodado por tê-lo magoado. A certeza disso veio quando a mão de Abraham pressionou seus ferimentos mais forte que o habitual, deixando uma careta se formar no seu rosto. “No hospital pelo menos não teria ninguém bravo comigo, se for analisar a sua atual expressão.” Seu tom era o mais leve que conseguia soar, querendo amolecer a postura do mais novo, sem deixar de irritá-lo de certa forma.
Isaak esticou os braços ao notar que o amigo tinha uma pomada em mãos, tentando facilitar o trabalho de Rogers ao encontrar seus hematomas. “Infelizmente, o alvo não foi só o rosto”, analisou enquanto sentia os dedos do rapaz abaixo de seus olhos. A aproximação deixou os músculos de Barnes tensos e o fato de que o dedo do amigo estarem tão próximos de seus olhos o impossibilitava de olhá-lo do jeito que queria devido a seus reflexos inatos. A mudança de expressão não passara despercebida pelo moreno. Aquele sorriso contido ameaçando aparecer em seus lábios fazia o seu coração acelerar sem qualquer precedência e aquecia todo o seu corpo instantâneamente.
“Não posso rir?” Fingiu certa incredulidade enquanto frazia o cenho, sentindo-se ridiculo por Rogers ter notado aquilo. “Vai querer brigar comigo por isso tambem? Vai acabar roubando o meu posto de briguento desse jeito.” Um sorriso sincero atravessou o rosto quase sempre tenso de Isaak. Procurou se desviar do questionamento de Abraham, sabendo que jamais teria coragem de admitir que a maioria de seus sorrisos mais sinceros tinham ele como motivo.
O que se não dizia sobre Steve Rogers é que era homem extremamente teimoso e o que não se dizia sobre Abraham Rogers é que também o era. Por mais que temesse por não concordar com tudo o que ele fazia ou sua postura sempre, puxara o pai de várias maneiras, e embora não fosse particularmente teimoso com as próprias coisas e até mesmo tivesse desistido de várias, nunca desistia de seus amigos ou de lutar pelo que acreditava; para o azar de Barnes, neste quesito, ele acreditava nele e não tinha intenção nenhuma de ceder. A sobrancelha arqueou-se, portanto, diante da justificativa apresentada e, como sempre parecia ocorrer na presença alheia, seus olhos se reviraram.
“You do realize I can make my own decisions, right? Eu não me meto em brigas por me meter e nem você devia, mas eu sou perfeitamente capaz de escolher pelo que eu quero lutar. Eu posso não gostar do jeito que começou... Mas era o certo, e eu não podia deixar você apanhar muito. Você ia ficar insuportavelmente mau humorado depois, Isaak.” Ele informou, sua expressão mais séria, atenta aos detalhes do rosto do melhor amigo como quem lia mapa pela primeira vez, buscando fazer-se ouvir pelo rapaz e, bem se isso não desse certo, talvez algo mais em sua língua fizesse. “Your shit, troublemaker, is my shit.” E foi então que, finalmente, o sorriso beirou os lábios em enviesar mais contundente. Afinal, poderia ele não sorrir quando as palavras alheias ecoavam agora em sua mente.
A verdade é que ele podia contar nos dedos das mãos, confissões daquela espécie que foram providas por Isaak. Em sua seriedade, a honestidade era clara, e se recuperara o ar há poucos instantes Abraham não pode evitar que ele voltasse a lhe faltar, encontrando nos braços a si estendidos e arroxeados a desculpa para olhar para algo que nãos as irises mais escuras do jovem Barnes - não confiava em si o suficiente para fazê-lo sem deixar transparecer tudo o que o conjunto de palavras tão simples ocasionara. “Well...” Iniciou, então, a ponta da língua passeando sobre a boca seca enquanto o coração parecia prestes a explodir ou coisa similar, depositando mais pomada na própria mão, passando-a sobre os locais necessário com cuidado. “Se eu to bravo de quem é a culpa? Porque eu prefiro a ir pro hospital do que deixar você ir também, Isaak. Acho melhor... Nós dois nos mantermos fora dele.” Sua voz provavelmente soara mais dotada de expressão do que pretendi, é claro, mas teve pouca importância diante do dramalhão do moreno.
Antes que tivesse ciência, o riso escapava aos lábios, a fileira de dentes brancos se exibindo pelo divertimento tanto quanto este se fazia presente nos olhos claros. Foi na memória que ele guardou a curvatura da boca do homem que sorria-lhe à sua frente, sabendo que mais tarde sentiria-se frustrado por não poder passar ao papel o quão bonito ele era, sabendo que repetiria bocas e mais bocas até que se convencesse de que a realidade era mais incrível que seus desenhos e que, por mais que quisesse esconder, bastou vê-lo para que o batimento cardíaco se acelerasse. “Oh, nós dois sabemos que essa tarefa é impossível. Mas e se eu disser que não pode? Você ia vai fazer o que? Rir mais alto na minha cara?” De alguma forma, Abraham não duvidava que ele fizesse, seu lado mais infantil exposto no questionamento e, tão envolto via-se pela aura do mais velho, que sequer notou quando a mão que antes segurava seu antebraço encontrou a dele, segurando-a na sua.
Mentir e omitir nunca foram especialidades suas de qualquer forma e, naquele instante, Abraham sorria para Isaak como se ele fosse a coisa mais importante de seu muito.
No que concernia o mais novo, ele de fato era.