Não me lembrava de ter acordado ou calçado os sapatos, muito menos de ter andado até ali.
Era como ainda estar dormindo, dormente, sentada no topo de um nuvem negra e pesada. Não sentia minhas pernas. Queria falar mas não falava. Por que não falava?
"Porque se falar eu mato você." A voz dele era maliciosa e quente, porém firme; um tiro na coxa, um soco no nariz, uma foice no pescoço. "Se abrir a boca eu mato você."
Alguém não queria ouvir minha voz.
As minhas costas, fogo: o funeral de dez mil noites. Os corpos foram queimados aos montes, o cheiro era pior do que poderia ter imaginado. Rio segurou minha mão e chorou sem fazer barulho. Arabella nem apareceu.
E então o barco, que balançava.
Não estava conseguindo acompanhar meus próprios movimentos, meus pensamentos eram letárgicos e abarrotados de ansiolíticos. A porcaria do mundo real possuía cortes de edição.
Foi em menos de uma hora que senti que iria desmaiar. Isso até me sentar com Harmônia na proa da navegação, aí já não tive mais certeza se estava desmaiada, acordada, vivendo ou morrendo; sonhando ou dando curto-circuito.
— Inaceitável! - ela gritou, horas depois de murmurar coisas sem sentido e rir sozinha — Gostava de ouvir você cantar.
Me encarando e franzindo o rosto como uma lunática, salientou sua insanidade. E mesmo assim, as palavras não saiam da minha cabeça.
— Ele vai voltar para você — concluiu, me segurando pelo braço - Não duvide do amor.
Quando fiz menção de levantar, ouvi outra voz. Masculina, maliciosa e quente, porém dócil. Alguém que não estava lá.
"Não duvide, meu amor" foi o que ele disse.
E depois disso tudo doeu.
Caí na cama, algum momento depois, e chorei até conseguir dormir.
— Osk? A gente já chegou, levanta daí.
Honestamente, preferia morrer.
Se eu não me mexer talvez ela vá embora.
— Vou contar até 5, se você não levantar, vou aí dar um beijo na sua boca. Levantei, ainda de olhos fechados e coloquei as duas mãos sobre meus lábios. Só queria um único dia de paz.
— Boa menina. — Rio disse, afagando meu cabelo já bagunçado — Antes de mais nada, abra os olhos.
A obedeci, mesmo com a visão um pouco turva e desacostumada com a iluminação. Ela, sorrindo como uma boba, me entregou um caderno de capa dura amarrado a um barbante e uma canetinha preta.
— Assim eu não vou precisar ficar deduzindo o que você quer. — explicou — É só pendurar no pescoço e escrever sempre que achar que precisa.
Balancei a cabeça positivamente, grogue de sono.
— Vai, tenta ai — disse ao se sentar na beira da cama — Como você ta se sentindo hoje?
Pensei um pouco em como responder. Estava cedo demais pra usar a cabeça.
"Melancolia" — escrevi, apontando a folha rabiscada em sua direção.
— OK... Não foi exatamente isso que eu perguntei, mas tudo bem! — voltou a levantar-se — Agora levanta essa bunda daí. Vou te mostrar o acampamento.
Acabou que ela não mostrou acampamento coisa nenhuma. Preferiu flertar com as filhas de Afrodite na porta de entrada, então tive que me virar sozinha.
Apesar de Pandora ser impossivelmente grande, Rómulo conseguia ser ainda maior. As construções, apesar de menos detalhadas, eram mais modernas e passavam muito mais segurança. Sem contar que a divisão de quartos era completamente diferente, designados pelo desempenho do aluno dentro das atividades do campo ao invés de pelo simples acaso de terem nascido de deus x ou deus y.
Só havia um problema: todos os antigos campistas estavam mortos. Quilômetros e mais quilômetros de corpos cobriam todo hall de entrada, o sangue seco pintando o asfalto quente e atrapalhando toda a circulação do grupo grego. E o pior de tudo: ninguém sabia o que havia acontecido. Nem mesmo Ophélia, que até então parecia uma fonte de conhecimento inesgotável.
Todo mundo parecia assustado e em constante alerta.
Algum tempo depois, foi minha vez de entrar em pânico.
— Filha de Hefesto — Basil chamou — A ronda da tarde é sua. Seu parceiro vai te encontrar na floresta daqui a vinte minutos.
Nem cheguei a concordar com a cabeça. O homem tão rápido como veio, foi embora.
Lentamente, arrastei meus pés até os fundos do acampamento, onde um grande complexo de árvores e arbustos se abria. Era ridículo. Como podia um lugar tão assustador e extenso me causar tamanho deslumbre? Qualquer um que chegasse perto de lá saberia: não era um lugar para se brincar de esconde-esconde (muito menos para se apaixonar).
Esperei por um tempo, perdida na minha própria viagem, até que meu companheiro finalmente chegasse.
Desejei nunca ter aberto os olhos.
Lá estava ele, em toda a sua glória olímpica, me olhando como se eu fosse uma formiga. Os cabelos nos olhos, os dedos ossudos, a voz de um verdadeiro assassinato: o menino dos meus sonhos. Matthew. Não foi o primeira coisa que veio na cabeça, mas por algum motivo, sabia que era esse o seu nome. Matthew, filho de Zeus, se falar eu mato você.
— Então… você também sente algo estranho quando me vê? — perguntou, caminhando ao meu lado. Não respondi. —Tudo bem, deve ser um sim. Sabe, eu ando sonhando com você… não consigo compreender o significado desses sonhos.
Cada palavra que ele dizia, descia rasgando pela minha garganta e doía. Queria ainda estar na cama, assim poderia chorar em paz.
— Gosto da sua voz, ela é muito bonita, tipo as das sereias, sabe? — riu — na verdade, eu nunca ouvi o canto de uma sereia, mas você entendeu. Então… por que não quer falar comigo? Eu adoraria poder ouvi-la novamente.
Parei de andar. Já havia ouvido o bastante. Escrevi no caderninho furiosamente e o virei para mostrar seu conteúdo.
"Eu não sou sereia. Você me dá medo.”
Matthew não pareceu nem um pouco afetado com a confissão, visto que continuou a andar sem mim.
— Desculpa princesa, eu só fiz um elogio. Não gosta de elogios?
A passos curtos, o segui caminho a frente, virando a página do caderno para escrever numa folha em branco: "Não"
— Tudo bem, eu prometo não te elogiar mais, mas você tem que falar comigo pra isso. — disse olhando para mim.
Pensei um pouco a respeito, caminhando em silêncio com o caderno apertado entre os dedos, antes de voltar a escrever.
O silêncio foi como um caída de montanha-russa. Um frio extremamente incômodo no fundo da barriga me levava a acreditar que talvez tivesse falado demais. Talvez ele estivesse com medo. É bom que esteja.
“Várias. Não sei o que significa”
— Eu também — suspirou em concordância, o que me aliviou de certa forma — O que você sente durante esses sonhos?
Demorei, imaginando que talvez não existisse uma palavra só no mundo que categorizasse o sofrimento vivido naqueles pesadelos, mas então lembrei da primeira folha do caderno, onde eu havia escrito melancolia. Apontei a pagina para o menino, ainda sentindo que deveria mais explicações.
Escrevi em uma outra página em branco: "E medo."
— Eu também — disse, voltando sua atenção ao chão de terra — mas havia algo a mais, acho que culpa.
Queria ter dito para ele: como havia me ameaçado, na maior perversidade, tirado as palavras da minha boca, a voz da minha garganta; cortado minhas ligações, me lavado com água morna e sabonete e me botado pra secar do avesso. Queria ter escrito. Ah, como queria ter escrito tudo naquele caderninho, riscado até a última folha e mostrado para ele. Mas então senti a eletricidade do seu corpo que estava próximo do meu e estava em casa. Talvez na vida passada eu tenha sido uma pessoa horrível.
Caminhamos por uns quarenta minutos, em completo silêncio, até que nos chamassem para voltar.
Fiquei um tanto feliz por poder me separar, mas um pouco triste pelo mesmo motivo.
Ele era feito de algo que eu já havia provado.
"Connor Kim" — escrevi em uma folha, dobrei e a coloquei no casaco do menino sem que ele percebesse.
Se eu tivesse que lidar com fantasmas, ele teria também.