Eu costumava ser uma criança sonhadora numa pequena casa de madeira no interior do ParanĂĄ atĂ© que conheci vocĂȘ. E eu sei que jĂĄ se passaram longos 7 anos desde que trocamos as primeiras mensagens em celulares antigos demais para nos lembrarmos de tudo detalhadamente, mas cĂĄ estou eu novamente revirando essa cova em busca de respostas para as mesmas perguntas que tu tinhas enquanto eu, um adolescente de 15 anos jogado numa cama de casal apenas preocupado em tirar boas notas nas matĂ©rias do colĂ©gio e vocĂȘ, um adulto de 19 anos cursando direito na faculdade catĂłlica do Tocantins estava cabisbaixo com a vida adulta procurando um alivio para sua saĂșde mental.
Eu te mantive como a maior promessa daquele tempo, sem anticorpos suficiente para encarar a vida, me perdi completamente nas entrelinhas do que de fato tĂnhamos. VocĂȘ me apresentou os portĂ”es do inferno com um rosto angelical, e eu anos depois estou aqui na minha cidade natal, a mesma cidade que vocĂȘ ama e que hoje Ă© o motivo para eu ficar completamente mal.
VocĂȘ se eternizou na minha alma e tambĂ©m no meu coração, desabafando nas noites de insĂŽnia nessa rede social com milhĂ”es de usuĂĄrios onde pra sempre vou permanecer como um fantasma da mesma forma que fui para vocĂȘ nas noites do inverno de 2015, iludido demais para enxergar o amanhĂŁ e a enorme distĂąncia entre o noroeste paranaense e a capital do Tocantins eu acreditei com todas as minhas forças que essa histĂłria de amor adolescente jamais teria um fim.
Orlando, Orlando, Orlando⊠serĂĄ que atĂ© o meu Ășltimo suspiro nos encontraremos por alguns desses demasiados campos?
As estrelas que me faziam companhia enquanto ficåvamos em ligação por horas naquela silenciosa rua me guiaram direto para um bairro nobre na mais fria das capitais.
Então naquela sexta-feira do dia 22 de julho eu te deixei ir contra minha vontade⊠Mas ainda estou preso naquele Înibus em direção à Universidade Estadual de Maringå onde fui passar um dia inteiro com meus amigos em busca do nosso futuro pensando a todo tempo que o seu futuro seria comigo.
O intenso e vibrante por do sol daquele dia entrou em um contraste terrĂvel com a pior sensação que jĂĄ havia sentido na vida, a caminho de casa quando vocĂȘ me jogou para escanteio numa partida praticamente perdida.
Meu caro Boniatti, sempre estivemos distantes em absolutamente todos os sentidos, e apesar dos sinais que me mostravam direçÔes contrårias ao que eu acreditava, mantive o pé no acelerador rumo ao apåtico final que me aguardava.
Tolice minha pedir ajuda para terceiros quando na verdade sempre soube que nessa vida seria apenas eu por mim mesmo. A dor que vocĂȘ colocou em mim ecoou por longos meses atĂ© que finalmente consegui aos poucos deixar vocĂȘ ir, como um pĂĄssaro enjaulado se batendo desesperado nas grades de uma gaiola enferrujada eu estava louco para me ver liberto de tudo aquilo.
Mas hoje, longe, muito longe daquela grade Ă© inevitĂĄvel olhar para trĂĄs e perceber que os problemas atuais sĂŁo bem mais complexos e dolorosos do que amar um piĂĄ que por hora estava longe demais.
Algumas coisas nunca mudam, hoje em dia consigo enxergar pessoas desesperadas por afeto, carinho e atenção dominadas pela carĂȘncia na grande maioria das ruas, dos bairros e atĂ© aqui mesmo nessa estação.
Foi-se o tempo que eu deixava de viver por causa de um amor que alĂ©m de passageiro era parcialmente correspondido, as folhas do outono caĂram e levaram consigo cada atitude infame de um pia que por muitas vezes se via perdido.
Essas memórias ficarão aqui, vez ou outra caminhando pelos longos corredores do meu coração me deparo com elas. O tempo em que a vida nunca foi tão ruim mas também nunca tinha sido melhor. Sento-me nesse chão que hoje encontra-se limpo e reforçado, abro essas caixas que não precisam de cadeado e volto para quando o amanhecer tinha cheiro de terra molhada e caminhava para o colégio com uma mochila cheia de pastas vazias.
Mas assim como o tempo passou e te levou para bem longe, possuo minhas responsabilidades de um adulto que me impedem de ficar parado aqui refletindo feito um monge.
Ă hora de fechar a caixa e colocĂĄ-la novamente em seu lugar. ! O dever me chama, dou o Ășltimo gole nesse copo de cafĂ© e veja⊠meu biarticulado acabou de chegar.
AtĂ© breve meu querido, onde quer que esteja, saiba que envio as melhores vibraçÔes, e que aquele sonho de se tornar juĂz esteja quase ao seu alcanceâŠ
Afinal, de todos os que eu jĂĄ vivi⊠vocĂȘ serĂĄ para sempre o meu eterno quase romance.












