“Norman Bates, eu? Ok, talvez. Te desafio a subir no meu sótão pra dar uma olhadinha… não notou que meu pai está meio sumido?” Noah falou, levantando uma sobrancelha e fazendo uma pose meio misteriosa, lembrando-se do que Norman Bates fez com a mãe e ainda fingia ser ela no filme que viu com Sadie no outro dia. Os dois terminaram rindo muito, mas ainda era um clássico interessante. Noah não conseguiu se manter sério por muito tempo, soltando uma risada anasalada. “Ok, eu ia tentar fazer uma imitação dele, mas não consigo!” Disse em um tom animado, que logo morreu quando começaram a falar do livro.
Parecia que era assim sempre que pensava naquele maldito objeto, e agora falando com Sadie sobre ele, podia notar que a deixava apreensiva também. Não sabia o que ela tinha visto ou ouvido por Storybrooke, mas tinha certeza que o povo começava a sentir o clima mais tenso pelos arredores. Não sabia explicar exatamente como via isso, mas depois de colocar as mãos no livro era como se os pelos de sua nuca se arrepiassem de vez em quando, como se sentisse estar sendo observado. Acordou de seus pensamentos quando a loira o questionou sobre o pai estar no livro, encolhendo os ombros. “Era ele. Renard. Igual da cabeça aos pés, eu juro. Clarissa também… Eu só dei uma olhada rápida, mas juro que vi rostos conhecidos. A Hope ficou confusa, mas não viu o livro na minha frente. Foi tudo… estranho.” E estranho resumia muito o que estava passando. Olhou para as mãos de Sadie, assistindo uma delas se aproximar para tocá-lo e entrelaçar os dedos nos dele. Quando ela o contou sobre conexões e como ela não sentia nada com ele, Noah ficou um pouco incomodado quando a pergunta se voltou pra ele. O que tinha de errado com o rapaz? Noah sentia, sim, certa conexão com ela. Talvez não algo como Sadie descrevia, mas sentia. E sentiu quando se beijaram na piscina no outro dia, e sentia agora quando ela estava tão próxima, tocando sua testa com a dela e com o nariz de ambos encontrando-se. “Não…” Foi o que terminou dizendo, meio incerto porque, no fim, o que realmente sentia por ela não era uma estranheza que tinha a ver com o livro. Eram amigos, certo? Talvez fosse o beijo ainda confundindo seus pensamentos. Estava prestes a perguntar o que aconteceu no circo, mas Sadie estava incomodada. Muito pior, ela parecia prestes a entrar em pânico.
Sem pensar, Noah juntou seus lábios aos dela em um beijo delicado. Sentiu seu coração bater mais forte ao perceber o que estava fazendo, e havia prometido a si mesmo que tentaria não estragar de novo a amizade que tinham. Só que agora não estava pensando. Toda aquela conversa embrulhava seu estômago e só o que acalmava era Sadie, e sentir os lábios dela de novo o traziam um conforto que não sabia descrever. Se o livro havia o amaldiçoado, Sadie tinha o efeito totalmente ao contrário. “Desculpe… Do… d-do que você quer falar?”
Ela gargalhou quando ele mencionou a parte do pai estar meio sumido. "Você é péssimo, Noah Hayward. Mas quer saber? Eu aceito o desafio. Vou subir no seu sótão." Deu de ombros, aceitando o desafio imposto por ele; sabia que não encontraria nada no sótão, já tinham estado lá juntos mais de uma vez, noutros tempos. A expressão séria, à la Norman Bates que Noah tentava estampar apenas somou na vontade que Sadie tinha de rir; mas o momento descontraído durou pouco e, logo, o clima ficou pesado com o assunto do livro.
À cada nova informação dada por ele — sobre jurar ser Renard, sobre Clarissa, sobre Hope... a loira se via mais e mais desconfortável. Não chegava a ser um desconforto causado pela confusão de Pierre estar atrás de um livro de contos ou algo do tipo, era físico; como se tivesse comido algo estragado. Ela queria contar a Noah aquela sensação bizarra, mas tinha certeza que isso só adicionaria na lista de preocupações do rapaz; e a última coisa que Sadie queria era deixá-lo ainda mais nervoso. Estava tão agitada, pelo choque, pela vertigem, que sequer percebeu que a sua fala poderia ser interpretada errada pelo rapaz, deixando escapar o tom de voz incerto nas palavras soltas por ele. Em outro dia, conhecendo-o como somente ela conhecia, teria deixado claro que não se referia à conexão pessoal entre eles, e sim às estranhezas de Storybrooke. Quando se afastou, com os olhos marejados, ela precisou respirar fundo para não desabar em lágrimas na frente do Hayward durante aquela troca. Oras, o quê uma garota mimada como ela tinha para chorar, quando era o amigo quem havia se metido em encrenca? Sadie odiava a parte de si que parecia sempre se vitimizar por tudo que acontecia ao seu redor, mas não conseguia evitar a sensação de que ela era... errada. De que ela não pertencia.
Não teve tempo para pensar em mais nada, porque quando se deu por conta, Noah estava a beijando. Sadie ficou parada, quase hipnotizada, até que se entregasse ao momento e retribuísse o toque, fechando os olhos. Ao contrário da primeira vez que haviam feito aquilo, na piscina, quando ela não sabia como beijar alguém, era um beijo delicado e confortável. Não era estranho, nem atrapalhado. E que apesar de fazer com que o coração dela tomasse um ritmo frenético pela surpresa, havia silenciado todos os pensamentos ruins que poderia vir a ter sobre o livro, sobre ela, sobre a cidade e sobre o fato de que eles eram amigos e aquilo poderia colocar muito em risco. Nada disso importava agora. Sadie sentiu os braços subirem, curvando-os ao redor do pescoço dele e o puxando para mais perto, como se pedisse para que ele não parasse. “Não precisamos falar de nada, isso tá bom.” Murmurou em resposta contra os lábios dele, instigando-o com um resvalar suave. Deslizou as mãos até os ombros dele, pegando impulso e passando uma perna por cima das coxas alheias, acomodando-se no colo dele antes de voltar a beijá-lo, cada vez com mais urgência, explorando minuciosamente a boca dele. “Você tem certeza absoluta que o tio Oberon não vai entrar agora e ver isso, né?” Ela precisou se afastar minimamente para soltar a brincadeira, levantando uma sobrancelha com os lábios curvados num sorrisinho.