“Quando escrevi meu primeiro poema eu estava sangrando, e quem sente o poder de um poema, sabe o que significa sangrar. No segundo poema, senti a complexidade, me assustei com a loucura, e entendi que a poesia é quase sempre um misto de coisas dotadas de vida: lágrimas e sangue, sofrimento e prazer, lucidez e loucura. Escrever é concentrar todo o sofrimento nos pulsos, e não estou dizendo que todo poeta sofre, apenas compartilho do pensamento de Schopenhauer: “Todo homem tem uma vontade insaciável, que quando não realizada, se constitui numa angústia”. Minha poesia é angústia. Meu escrever é angústia. Minha explosão versificada é angústia. Angústia porque quero ser livre e livre não sou. Angústia porque na busca por respostas, encontro mais perguntas, e o desassossego se apodera da criatura que sou. Nunca pensei que poderia achar na angústia uma ilusão bonita, mas a poesia, em toda sua magnificência, me fez sentir o poder subversivo que Platão tanto temia. Poema após poema eu sangro, grito, choro, me excito e sinto o prazer delirante das palavras se solidificar entre a rigidez atormentadora do silêncio que me encara. Sou um homem angustiado e a poesia é mão que me sustenta diante do abismo das coisas que nunca existirão. Eu gostaria de acreditar que dentro desse ciclo vicioso exista uma curva mais sinuosa que me leve a enxergar as faíscas da minha própria derrapagem. Escapar da angústia e ouvir o som da capotagem de todas as minhas inspirações num delírio suicida digno de um poeta iluminado. Eu queria assassinar com 300 megatons toda essa amargura desenfreada. Escreveria a poesia do século? Talvez uma explosão de sangue, vísceras e palavras saindo pelos poros e incendiando tudo ao redor. Daria adeus a minha mediocridade enquanto ser humano dotado de pernas e instrumentos orgânicos que pouco satisfazem a minha curiosidade de mundo, de conhecimento e de amor. Abriria o cárcere da alma dedilhando uma melodia suave enquanto provocasse um gozo cinematográfico cheio de versos e rimas ascendentes. E quem sabe, depois de tudo, eu finalmente teria a imensidão. Eu descansaria um mês inteiro, o riso solto, os amigos ao redor, o céu amplo e vivo, a água escorrendo pelos dedos, a liberdade. Talvez toda essa geografia permeada de caminhos estreitos e tortuosos possa parecer desastrosa, mas não é, acredite, eu me libertaria, eu seria a própria poesia.”
— Otávio L. Azevedo, o buendia e Elisa Bartlett em “A Morte do Poeta”. (via oxigenio-dapalavra)













